Em caso de bebê britânico com doença terminal, posições católicas não são definitivas

Dan Bilefsky e Sewell Chan

Em Londres (Inglaterra)

  • Arquivo pessoal via AP

    Chris Gard e Connie Yates com seu filho Charlie em hospital em Londres, Reino Unido

    Chris Gard e Connie Yates com seu filho Charlie em hospital em Londres, Reino Unido

Ao se inserir no caso de um bebê britânico com lesão cerebral, doente terminal, o Vaticano chamou atenção para o cruzamento precário entre a ética e a biomedicina, uma área na qual tanto a teologia quanto a regulamentação têm tido dificuldade de acompanhar o ritmo dos avanços tecnológicos.

O bebê, Charlie Gard, está em suporte de vida em um hospital de Londres. Ele possui uma desordem genética rara que impede que suas células produzam a energia necessária para sustentar seus órgãos. Ele não consegue se mover ou respirar por conta própria.

O hospital venceu uma série de decisões judiciais, a última no fim de semana passado, que lhe permitem desligar as máquinas que mantêm Charlie vivo.

Mas os pais de Charlie têm travado uma batalha para prolongar sua vida, argumentando que uma terapia experimental nos Estados Unidos talvez possa salvá-lo, apesar dos tribunais terem analisado as evidências e decidido que o desligamento do suporte de vida é a única opção humana. 

Apesar de os pais, Connie Yates e Chris Gard, terem esgotado suas apelações legais na semana passada, eles encontraram novos aliados no papa Francisco e no presidente Donald Trump, que ofereceram declarações de apoio.

"Minha sensação é de que o papa Francisco primeiro faz objeção ao Estado usurpar o papel dos pais para determinar o que é do melhor interesse do filho deles", disse O. Carter Snead, professor de Direito da Universidade de Notre Dame e diretor de seu Centro para Ética e Cultura, por e-mail. "O papa Francisco acredita, assim como os pais de Charlie, que vale a pena lutar pela vida dele, por qualquer vida, independente da presença de uma invalidez."

Mas John M. Haas, presidente do Centro Nacional Católico de Bioética, na Filadélfia, que orienta dezenas de pais cristãos com filhos que sofrem de doenças incuráveis ou estão em suporte de vida, disse que o ensinamento da igreja é claro que não é moralmente necessário fornecer tratamento que sustente a vida caso não haja esperança de melhoria.

"A pobre criança está sofrendo de uma desordem genética incurável que não pode ser curada, de modo que não há dúvida de que não há obrigação moral de continuar com a intervenção, segundo o ensinamento católico", Haas disse em uma entrevista por telefone. "Por outro lado, isso não significa que há uma obrigação moral de interromper o suporte de vida."

Ele acrescentou: "Não é incomum quando entes queridos não conseguem se desapegar e prosseguem com intervenções excessivamente zelosas. Não entendo por que o tribunal não permitiria aos pais levar a criança para casa para morrer".

O hospital de Londres, o Great Ormond Street Hospital, se recusou a permitir isso, por motivos que não explicou.

O hospital pediátrico Bambino Gesù em Roma, administrado pelo Vaticano, ofereceu-se para cuidar da criança, que tem 11 meses de idade, apesar de não estar claro se poderia fazer algo além de mantê-la no suporte de vida. O ministro das Relações Exteriores da Itália, Angelino Alfano, reiterou a oferta na última quarta-feira (5), em um telefonema ao ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Boris Johnson.

Robert D. Truog, um médico de terapia intensiva pediátrica do Boston Children's Hospital e diretor do Centro para Bioética da Escola de Medicina de Harvard, disse ter ficado incomodado com a oferta. Em suas décadas de experiência lidando com padres, rabinos e imãs aconselhando as famílias na ala, ele disse, nenhuma das grandes religiões pareceu apoiar o prolongamento da vida a qualquer custo.

"O que me preocupou com a sugestão do Vaticano de receber a criança é o fato de Charlie ter uma lesão cerebral irreversível", disse Truog em uma entrevista por telefone. "Eles poderão manter a criança viva por um período, mas para que propósito?"

O Ministério das Relações Exteriores disse que Johnson considera o assunto como um "caso complexo e profundamente trágico para todos os envolvidos, e disse ser acertado que as decisões continuem a ser guiadas pelo parecer de especialistas médicos, apoiado pelos tribunais, visando o melhor interesse de Charlie".

Não é a primeira vez que o Vaticano intervém em um caso de término de vida. Um dos antecessores de Francisco, o papa João Paulo 2º, falou em 2004 sobre Terri Schiavo, uma mulher na Flórida que ficou em um estado vegetativo persistente após uma parada cardíaca. Após uma longa batalha legal entre o marido de Schiavo e os pais dela, que não concordavam sobre o que fazer, Schiavo morreu em 2005.

Enquanto aquele caso tramitava nos tribunais americanos, João Paulo 2º disse: "Um homem, mesmo que seriamente enfermo ou incapaz do exercício de suas mais altas funções, ainda é e sempre será um homem, e nunca se tornará um 'vegetal' ou 'animal'".

Seu sucessor, Bento 16, afirmou em 2007 que hidratação e alimentação artificial são "meios comuns e proporcionais de preservação da vida", um esclarecimento do catecismo da igreja, que ensina que pode ser legítimo a descontinuidade de um tratamento que é "oneroso, perigoso, extraordinário ou desproporcional ao resultado esperado".

A "America", uma revista católica, disse em um editorial na quarta-feira que "apesar de alguns membros bem-intencionados da comunidade pró-vida terem saltado por reflexo em defesa da família Gard", eles "não reconheceram os nuances do ensinamento católico para cuidados terminais".

A revista acrescentou: "Quando a vida é valorizada em excesso em relação a outros bens, sua busca se torna danosa. Na prática, a vida em si se torna um ídolo".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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