No Japão, contrabando de ouro renasce e mafiosos contratam até vovós

Jonathan Soble

Em Tóquio

  • Michael Dalder/Reuters

Às vezes os perpetradores são mafiosos. Às vezes, são menos acostumados com a vida do crime. Em um dos casos, o chefe de uma quadrilha de mulheres de meia idade seria supostamente uma mulher de 66 anos.

Um crime das antigas está passando por um renascimento no Japão: o contrabando de ouro. As autoridades dizem estar lutando contra um aumento surpreendente na quantidade de ouro que está sendo trazido ilegalmente para dentro do país. Os contrabandistas —uma gama que inclui criminosos profissionais e amadores aventureiros— lucram ao sonegar impostos e taxas de importação, em alguns casos totalizando milhões de dólares. Em poucos anos, o número de prisões aumentou 40 vezes.

O contrabando ganhou atenção nacional por causa de uma avalanche de episódios destacados pela mídia, incluindo um roubo de ouro descarado por ladrões vestidos de policiais, a apreensão de cargas de ouro no valor de milhões de dólares em barcos pesqueiros e aviões particulares, e o desbarate de uma quadrilha de contrabandistas que, segundo a polícia, era organizada por uma dona de casa de 66 anos de idade.

Os índices de criminalidade no Japão estão entre os mais baixos do mundo e têm caído ainda mais à medida que a população envelhece. Mas alguns crimes não violentos, como furto em lojas ou fraude, se mantiveram mais comuns do que outros, como assassinato ou assalto à mão armada.

Especialistas dizem que o contrabando de ouro é o tipo de crime que pode ser atraente até mesmo em um país rígido na aplicação das leis como o Japão: ele não requer violência, não faz vítimas exceto pelos cofres do Estado e não exige que um idoso carregue uma arma.

"Do ponto de vista psicológico, é algo que você pode fazer de forma mais casual do que contrabandear drogas", disse Takahisa Urushibata, um criminologista da Universidade de Economia e Direito de Osaka. "As pessoas veem isso como uma maneira fácil de ganhar um dinheiro extra, quase como um trabalho de meio-período".

Em pequenas quantidades, o ouro pode ser fácil de contrabandear. Agentes alfandegários relatam que algumas pessoas o trazem para dentro do Japão dentro de bolsos costurados nas roupas de baixo e em barras coladas com fita embaixo dos pés.

Este mês, a polícia na região central do Japão prendeu cinco mulheres na faixa dos 50 ou 60 anos por suspeita de esconderem quase 32 kg de ouro em suas roupas em voos vindos da Coreia do Sul, uma carga que vale cerca de US$1,2 milhão (quase R$4 milhões).

A mulher de 66 anos acusada de liderar o grupo admitiu ter feito oito viagens como essa nos últimos três anos, de acordo com a polícia. Criminosos no Japão cobriram as passagens aéreas e os gastos com hotel dela e de suas acompanhantes e lhe pagaram de US$200 a US$400 (R$650 a R$1.300) por libra (pouco menos de 0,5 kg) de ouro contrabandeado. (As mulheres se encontravam sob custódia e não estavam disponíveis para comentários, diretamente ou através de representantes legais).

Alguns contrabandistas trabalham em uma escala maior.

A guarda costeira disse, no mês passado, que havia detido um barco pesqueiro carregado com cerca de 208 kg de ouro, no valor de aproximadamente US$9,1 milhões (R$30 milhões.) Em outro caso em dezembro, dois homens conectados com um sindicato da yakuza, o Inagawa-kai, foram presos em um aeroporto em Okinawa depois de chegarem de Macau com 113 kg de ouro escondidos em um jato particular da Gulfstream.

E às vezes os contrabandistas se tornam os alvos. Dois deles, que estavam a caminho de uma loja em Fukuoka que compra ouro em dinheiro, foram confrontados por criminosos de uniforme de polícia que tomaram deles maletas contendo centenas de quilos de barras de ouro, no valor de US$6,9 milhões (R$22 milhões). Seis homens foram presos no mês passado por associação ao assalto.

Contrabandistas de ouro basicamente lucram com a lei tributária.

A polícia diz que o ouro contrabandeado vem de lugares onde as compras não são tributadas, como Hong Kong ou Macau. Ele é trazido na maioria das vezes por avião, ou diretamente ou através da vizinha Coreia do Sul, que compartilha voos com muitas cidades japonesas. Os contrabandistas, diferentemente de importadores legítimos, escondem suas cargas de agentes alfandegários e deixam de pagar um imposto de 8% sobre o ouro trazido para dentro do país.

Uma vez no Japão, o ouro é vendido em lojas que compram ouro em dinheiro, como lojas de penhora. Esses negócios pagam aos vendedores, mesmo os individuais, o valor do metal além do imposto sobre vendas. Essa é a chave do lucro: os contrabandistas embolsam a parte do imposto, tendo um lucro automático de 8%. Embora a margem possa parecer pequena, para uma mercadoria que vale mais de US$1.000 a onça (cerca de 28 g), o dinheiro pode se avolumar rapidamente. Um aumento no imposto sobre as vendas em 2014 expandiu o potencial de lucro.

Os riscos, em comparação, podem parecer pequenos.

Embora seja impossível saber quantos contrabandistas conseguem evitar ser detectados, especialistas dizem que a maioria deles provavelmente consegue. Um homem e uma mulher que foram presos sob suspeita de contrabandearem ouro em 2009 disseram que haviam feito 56 viagens de ida e volta para Hong Kong e Austrália, lucrando US$1,4 milhão, antes de serem pegos, de acordo com registrados coletados por autoridades alfandegárias.

Os poucos azarados que são pegos normalmente são acusados somente de sonegar o imposto sobre a venda, um delito que acarreta uma multa máxima de aproximadamente US$90 mil (R$295 mil). Uma vez paga a multa, o ouro geralmente é devolvido, segundo agentes alfandegários.

Os casos de contrabando se multiplicaram. Durante a década antes do aumento do imposto sobre vendas, em um ano típico a polícia prendia cerca de 10 pessoas sob suspeita de sonegação fiscal relacionada a contrabando de ouro, de acordo com dados compilados pelo Ministério da Fazenda. Em 2015, houve 294 prisões, um ritmo que continuou no ano passado, segundo autoridades, embora os números oficiais para 2016 ainda não estejam disponíveis.

Sindicatos da yakuza estão por trás de parte dos contrabandos, disse Atsushi Mizoguchhi, um escritor de não-ficção especializado no submundo do crime japonês. Mas boa parte deles, ele disse, é realizada por grupos mais novos e independentes que não possuem ligações formais com o crime organizado tradicional.

"Eles são mais criativos do que a yakuza", disse Mizoguchi. "E agora eles estão ricos, então podem crescer comprando ainda mais ouro".

*Com reportagem de Hisako Ueno

Tradutor: UOL

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