Marcante em protestos, ato de atear fogo a si mesmo é tendência sombria na Tunísia

Lilia Blaise

Em Tebourba (Tunísia)

  • Tara Todras-Whitehill/The New York Times

    Aziz, 13, que ateou fogo a si mesmo, recebe cuidado da mãe em sua casa em Bou Hajla

    Aziz, 13, que ateou fogo a si mesmo, recebe cuidado da mãe em sua casa em Bou Hajla

Quando Adel Dridi despejou gasolina em sua cabeça e atou fogo em si mesmo em maio, seu primeiro pensamento foi sua mãe, Dalila, cujo nome está tatuado em seu braço. Mas outra pessoa também estava em sua mente: Mohamed Bouazizi, o vendedor ambulante tunisiano cuja autoimolação em 2010 provocou os levantes da Primavera Árabe. 

Dridi, 31 anos, também é um vendedor de frutas, e, como Bouazizi, surtou depois que a polícia derrubou no chão seus damascos, bananas e morangos, em frente à prefeitura daqui de Tebourba, sua cidade natal. 

"Quis atear fogo em mim mesmo porque estava queimando por dentro", disse Dridi em uma entrevista, enquanto estava deitado em um colchonete na casa de sua família, onde ainda estava se recuperando, com seu pescoço e peito cheios de queimaduras. "Eu queria morrer daquela forma." 

Tara Todras-Whitehill/The New York Times
Adel Drid, que ateou fogo a si mesmo em protesto contra a polícia de Tebourba

Sete anos depois do protesto desesperado e dramático de Bouazizi ajudar a dar início a revoluções por toda a região, é grande a frustração com a promessa fracassada da Primavera Árabe. Um governo autoritário voltou ao Egito. A Líbia é um caldeirão de caos. Síria e Iraque estão dilacerados por guerras civis. As monarquias do Golfo permanecem essencialmente inalteradas. A vizinha Argélia está paralisada. 

Mas é uma suprema ironia que na Tunísia, o berço da Primavera Árabe e o único país com esperança de concretizar suas aspirações por democracia e prosperidade, o ato antes extraordinário de Bouazizi se tornou comum, seja impelido por fúria, depressão ou decepção amarga, ou para desafiar publicamente as autoridades. 

A Tunísia avançou mais que qualquer outro país na região na direção da liberdade e governança democrática, mas ainda permanece em grande parte incapaz de proporcionar esperança e oportunidade de uma vida melhor. Milhares de jovens abandonaram o país para trabalhar no exterior ou se juntar ao grupo Estado Islâmico. 

A frustração com esse fracasso não tem uma expressão mais horrível que a maré de autoimolações na Tunísia. 

Os casos de autoimolação triplicaram nos cinco anos após a revolução, segundo um estudo. O principal hospital para tratamento de queimados do país, em Ben Arous, um subúrbio de Túnis, recebeu um recorde de 104 pacientes que atearam fogo a si mesmos em 2016. 

O hospital vê uma média de mais de 80 casos por ano desde 2011, disse o cirurgião encarregado da ala de queimados, o dr. Amen Allah Messadine. O protesto público agora é a segunda forma de suicídio mais comum neste país de 11 milhões de habitantes. 

"O problema é que não diminui", disse Messadine, que está na linha de frente da tendência.

Para as autoridades de saúde pública, o fenômeno causa tanta perplexidade quanto é perturbador. Mas também é considerado uma medida profunda da mudança perturbadora, das dificuldades econômicas e do persistente senso de injustiça que define a vida na Tunísia, mesmo desde a revolução democrática. 

"Esse tipo de suicídio se destaca mais como uma postura de dissensão em relação à sociedade pós-revolução, que mudou profundamente", disse o dr. Mehdi Ben Khelil, o patologista forense que realizou o estudo mostrando como o número de autoimolações aumentou. 

Dridi, o único arrimo de sua família e de sua mãe desde os 14 anos, disse que quis fazer "como Bouazizi" na manhã de 10 de maio, quando policiais ordenaram que fosse embora, dizendo que não tinha pago por seu ponto de venda. 

Tara Todras-Whitehill/The New York Times
Pôster com imagem de Mohamed Bouazizi, feirante que ateou fogo a si mesmo em 2010, ato que motivou o início da Primavera Árabe

"A polícia derrubou minha banca", ele disse. "Mas piorou. Eles espalharam minhas frutas e me levaram até a viatura deles. Lá dentro, começaram a me bater. Eu consegui fugir e quando vi o posto de gasolina diante de mim, não pensei duas vezes." 

Ele despejou gasolina em si mesmo direto da bomba e acendeu um isqueiro em seu pescoço. Ele foi salvo por um motorista de ônibus que apagou as chamas com um extintor de incêndio. 

Enquanto a maioria dos suicídios antes da revolução eram por razões de doença mental, de lá para cá passaram a ser motivados pela dificuldade econômica e um desejo de desafiar as autoridades. Eles costumam ser realizados em frente a prédios públicos. 

Dridi já tentou atear fogo a si mesmo em público em 2012, mas foi detido por transeuntes. 

Ele disse que ganhava cerca de US$ 400 (cerca de R$ 1.300) por mês antes da revolução, que é duas vezes mais que o salário mínimo na Tunísia. Agora, ele disse, ele nunca sabe quanto vai vender, ou quantas vezes a polícia o acossará. 

Casos como o dele são um sinal de desespero social e ressentimento com as autoridades, disseram médicos. 

"A maioria dos que sobrevivem nos diz que simplesmente não suportavam mais", disse Nadia Ben Slama, uma psicóloga do hospital Ben Arous. "Eles costumam usar duas palavras em árabe: "el kahra", que significa impotência ou sentimento de ser oprimido, e a palavra "hogra", que significa desdém ou desprezo por parte de outros. 

"Há um simbolismo no gesto público de autoimolação", ela acrescentou. "Geralmente visa denunciar injustiça ou um opressor, mas também para fazer com que o outro se sinta culpado, aquele que testemunhou a injustiça e que não agiu. Esse outro é a sociedade em geral." 

Às vezes a autoimolação é ameaçada para forçar a mão das autoridades. Foi isso o que Imed Ghanmi, um professor desempregado de 43 anos, fez quando a polícia confiscou as mercadorias contrabandeadas que ele estava vendendo na rua para sustentar sua família. 

"Imed costumava despejar gasolina em si mesmo como forma de chantagear a polícia para que devolvesse sua mercadoria", disse seu irmão, Ahmed Ghanmi. "Ele já tinha feito isso como último recurso duas ou três vezes antes e me disse que funcionou." 

Da última vez que Ghanmi tentou, em uma delegacia, ele ateou fogo a si mesmo e morreu. Sua família ainda está investigando se foi um suicídio ou um acidente, e por que a polícia não o socorreu. 

A tendência está tocando uma geração nova e mais jovem que amadureceu desde a revolução. 

Ramzi Messaoudi ateou fogo a si mesmo em 15 de fevereiro no pátio de sua escola, enquanto todos estavam em sala de aula, em Bou Hajla, uma cidade na região central da Tunísia. Ele morreu três dias depois em decorrência das queimaduras. 

Ele vinha se desentendendo com seu professor de inglês, que repetidamente o expulsava de sua classe, disseram seu pai e seus amigos. 

Tara Todras-Whitehill/The New York Times
Rimeh Messaoudi chora ao lembrar de seu irmão, Ramzi, que morreu em um ato de autoimolação

Mas a família dele está perplexa. Sua irmã, Rimeh, 20 anos, que dividia o quarto com ele, chora sobre os livros escolares dele. Seu pai, Nourredine Messaoudi, um motorista de micro-ônibus, ainda guarda o passe de ônibus queimado de seu filho em sua carteira. 

Ele sabia dos problemas de seu filho na escola e tentou argumentar com ele várias vezes. "Eu disse para que tentasse me chamar caso tivesse mais problemas", ele disse. 

"Eu ainda não entendo", ele acrescentou. "Ele era um bom menino. Gostava de futebol e artes marciais, tinha muitos amigos no Facebook e queria ser militar." 

"Ele simplesmente não suportou mais", disse Wissem Hadidi, 19 anos, um amigo de infância. "Quando chegou ao hospital, ele ainda estava consciente, sorrindo e ficava repetindo a palavra 'injustiça'." 

O ato de Ramzi Messaoudi teve desdobramentos trágicos. "Eu me tranquei em casa por uma semana", disse Hadidi. "Eu não conseguia voltar à escola. Eu literalmente o via queimando e ainda conseguia lembrar do cheiro." 

Uma semana depois, outro aluno na cidade, de apenas 13 anos, também tentou se autoimolar, mas sobreviveu após um amigo apagar as chamas com sua jaqueta. 

Outro estudo realizado por Mehdi concluiu que o país está experimentando um efeito de imitação, após o ato revolucionário de Bouazizi. O estudou pediu por medidas preventivas urgentes na cobertura dos suicídios pela mídia de notícias e no empoderamento de jovens adultos. 

Há um aumento geral de casos de depressão e suicídios entre adolescentes desde a revolução, disse Fatma Charfi, que lidera o comitê do Ministério da Saúde para o combate ao suicídio. 

"Com a ditadura, o Estado era ubíquo. Estávamos sob um Estado policial e o desvio era o mínimo possível", disse Charfi. "Já ocorriam suicídios com autoimolação ou enforcamento, mas ocorriam na privacidade do lar, não em espaços públicos como hoje, e os jovens estão muito expostos a esse novo fenômeno."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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