Adolescente mórmon assume ser lésbica em testemunho e igreja desliga microfone

Jacey Fortin

  • Reprodução/YouTube SuchIsLifeVideos

    Savannah discursa na igreja pouco antes de ter seu microfone cortado

    Savannah discursa na igreja pouco antes de ter seu microfone cortado

No dia em que Savannah arrumou coragem para falar diante de sua congregação mórmon, em maio passado, ela não disse tudo que queria.

A menina de 12 anos contou aos demais membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que é lésbica. "Nenhuma parte de mim é um erro", ela disse durante um encontro de testemunhos, um evento mensal de sua igreja em Eagle Mountain, no Estado de Utah. "Eu não escolhi ser assim, e não é algo passageiro".

Quando Savannah, hoje com 13 anos, se aproximava do fim de sua fala, depois que ela já havia se assumido a seus colegas de culto, seu microfone foi desligado. Ela deu uma batidinha nele e depois olhou para um líder da igreja para ver o que havia acontecido.

Ele disse que ela poderia voltar ao seu lugar.

"Acho que eles fizeram isso porque não queriam minha mensagem", disse Savannah em uma entrevista por telefone na quarta-feira (21). "Não quero ser maldosa com eles se isso não for verdade, mas senti que eles ficaram com medo de mim e do que eu estava dizendo."

A história do discurso de Savannah começou a se espalhar para além de Utah depois que o blog "I Like to Look for Rainbows" ('eu gosto de procurar por arco-íris')—inspirado na letra de uma canção mórmon, e dedicado a "experiências mórmon gays"—publicou uma entrevista com Savannah em um podcast em maio. Ele destacou uma questão com a qual os mórmons gays têm lutado há anos: como equilibrar sua sexualidade com os ensinamentos de uma igreja que proíbe relacionamentos gay.

O criador do blog, Britt Jones, disse que ficou surpreso com como a história atraiu tanta atenção.

"O motivo pelo qual fiz isso era tentar amplificar as vozes dos mórmons gay", ele disse. "Então se ela puder expor sua história, acho ótimo. A história dela é super-inspiradora e super-necessária neste momento."

O bispo da igreja de Savannah não respondeu ao e-mail solicitando comentários. Um porta-voz da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Último Dias não quis comentar.

Savannah contou a seus pais que ela era lésbica pouco depois de completar 12 anos, disse sua mãe, Heather Kester, que pediu para que o sobrenome de Savannah não fosse divulgado para proteger sua privacidade.

Nos encontros de testemunhos, que são realizados com frequência em igrejas mórmons no primeiro domingo de cada mês, os fiéis são encorajados a "expressar verbalmente o que ele ou ela sabe ser verdade a respeito da divindade de Jesus Cristo, a restauração da completude de seu evangelho em nossos tempos, e as bênçãos que advêm de viver seus princípios", de acordo com a Enciclopédia do Mormonismo.

Kester disse que sua filha vinha pedindo há meses para se identificar como lésbica em um desses encontros.

"Por fim decidimos deixar que ela contasse, porque não queríamos tirar sua voz", ela acrescentou. "E se lhe ensinássemos hoje que ela não podia falar, então talvez ela guardasse isso consigo pelo resto da vida."

Savannah disse que decidiu fazer seu discurso porque a vida pode ser difícil para pessoas que são lésbicas, gays, bissexuais ou transgênero.

"Houve muitos homicídios ou mortes, e muitos deles foram expulsos de casa por não serem aceitos por seus pais, e isso é muito difícil", ela disse. "Então eu queria ver mudanças."

A igreja mórmon considera pecado quando duas pessoas do mesmo sexo se casam ou "violam a lei da castidade". Mas, nos últimos meses, a igreja tem afinado seu discurso quanto à permissibilidade do que ela chama de "atração pelo mesmo sexo".

Em outubro, o site oficial da igreja inaugurou uma nova seção dedicada aos mórmons gays ou bissexuais e suas famílias. "Identificar-se como gay, lésbica ou bissexual ou sentir atração pelo mesmo sexo não é pecado e não proíbe que alguém participe da igreja, siga sua vocação ou frequente o templo", diz o website.

Mas esse discurso veio menos de um ano depois de a igreja ter revelado uma política que compara o casamento gay com apostasia e que impede filhos de pais gays de frequentarem a igreja até a idade de 18 anos. Essa política não mudou, o que significa que os comentários de Savannah no encontro do mês passado, que incluíram seus sonhos de se casar como uma lésbica e constituir família, entravam em conflito com a doutrina mórmon oficial.

Alguns críticos do discurso de revelação de Savannah contestaram mais do que simplesmente seu conteúdo, argumentando que um encontro de testemunhos não é lugar para discursos preparados, e que Savannah é jovem demais para entender todo o efeito de suas palavras, agora imortalizadas em um vídeo na internet.

"Isso não tem a ver com uma garota em conflito com sua sexualidade, ou com a forma como um líder religioso lidou com isso", escreveu Scott Gordon, presidente da FairMormon, uma ONG que defende a fé mórmon de seus críticos, em uma postagem de blog. "Esse é um caso claro de apropriação de um encontro, promovendo ensinamentos falsos, e explorando a inexperiência de uma criança para criar um evento midiático." 

Comentários como esses a magoaram, disse Kester. "Tem sido difícil, mas no final acho que pode acontecer uma mudança positiva na igreja por causa disso", acrescentou.

Na última parte de seu discurso escrito—a parte que nunca foi lida no encontro de testemunhos—Savannah, que ainda se considera membro da igreja, explicava que ela estava pensando sobre como encontrar a felicidade.

"Eu tinha sonhos de frequentar o templo e me casar, e fiquei muito triste quando descobri que isso nunca ia acontecer para mim", ela escreveu em suas anotações. 

"Hoje eu escolhi encontrar minha alegria fora dos meus antigos sonhos de quando eu era pequena. Tenho novos sonhos e sei que meus pais que estão na Terra e meus pais que estão no Céu me amam e me aceitam do jeito que eu sou. Amém."

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos