Animais podem prever terremotos? Itália faz o teste

Elisabetta Povoledo

Em Pieve Torina (Itália)

  • Nadia Shira Cohen/The New York Times

    A principal igreja de Borgo Sant'Antonio, Itália, oito meses depois do terremoto que devastou a região

    A principal igreja de Borgo Sant'Antonio, Itália, oito meses depois do terremoto que devastou a região

Após uma série de terremotos poderosos ter atingido a Itália no ano passado, Martin Wikelski correu para cá para testar um palpite que provoca cientistas e pensadores há milênios: os animais conseguem prever desastres naturais?

Um cientista alemão, Wikelski colocou sensores em animais em uma fazenda em Pieve Torina, na região central de Marcas da Itália, em outubro, para monitorar o comportamento deles, na esperança de que se mudasse de forma consistente antes de um terremoto, isso poderia ser usado como um sistema de alerta antecipado e salvar potencialmente milhares de vidas. Em uma certa manhã quente recente de primavera, ele voltou para conferir os resultados.

"Uau, realmente parece que temos algo aqui", ele disse empolgado, observando enquanto seu computador analisava os dados no capô de seu carro, em um pátio de fazenda cheio de maquinário.

A série de terremotos na Itália teve início em agosto, com outros grandes sismos ocorrendo em outubro e janeiro, acompanhados por milhares de tremores secundários. A calamidade custou 23 bilhões de euros em danos e deixou milhares de desabrigados, além de causar mais de 300 mortes. Mas os abalos consistentes em uma área em grande parte rural e agrícola também proporcionaram uma rara chance de testar a antiga teoria.

Wikelski acha que pode ter encontrado algo, apesar de estar cauteloso a respeito de quão conclusivos podem ser seus dados. Ele é o primeiro a reconhecer que alguns consideram a ideia de que animais podem prever desastres como mito.

Nadia Shira Cohen/The New York Times
Florindo Angeli (dir.) e seu filho retiram um sensor de uma ovelha em sua fazenda em Pieve Torina, Itália

"Somos malucos", disse Wikelski rindo, explicando que a obtenção de fundos para seu projeto sem contar com dados sólidos para apoiá-lo foi difícil. "Logo, precisamos estar absolutamente certos de que não cometemos o menor erro na análise estatística, porque as pessoas tentarão abrir buracos na coisa toda, de forma justificada."

Apesar de Wikelski não poder revelar detalhes de suas descobertas antes da publicação em uma revista científica, ele indicou que os dados mostraram que os animais se moviam de uma forma consistente horas antes do terremoto.

Diretor do Instituto Max Planck para Ornitologia em Radolfzell, Alemanha, Wikelski disse que pesquisas anteriores já apontavam para habilidades preditivas dos animais. Entre eles está um estudo conduzido por ele de 2012 a 2014, monitorando cabras e ovelhas na encosta do Monte Etna, na Sicília.

"Os animais previram grandes erupções vulcânicas durante aqueles dois anos entre quatro a seis horas antes", ele disse, acrescentando que oito grandes erupções ocorreram durante seu estudo. "À noite, os animais despertavam e circulavam nervosamente, e de dia, seguiam para uma área segura" onde vegetação alta sugeria que foi poupada de fluxos de lava anteriores.

Com base nessa pesquisa, ele pediu em 2013 uma patente: "Alerta de Desastre Usando a Natureza". A patente ainda está pendente.

Os terremotos recorrentes em Marcas e outras partes na região central da Itália ofereciam a chance de registrar uma riqueza de dados a respeito das respostas dos animais para testar ainda mais a teoria.

Nadia Shira Cohen/The New York Times
Contêiner temporário onde a família Angeli mora desde o terremoto que destruiu a casa deles, em Pieve Torina

"Estamos realmente empolgados porque está é primeira vez que podemos monitorar os animais antes, durante e depois de uma grande série de terremotos", disse Wikelski.

Após um terremoto devastador atingir a região em outubro, Wikelski e seu gerente de projeto, Uschi Muller, correram para a Itália. Eles encontraram por acaso a fazenda Angeli, que vende queijo de leite das ovelhas e vacas da família, assim como outras iguarias locais.

Os pesquisadores entraram na loja da fazenda. "Estava tudo quebrado", disse Wikelski. "Todas as prateleiras de queijo estavam no chão. Dava para ver que todo o ganha-pão deles foi perdido", ele disse, mas a família estava bem.

Wikelski colocou pequenos sensores sofisticados em vários animais da fazenda, um coelho, ovelhas, vacas, perus, frangos e cães.

Os sensores mediam cada momento, segundo a segundo, dos animais: sua direção magnética, velocidade, altitude, temperatura, umidade, aceleração e localização. Ele descreveu o sensor, alimentado por um pequeno painel solar, de "uma caixa preta cheia de informações".

Poucos dias após os primeiros animais receberem sensores, outro grande terremoto, de magnitude 6,5, atingiu a área, e eles forneceram dados para um evento sísmico significativo.

Wikelski e Muller recuperaram os sensores poucas semanas depois e então voltaram em janeiro, para colocação dos sensores nos mesmos animais, incluindo meia dúzia de vacas, o dobro de ovelhas e dois cães, Zeus e Aro.

"Acho que os perus foram comidos", disse Wikelski.

Nadia Shira Cohen/The New York Times
Florindo Angeli em sua cozinha improvisada em um galpão

Em abril, os pesquisadores voltaram para remover os sensores restantes e estudar os dados adquiridos.

A colocação de sensores em espécies diferentes pode ser essencial, segundo Wikelski, já que cada uma sente o ambiente de forma distinta. E juntas, ele disse, elas podem "formar um sistema sensor coletivo", fornecendo informação completamente nova.

Em um nível global, esse sistema coletivo poderia ser descrito como "a internet dos animais", ele disse.

"Se fosse apenas um único animal em uma fazenda, não poderíamos ver um sinal, mas ao registrarmos tudo junto, as sinergias, a síntese desses sistemas sensores, é realmente isso o que parece dar o sinal", disse Wikelski.

A esperança é de que assim que os dados dos animais for comparado aos dados de terremoto da área (usando tremores de magnitude 4 como limiar), isso mostrará o comportamento distinto antes, durante e após o sismo. Do final de outubro até abril, ocorreram 11 dias com sismos de magnitude superior a 4.

No melhor cenário, o comportamento dos animais nas horas que antecedem um tremor poderia servir como um sistema de alerta antecipado, possibilitando a evacuação das pessoas.

Nadia Shira Cohen/The New York Times
O cientista Martin Wikelski baixa os dados de um chip que estava em uma vaca da fazenda Angeli

O Levantamento Geológico dos Estados Unidos nota em seu site que "há abundância de evidência casual de animais, peixes, pássaros, répteis e insetos exibirem comportamento estranho de semanas a segundos antes de um terremoto". Mas a agência federal, responsável pelo registro da atividade sísmica nos Estados Unidos, diz que "comportamento consistente e confiável antes de eventos sísmicos, e um mecanismo explicando como funciona, ainda é desconhecido".

Reconhecendo que muitos cientistas permanecem céticos a respeito de sua linha de pesquisa, e que ainda existem muitas variáveis, Wikelski disse estar disposto a realizar experimentos em uma escala maior.

"Mesmo se pudermos mostrar que trata-se de algo que está sendo sentido por esses animais", disse Wikelski, ele notou que se trata apenas "de uma fazenda em apenas uma área do mundo, de forma que o que podemos afirmar é muito limitado".

"Trata-se de uma afirmação imensa, de modo que é melhor termos boas provas disso", ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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