De perfil independente, homem que vai investigar Trump é atirado em intensa crise política

Scott Shane e Charlie Savage

Em Washington (EUA)

  • Molly Riley/Reuters

    Robert Mueller, conselheiro jurídico especial nomeado para investigar Donald Trump

    Robert Mueller, conselheiro jurídico especial nomeado para investigar Donald Trump

Robert S. Mueller 3º conseguiu em seus 12 anos na direção do FBI manter-se acima de disputas partidárias, cultivando cuidadosamente uma rara reputação de independência e justiça. Mas sua nomeação como conselheiro jurídico especial (procurador da República) para investigar a relação entre Trump e a Rússia o atirou no meio da mais intensa briga política de sua carreira --especialmente porque suas primeiras contratações incluem vários promotores que já fizeram doações a candidatos democratas.

"Vocês estão presenciando a maior CAÇA ÀS BRUXAS da história da política americana --liderada por algumas pessoas más e conflituosas!", escreveu o presidente Donald Trump no Twitter na manhã de quinta-feira (15). Os apoiadores do presidente e canais de notícias conservadores repetiram sua mensagem de que a investigação de Mueller é injustificada e sua equipe, tendenciosa contra Trump.

Veteranos de antigas batalhas em Washington nos limites entre direito e política disseram que a reação do presidente era de se esperar, mas que sua ferocidade e o momento escolhido são incomuns. Com apenas um mês no cargo, Mueller ainda não acabou de contratar sua equipe ou de instalar uma rede de computadores --deliberadamente separada da principal do Departamento de Justiça-- no Edifício Patrick Henry, no centro de Washington.

"É cedo para começar a impugnar os promotores", disse Philip Allen Lacovara, um promotor de Watergate e um republicano. "É um ataque nuclear preventivo. Se você tem medo do que os promotores irão descobrir, você tenta desacreditar qualquer coisa que eles poderiam encontrar antes de atacá-los."

Pelo menos por enquanto, Mueller não está reagindo aos tiroteios do presidente ou permitindo que sua equipe reaja a eles. Peter Carr, um porta-voz de Mueller, disse que seu gabinete impôs "controles rígidos para proibir revelações não autorizadas que tratam com severidade qualquer membro que pratique essa conduta".

O gabinete não quis divulgar uma lista completa de quem Mueller contratou. Mas Carr confirmou vários nomes que vazaram.

Eles incluem três autoridades do Departamento de Justiça ou do FBI: Andrew Weissmann, que chefiou a seção de fraudes da Divisão Criminal do departamento, serviu como advogado geral do FBI quando Mueller foi seu diretor e anteriormente liderou a força-tarefa da Enron; Michael Dreeben, um vice-procurador-geral especializado em questões de apelação envolvendo direito penal; e Lisa Page, uma advogada do FBI que foi advogada de julgamento na seção de crime organizado da Divisão Criminal.

Além disso, quando Mueller saiu da firma de advocacia WilmerHale, onde trabalhou depois de deixar o FBI em 2013 até se tornar conselheiro especial no mês passado, ele levou consigo três sócios: James L. Quarles 3º, um litigante veterano que foi promotor especial assistente na investigação de Watergate no início de sua carreira; Jeannie Rhee, outra experiente advogada criminalista de colarinhos-brancos que foi promotora de corrupção pública e depois trabalhou no Escritório de Aconselhamento Jurídico do Departamento de Justiça; e Aaron Zebley, que foi chefe de gabinete de Mueller no FBI.

Ao todo, segundo Carr, Mueller já contratou 12 advogados, e vários outros estão em avaliação. Um ex-promotor federal disse que Mueller está contratando promotores desconhecidos para preencher seu gabinete e que vem sondando funcionários de várias promotorias importantes, inclusive do Distrito Sul de Nova York.

Mas os prospectivos contratados que pensam em entrar na equipe de Mueller estão observando os já inscritos sofrerem intenso escrutínio, do tipo que os promotores comuns e advogados de empresas raramente experimentam, enquanto os apoiadores de Trump tentam desacreditar a investigação.

Weissmann fez doação para a campanha de Obama em 2008, quando trabalhava para a firma de advocacia Jenner & Block. Rhee representou a Fundação Clinton --juntamente com Jamie Gorelick, sócio da WilmerHale que hoje representa Jared Kushner, o genro de Trump-- e doou à campanha de Hillary Clinton em 2016. Quarles fez doações a candidatos dos dois partidos --mas no balanço deu mais para os democratas.

Newt Gingrich, o ex-presidente da Câmara e um forte apoiador de Trump, disse que essas contratações são motivo de séria preocupação. "Diga-me, se você fosse um republicano, não estaria preocupado?"

Defensores das primeiras contratações de Mueller indicam que as regras do Departamento de Justiça, que ele deve seguir, proíbem levar em conta afiliação política ou ideológica ao decidir quem contratar para cargos de carreira como os do gabinete do conselheiro especial.

Sobre as opções iniciais de Mueller, disse Lacovara, "são profissionais de carreira. Naturalmente, alguns terão afiliação política. Mas estou absolutamente confiante em que Bob Mueller não está indicando pessoas com estas importantes realizações profissionais porque são democratas".

O conceito de um promotor especial sempre teve como premissa que um árbitro neutro, livre de qualquer coloração política, garantirá a fé pública na justiça de uma investigação. Essa premissa foi severamente contestada no passado, quando democratas acusaram o promotor de Whitewater, Kenneth Starr, de excesso de autoridade e preconceito político contra o presidente Bill Clinton, ao passar da investigação de um negócio de terrenos para o de um caso sexual.

Os republicanos também se queixaram quando Patrick Fitzgerald, que foi nomeado para processar um vazamento da CIA, acabou acusando I. Lewis Libby, um alto assessor do vice-presidente Dick Cheney, de mentir para investigadores --mas não acusou Richard Armitage, o vice-secretário de Estado, que admitiu ter sido uma fonte inicial do vazamento.

"Nenhum presidente gosta de ser examinado por um promotor especial", disse Ken Gormley, presidente da Universidade Duquesne, que escreveu livros sobre Archibald Cox, o promotor de Watergate, e sobre o escândalo do impeachment de Clinton. "A maioria deles revidou com força."

Mas para Trump a tática de tentar desacreditar qualquer um que represente um perigo tornou-se familiar. Na campanha para a Presidência, enquanto era processado pela fraude sobre a Universidade Trump, ele atacou o juiz que supervisionava o caso como sendo preconceituoso contra ele porque o juiz era mexicano-americano. Quando o Departamento de Orçamento do Congresso deveria emitir projeções negativas sobre o plano de saúde republicano, a Casa Branca declarou que o Escritório de Orçamento tinha um histórico de apresentar estatísticas imprecisas.

No caso de Mueller, há evidência de uma estratégia de ataque coordenada. Quando Mueller foi indicado, no mês passado, Gingrich o elogiou como uma "escolha excelente" e declarou que "sua reputação é impecável pela honestidade e a integridade".

Agora a coisa é outra. Gingrich disse que mudou de ideia sobre a investigação depois que o diretor demitido do FBI, James Comey, disse que vazou relatos de sua conversa com Trump em parte na esperança de instigar a nomeação de um conselheiro especial. Então, disse Gingrich, vieram as contratações de Mueller.

"Estamos juntando tudo isso", disse Gingrich, referindo-se a detalhes das doações democratas e outros indícios de viés por parte dos nomeados por Mueller.

Mesmo que Mueller quisesse buscar um equilíbrio político em sua equipe, enfrentaria um desafio incomum. Não apenas os democratas, como também muitos republicanos veteranos no Departamento de Justiça, manifestaram-se contra Trump.

Nessas circunstâncias, disse Paul Rosenzweig, um veterano da investigação do conselho independente de Starr, Mueller deveria considerar uma defesa política mais agressiva que as suas anteriores. Por exemplo, disse ele, se Mueller contratou outros promotores que fizeram doações aos republicanos, deve destacar essa informação --ou pelo menos revelar a lista completa de nomes.

Normalmente, disse Rosenzweig, um promotor-chefe pode reagir a ataques contra sua equipe com um dar de ombros.

"Em uma investigação sobre violência das drogas em Miami ou corrupção política em Columbus, Ohio, essa é uma reação perfeitamente adequada", disse ele. "Mas não aqui."

Mas Kathryn Ruemmler, que trabalhou várias vezes com Mueller ao longo dos anos conforme subiu de promotor da força-tarefa da Enron para vice-secretário de Justiça e depois conselheiro da Casa Branca do presidente Barack Obama, disse que é improvável que ele mude de posição.

"Era bem conhecido entre os veteranos do Departamento de Justiça que a posição de Bob Mueller é 'Se você vive pela imprensa, morre pela imprensa'", disse ela.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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