Após expulsar EI, EUA testam nova política em cidade síria

Michael R. Gordon

Em Tabqa (Síria)

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    Mulher que faz parte da força de segurança em Tabqa, na Síria

    Mulher que faz parte da força de segurança em Tabqa, na Síria

O rapaz despejou seu relato sobre os anos escuros da vida sob o Estado Islâmico, enquanto um grupo de curiosos se agrupava diante de uma loja no mercado local.

Os militantes, disse o homem de 22 anos, chamado Abdul Qadir Khalil, mataram muitos moradores, distribuíram bons empregos e limitaram gravemente as viagens para a cidade. "Quando eles partiram, nossa situação ficou muito melhor mentalmente", disse Khalil. "Se as coisas fossem reparadas, nossa sociedade melhoraria e nós voltaríamos à vida normal."

Ele enumerou a lista das coisas necessárias em Tabqa: eletricidade, água, combustível e uma grande padaria. Depois, rindo por causa de sua nova liberdade para denunciar abertamente os militantes, ele disse: "Se eles voltarem um dia, irão matar a todos nós".

A vida está lentamente voltando às ruas de Tabqa, cidade de cerca de 100 mil habitantes situada estrategicamente a apenas 50 km de Raqqa, capital do autoproclamado califado do EI.

As mulheres estão bem representadas no novo conselho que governa a cidade, e as crianças saúdam os visitantes com o "V" da vitória.

Mas quase dois meses depois que o EI foi expulso pela coalizão liderada pelos EUA que combate os militantes, as necessidades são ainda maiores do que Khalil sugeriu: não há hospitais ou escolas em funcionamento, nem máquinas pesadas necessárias para encontrar os mortos.

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Abdul Qadir Khalil, de camiseta azul, em sua cidade natal em Tabqa, na Síria

Nesse sentido, Tabqa surge como um laboratório de testes para a política do governo Trump de fortalecer os comandantes na Síria para que tomem decisões em campo para derrotar os militantes, enquanto contam com uma pequena equipe de autoridades do Departamento de Estado e unidades de assuntos civis do Exército para cimentar a paz instável que se segue --tudo isso sem se preocupar com a "construção de nações".

Também é um teste de combate para a iminente captura de Raqqa, uma cidade maior, mais populosa e com melhores defesas.

"Tabqa é a cidade pós-EI mais próxima onde poderemos realmente pôr os pés no chão", disse Brett McGurk, enviado especial do presidente Donald Trump à coalizão.

A estratégia dos EUA na Síria é travar a campanha em terra contra o EI usando as forças locais, para manter uma pequena pegada americana. Mas mesmo isso exige a mobilização de assessores americanos, mais artilharia, foguetes guiados por satélite, helicópteros de ataque Apache e patrulheiros do Exército --cerca de mil soldados ao todo.

A presença americana chega enquanto o Irã e as milícias xiitas apoiadas por ele, assim como o governo sírio e a Rússia, manobram para controlar território no leste da Síria depois que Raqqa for tomada.

A visita a Tabqa na última quinta-feira foi uma primeira oportunidade para McGurk, um pequeno grupo de autoridades graduadas da coalizão e da mídia ocidental darem uma olhada na cidade recém-liberta, que ainda luta para se recuperar das cicatrizes físicas e psicológicas de quase três anos de firme controle pelos militantes.

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Criança comemora vitória em Tabqa, na Síria

"Basicamente, o que temos aqui são centenas, ou milhares, de corpos no entulho, o que atrai muitas moscas, que picam as crianças, que ficam infectadas", disse Al Dwyer, um diretor da Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA, enquanto as forças de Operações Especiais americanas se dirigiam a Tabqa em veículos blindados. "Muitos ratos. O cheiro. Isso impede que as pessoas voltem."

A operação em Tabqa foi proposta em meados de março ao tenente-general Stephen Townsend, comandante da força-tarefa liderada pelos EUA de combate ao EI, pelo comandante máximo das Forças Democráticas Sírias, a combinação de combatentes curdos-sírios e árabes que forneceriam as tropas para a batalha. Ela foi aprovada sem uma única reunião na Casa Branca.

Apenas uma semana depois, centenas de combatentes árabes e curdos, incluindo muitos que nunca tinham lutado, foram levados por helicópteros e aviões Osprey americanos para as margens sul do lago Assad, diante de Tabqa.

Barcas transportaram seus veículos pelas águas azuis, enquanto outro grupo de combatentes sírios a leste saltava de ilha em ilha, cortando o Eufrates em lanchas americanas.

Na feroz batalha que se seguiu, cerca de cem combatentes curdos e árabes foram mortos e talvez dez vezes esse número de militantes. Um dos últimos confrontos ocorreu dentro da barragem de Tabqa, com 60 metros de altura, que costumava produzir 20% da eletricidade da Síria.

Para tentar salvar a barragem, combatentes sírios fizeram um acordo que deu a cerca de 70 militantes passagem livre para sair da cidade. Mas o EI fez o possível para sabotar o complexo, de qualquer modo. As turbinas vermelhas, já velhas, foram explodidas enquanto os painéis de controle eram crivados de balas.

Engenheiros sírios vêm tentando fazer uma ou duas turbinas funcionarem aproveitando peças dos destroços. Mas sem as peças da era soviética ninguém acredita que a estrutura poderá gerar eletricidade nos próximos meses, e os riscos de trabalhar na represa e ao redor são significativos: na semana passada, um especialista sírio em desminagem foi morto quando acionou um dispositivo explosivo improvisado.

Mas a pergunta que se destaca na cabeça dos moradores de Tabqa é como eles devolverão a suas vidas uma aparência de normalidade.

"Não há eletricidade, nem comida, nem pão, e precisamos de combustível para nossos caminhões", disse Khalid Mohammed Ali Tata, 54. "Também não há empregos."

A política internacional agrava o desafio. O governo sírio parou de pagar aos professores e outros funcionários públicos há vários meses, privando muitos moradores da capacidade de comprar o pouco alimento que está disponível.

A suposição é que os salários comecem a fluir novamente assim que o governo do presidente Bashar al Assad demonstre um controle nominal da região. Mas as forças sírias estão impedidas de se aproximar da cidade por uma nova "linha de desconflituação" que foi negociada por generais americanos e russos, e não está claro quão rapidamente as autoridades em Damasco reiniciarão os pagamentos.

A Turquia, incomodada pela decisão dos EUA de treinar e armar uma milícia curda que, segundo ela, é ligada ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK na sigla em curdo), selou suas fronteiras, inclusive para a mais básica assistência humanitária.

A ONU está atuante na Síria, mas ainda não começou esforços de ajuda em Tabqa e montou apenas uma operação fora das áreas controladas pelo governo Assad.

Isso deixa os EUA para servirem de socorro para as necessidades mais imediatas. Quase 50 toneladas de farinha, pagas pelo Pentágono, foram transportadas de caminhão do Iraque para um armazém financiado pelos EUA na quarta-feira (30).

Outro grande carregamento de ajuda alimentar americana --suficiente para 30 mil pessoas durante 30 dias-- será dividida entre várias cidades e acampamentos para desalojados na área de Raqqa, que inclui Tabqa.

Os EUA também estão enviando equipamento pesado para remover entulho e financiam esforços de desminagem.

E a coalizão liderada pelos EUA está selecionando e treinando forças para manter Tabqa, Raqqa e outras áreas próximas depois que forem retomadas. Elas passam por um curso de treinamento de duas semanas e serão responsáveis por manter a segurança pública, localizar combatentes do EI escondidos, evitar mortes por vingança e manter a ordem em geral.

Os problemas são muito mais profundos, e não está claro quem irá reconstruir os edifícios desmoronados ou danificados da cidade ou consertar as turbinas da usina elétrica. Mas, citando as lições do Iraque, o governo Trump evita a "construção de nações", quer isso envolva escolher os líderes locais ou se encarregar de grandes programas de reconstrução.

"Não vamos levar beleza; trata-se de pragmatismo", disse o major-general Rupert Jones, do Exército britânico, vice-comandante da força de coalizão. "Se eles colocaram suas tropas no caminho do mal, será seu destino."

Nem todos os pedidos da cidade estão sendo atendidos, porém. Pouco depois de dirigir sobre a barragem, um sodado da coalizão apontou um prédio onde o EI doutrinava crianças como "filhotes do califado", a versão dos escoteiros dos militantes.

Enquanto McGurk, o enviado do presidente, se reunia com o novo conselho civil de Tabqa, um líder do órgão fez um pedido emocionado por ajuda para desprogramar as crianças da cidade, que não frequentaram escolas normais desde que o EI controlou a área.

"Um problema fundamental de nossa sociedade é que a ideologia do EI foi implantada no cérebro de crianças, o que significa que ela seguirá para o futuro", disse Ahmad al-Ahmad, copresidente do conselho. "Precisamos de ajuda psicológica para as crianças na escola e ensinar a elas o verdadeiro modo de vida."

Os americanos disseram que estão prontos para fornecer mesas de estudo e quadros-negros, mas o conselho de Tabqa deve dirigir os pedidos à Unicef (Fundo Internacional para Crianças da ONU), quando a organização finalmente chegar à cidade.

Enquanto tentam ajudar Tabqa, as autoridades americanas querem mobilizar mais apoio internacional para o que preveem que será uma situação muito mais difícil em Raqqa.

Especialistas já identificaram 400 potenciais "locais de estabilização" na cidade que precisam ser reparados e limpos de minas e outros explosivos, como usinas de tratamento de água e de energia elétrica, silos para cereais e outras partes cruciais da infraestrutura da cidade.

"Tabqa é um teste", disse McGurk. "Há muito trabalho pela frente." 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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