Mesmo assustados, londrinos reagem ao terrorismo sem alterar hábitos e rotinas

Katrin Bennhold

Em Londres (Reino Unido)

  • SERGEY PONOMAREV/NYT

    O terrorismo passou a fazer parte da vida dos londrinos

    O terrorismo passou a fazer parte da vida dos londrinos

Pela quarta vez em 12 semanas, marquei que estava me sentindo segura no Facebook. No Reino Unido. Era a manhã de quarta-feira (14), e os londrinos tinham motivos para estar um pouco otimistas.

O Borough Market, um animado bairro de bares e restaurantes perto do rio Tâmisa, estava reabrindo, menos de duas semanas depois que terroristas vestidos como falsos homens-bombas esfaquearam várias pessoas.

Os ataques ocorreram uma semana depois que um homem-bomba se explodiu em um show de música pop em Manchester, e dois meses depois que um terrorista atirou seu carro contra pedestres na Ponte de Westminster, antes de esfaquear um policial diante do Parlamento. Ao todo, 34 pessoas morreram.

Londres estava pronta para uma folga. Mas a cidade acordou na última quarta-feira com fumaça preta subindo para o céu enquanto o fogo destruía a Grenfell Tower, um grande prédio de apartamentos, matando pelo menos 17 pessoas e ferindo outras dezenas. O incêndio não foi um ato de terrorismo, mas quando as imagens apareceram nas redes sociais algumas pessoas pensaram que fosse.

A visão de uma torre queimando e relatos de pessoas que se atiraram pelas janelas trouxeram inevitavelmente lembranças dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA.

Mais uma vez, meu telefone zumbiu com mensagens frenéticas não apenas dos editores, mas de parentes e amigos ansiosos no exterior: "Você está bem?"

Londres está bem (pergunte a um londrino) e tudo parece quase normal. Quase. Policiais com metralhadoras patrulham as estações de trem. Há barreiras de aço e concreto ao longo das principais pontes para proteger os pedestres. Quando vou para o trabalho, de bicicleta, atravesso a Ponte de Waterloo e me vejo planejando uma fuga caso um carro venha em minha direção. Meus filhos na escola mandaram um recado dizendo que estão revendo as excursões de classes no centro de Londres e estarão "evitando trajetos pelo metrô e o transporte público".

Eu me vi perguntando: é isso que eles chamam de normal?

Não é tanto que os londrinos estejam alterando seu modo de vida em reação ao terrorismo. É mais que o terrorismo se tornou uma parte da vida em Londres. Olhares nervosos são trocados entre os passageiros do metrô quando o trem demora um pouco parado no túnel, e sorrisos aliviados quando ele começa a se mover.

Estudantes diante de um colégio no sul de Londres brincaram que a última variação de "O cachorro comeu minha lição de casa" é "Desculpe, professora, fui apanhado num ataque terrorista". Um vizinho me contou que o estouro forte de um cano de escapamento o assustou. "Pensei que fossem os terroristas de novo", disse ele, e riu.

Muitas pessoas aqui conhecem alguém que conhece alguém que quase foi apanhado num atentado. Uma amiga minha, funcionária pública, atravessou a Ponte de Westminster minutos antes que o atacante atropelasse os pedestres a 100 km por hora, em março. Outra amiga tem uma barraca no Borough Market, mas já a havia fechado no dia em que aconteceu o ataque. "Pensei que comida fosse sacrossanta", escreveu ela.

Você começa a pensar assim quando não acontecem atentados durante vários anos. Londres viveu aterrorizada nas mãos do IRA durante décadas. Ela sofreu os atentados de 7/7 em 2005, quando quatro homens-bombas coordenados mataram 52 pessoas durante o rush da manhã. Em 2013, um soldado britânico foi assassinado em uma rua de Londres em plena luz do dia. Mas desde então, enquanto Paris, Bruxelas e Berlim foram atingidas, Londres parecia distante da violência.

No último fim de semana, em reação ao último ataque, o prefeito de Londres, Sadiq Khan, basicamente pediu que os londrinos saíssem e festejassem, para mostrar "como nos unimos diante da adversidade".

Minha amiga Nadja Stokes, que dirige o Gourmet Goats no Borough Market, disse que o mercado ficou praticamente lotado de visitantes que queriam mostrar seu apoio quando ele reabriu na quarta-feira. "Londres é uma cidade grande", disse ela. "Mas no final somos uma comunidade."

Talvez o melhor resumo do clima fosse uma placa falsa do metrô que se tornou viral depois do ataque à Ponte de Westminster em março: "Todos os terroristas são gentilmente lembrados de que ISTO É LONDRES, e não importa o que vocês nos fizerem vamos tomar chá e seguir em frente muito felizes, obrigado".

A imagem parecia escrita pelos funcionários do metrô, mas na verdade foi gerada online. Não importa, ela foi compartilhada por milhares de pessoas e citada pela primeira-ministra como a síntese do espírito londrino.

Dois atentados depois, quando "The New York Times" deu uma manchete referindo-se ao Reino Unido como "abalado", também houve uma reação: no Twitter, londrinos listaram as coisas que realmente os abalam, que incluíam desde chá feito no microondas e filas que não avançam até turistas americanos barulhentos.

Para uma londrina não nativa (sou alemã, casada com um galês), há algo de admirável nesse espírito britânico de não ser intimidado. Mas muitas pessoas admitem um certo grau de inquietação.

Gustavo Lou, um estudante de 21 anos do oeste de Londres, disse que evitou pegar trens nos últimos dias. "Quando pego, vou na frente ou no final."

Os londrinos de outra geração muitas vezes citam a história da cidade como prova da resistência local, desde a "blitz" --os bombardeios alemães durante a Segunda Guerra Mundial-- à campanha terrorista do IRA nos anos 1970, 80 e 90.

Mick Bailey, 63, um motorista de táxi do norte de Londres, cresceu com "muitas histórias engraçadas sobre os blecautes e os bombardeios" durante a guerra. Certa vez sua mãe saiu do abrigo antiaéreo e encontrou a casa da família arrasada por uma bomba. "Então eles foram morar com outra família", disse ele. "Todo mundo dava um jeito."

Em 1983, quando um carro-bomba do IRA explodiu diante da loja de departamentos Harrods no auge da temporada de compras de Natal, Bailey trabalhava como bombeiro. Durante os últimos ataques no Borough Market, ele estava dirigindo seu táxi. "É uma sensação muito parecida com a do tempo do IRA", explicou. "Aconteceu, e as pessoas ficaram agradecidas por não terem sido atingidas. E seguiram em frente."

Ele se preocupa com seu filho, que é policial em Londres. Mas está decidido a não mudar sua vida, "porque se você mudar a coisa o controla, você não pode deixar isso acontecer", afirmou.

A coisa que mais preocupa Bailey é que os ataques realizados em nome do islã sejam explorados pelos populistas.

"Eu moro em uma área muito mista. Trabalho no meio de muçulmanos", disse Bailey. "Temos de ter certeza de não apontar o dedo na direção errada."

"Londres é um lugar muito especial", afirmou ele. "Toda essa gente de todos os lugares."

Isso me fez pensar em algo que Richard Thompson, um ex-oficial do MI6, o serviço de inteligência, me disse: "O terrorismo não é uma ameaça estratégia duradoura para este país". O incêndio de quarta-feira pode ter matado mais pessoas que os três atentados juntos, disse ele, advertindo contra a perda de perspectiva e as reações impensadas.

O mais antigo atentado terrorista registrado em Londres talvez tenha sido a Conspiração da Pólvora em 1605, quando um complô a favor dos católicos tentou assassinar o rei Jaime e explodir o Parlamento com 36 barris de pólvora. A trama foi descoberta e Guy Fawkes, que guardava os barris sob o Palácio de Westminster, foi enforcado, arrastado e esquartejado.

Até hoje, os londrinos comemoram o Dia de Guy Fawkes, todo 5 de novembro, com fogos de artifício. É um dos grandes festejos familiares do ano. Como disse John Robin, um professor de história do leste de Londres, sorrindo: "Que melhor maneira de lidar com o terrorismo?"

*Colaborou Thomas Furse, de Londres

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos