Análise: tiroteio contra político é nova demonstração de raiva e culpa nos EUA

Alexander Burns*

  • Nicholas Kamm/ AFP

    15.jun.2017 - Polícia isola avenida em frente à Casa Branca, em Washington DC

    15.jun.2017 - Polícia isola avenida em frente à Casa Branca, em Washington DC

A violência ocorre regularmente há anos, em um espasmo politicamente carregado atrás do outro. Uma deputada federal foi baleada na cabeça em Tucson, Arizona. Ataques ao Museu do Holocausto, a um escritório da Planned Parenthood (organização de planejamento familiar) e ao Conselho de Pesquisa da Família, um grupo conservador. Homens armados atacaram os fiéis de uma igreja negra na Carolina do Sul, imigrantes indianos no Kansas e policiais em Nova York e no Texas.

A tentativa de massacre de legisladores republicanos em um campo de beisebol fora de Washington não foi uma aberração, mas o mais recente exemplo de uma tendência sombria, amplamente discutida por líderes de ambos os partidos, mas nunca reduzida ou contida.

E com legisladores, assessores e policiais do Capitólio hospitalizados na quarta-feira, um processo de lamentação e recriminação de desenrolou como um ritual familiar, com uma declaração melancólica do presidente e condenações bipartidárias à violência rapidamente dando lugar a apontar de dedo e recriminação nas redes sociais.

Até mesmo gestos elevados de conciliação, inclusive do presidente Donald Trump e do senador Bernie Sanders, contribuíram pouco para mudar a sensação de que a cultura cívica americana está consumida por raiva e em colapso, apesar de doença mental às vezes impossibilitar dizer exatamente o que leva à violência.

Para sobreviventes de ataques anteriores, o tiroteio na Virgínia, perpetrado por um ex-apoiador de Sanders de 66 anos que expressou fúria com a presidência de Trump, pareceu um sinal de que o pior ainda está por vir.

O ex-senador John C. Danforth, republicano do Missouri, disse que a violência reflete um contágio na cultura política americana, na qual adversários são tratados como "pessoas a serem destruídas". Ele disse que Trump e os líderes democratas, assim como a mídia de notícias, todos são culpados.

"Somos inundados por fúria", disse Danforth, que é um padre episcopal ordenado, em uma entrevista. "Não são apenas os políticos eleitos. É a exigência das bases dos dois partidos, e é em grande parte encorajada pela mídia."

Local onde ocorreu o tiroteio contra políticos

Danforth, 80 anos, fez uma forte crítica a seu próprio partido em 2015, após o suicídio de um detentor de cargo estadual, Thomas Schweich, que vinha sendo alvo de ataques pessoais brutais. No elogio fúnebre, Danforth alertou: "Palavras podem matar". Mas ele reconheceu com tristeza na quarta-feira que os praticantes desse tipo de política raramente pagam o preço por ela.

"Aparentemente funciona", ele disse. "Leva a vitórias eleitorais, conquista audiência."

Ron Barber, um ex-assessor da deputada Gabrielle Giffords, democrata do Arizona que quase morreu ao ser baleada em 2011, e que a substituiu brevemente no Congresso, disse que o ataque de quarta-feira lhe trouxe "lembranças terríveis". Após sua própria eleição em 2012, lembrou Barber, pessoas enviavam mensagens para seu gabinete ameaçando agredi-lo ou matá-lo.

"Avançamos para 2017 e, lamento dizer, as coisas pioraram", disse Barber, um democrata. "O que aconteceu em 2016 foi uma campanha presidencial que acho que realmente intensificou a raiva e as vulgaridades que vemos direcionadas aos membros do Congresso."

Essa toxidade não emana apenas dos políticos, disse Barber. "Estou no Facebook e vejo coisas ali que não consigo imaginar alguém dizendo a respeito de outra pessoa", ele disse. "Temos visto aumento do racismo, antissemitismo, homofobia. É hora de todos nossos líderes, do presidente para baixo, dizerem: 'Parem'."

Eleitores na esquerda e na direita se descrevem como abalados e temerosos do que possa vir a acontecer a seguir. Entre os conservadores, o tiroteio pareceu confirmar a crença de que a oposição liberal a Trump sofreu uma guinada sombria, partindo para a violência. Para os liberais, o ataque gerou a preocupação com o extremismo potencial na esquerda e aprofundou a sensação, que vem desde a presidência de Barack Obama, de que conflitos partidários comuns assumiram tons mais ameaçadores.

Em Fairhope, Alabama, B.J. Middleton, um policial aposentado, disse que o clima político explosivo lembra o da época do assassinato do reverendo Martin Luther King Jr. em 1968. Middleton, 78 anos, que apoia Trump, disse temer cada vez mais a "violência que vem da esquerda".

"Eu estava lá nos distúrbios e com o que aconteceu ao dr. King, e lhe digo, a sensação é que estamos caminhando de novo para algo semelhante", disse Middleton.

Kayla Winner-Connor, uma estudante de pós-graduação em Los Angeles, disse ter ficado consternada, mas não surpresa, com a violência de quarta-feira.

"Odeio dizer isso, tudo o que estamos ouvindo parece realmente extremo e está polarizado há algum tempo, mas agora se tornou perigoso", disse Winner-Connor, que disse não apoiar Trump. Ela acrescentou: "A agenda dele parece tão errada e sinto uma resposta emocionalmente carregada, mas que está gerando algumas reações extremas".

A esperança de que o sistema político corrija a si mesmo parece competir com o cinismo a respeito da ideia de que as coisas possam ser salvas. Kari Duma, 45 anos, de Tucson, disse estar cética de que o país ouça o tiroteio de quarta-feira como um "sinal de alerta".

"Quantos sinais de alerta são necessários?" ela perguntou. "O fato é que as pessoas não têm medo de atacar outras pessoas por causa de política e crenças."

Há uma longa história de derramamento de sangue e assassinato na política dos Estados Unidos, às vezes executado por agentes ideológicos e às vezes por pessoas mentalmente instáveis. Atiradores mataram quatro presidentes e dispararam contra vários outros, assim como mataram King, Robert F. Kennedy e o pioneiro político gay Harvey Milk.

Pessoas com problemas mentais já atacaram antes membros do Congresso, incluindo Giffords e Allard K. Lowenstein, um ex-ativista antiguerra que foi assassinado em seu gabinete. Em 2003, um vereador de Nova York, James Davis, foi morto a tiros no plenário da Câmara Municipal por um oponente político.

A aparente guinada violenta na política nacional e o desaparecimento das regras tradicionais de civilidade também ocorrem à medida que tiroteios em massa (geralmente contra alvos civis não políticos, em escolas e espaços públicos) estão aumentando.

J. Scott Applewhite/ AP
O deputado republicano Steve Scalise

Alguns questionam a correlação entre violência e a retórica política, destacando que atiradores que atacam alvos políticos são com frequência instáveis ou furiosos por motivos não relacionados.

George Brauchler, um promotor público do Colorado que processou James Holden, que matou 12 pessoas em uma sala de cinema em Aurora em 2012, disse estar inclinado a ver o atirador de quarta-feira como basicamente "mal".

"Não sei se a política facilita isso ou se é apenas uma desculpa para isso", disse Brauchler, um republicano que está concorrendo a governador. "Não se trata de, na ausência da questão política, esse sujeito viveria uma vida cumpridora da lei."

Entre políticos e eleitores na quarta-feira, havia ao menos um elo visceral entre a mais recente violência e a contínua desintegração das normas cívicas, que deixa candidatos e comentaristas mais livres do que nunca para incitar impulsos odiosas sem medo das consequências.

Em 2011, o ataque a Giffords por um agressor doente mental ocorreu durante um período político convulsivo, quando um debate amargo em torno da reforma da saúde provocou uma onda de ameaças a legisladores. Sarah Palin, a ex-candidata a vice-presidente, recebeu duras críticas ao postar um gráfico online mostrando miras em distritos de vários membros do Congresso, incluindo Giffords, apesar de nenhuma conexão com o crime ter sido estabelecida.

Trump tem sido um diletante descarado da retórica provocadora, incitando as pessoas presentes em seus comícios a partirem para cima de manifestantes, além de sugerir no ano passado que "pessoas da Segunda Emenda" (pessoas que defendem o direito ao porte de armas) agissem contra Hillary Clinton caso ela fosse eleita. Ele nunca se desculpou durante a campanha por comentários que críticos disseram beirar o incitamento.

Mas Trump não detém o monopólio da linguagem cáustica. Ativistas na esquerda acusam o presidente de "traição", um crime que pode resultar em pena de morte, e o comparam a Hitler. A humorista Kathy Griffin pediu desculpas recentemente por postar um vídeo no qual ela segurava uma cabeça decepada e ensanguentada de Trump.

Frank Keating, que foi governador do Oklahoma quando militantes antigoverno realizaram um atentado a bomba contra um prédio federal ali em 1995, matando 168 pessoas, disse que autoridades públicas precisam ser mais sensíveis a respeito do efeito de suas palavras sobre "pessoas instáveis".

"Há pessoas que estão no limite, partidárias de ambos os partidos, que podem e farão coisas terríveis caso seu gatilho seja acionado", disse Keating, um republicano. "O botão da retórica precisaria baixar uns 17 pontos."

Eleitores de ambos os lados da divisão política compartilham esse sentimento. Na cidade de Nova York, Bill Ryan, 60 anos, um democrata que apoiou Trump, disse que a retórica de raiva está se tornando "cada vez mais intensa".

"Ela acende o pavio desses fanáticos malucos que acabam atirando em pessoas em um campo de beisebol", disse Ryan.

Christine Quinn, a ex-presidente da Câmara Municipal de Nova York, que testemunhou o assassinato ocorrido ali em 2003, disse que os guardrails em torno do comportamento político desapareceram.

"Você vê candidatos presidenciais, agora o presidente dos Estados Unidos, brincando a respeito da violência", disse Quinn, uma democrata. "Claramente, vemos evidências aqui de que isso está reverberando por todos os lados, e a realidade é que temos um tom agora onde não há limites."

* Luis Ferré-Sadurní, Jennifer Medina, Fernanda Santos e Matthew Teague contribuíram com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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