Possível alvo da Coreia do Norte, Alasca se mostra pouco preocupado com ameaças

Kirk Johnson

Em Anchorage, Alasca (EUA)

  • RUTH FREMSON/NYT

    David Chatterton, um veterano do exército americano, em sua no Alasca que vendo objetos para 'sobrivencialistas'

    David Chatterton, um veterano do exército americano, em sua no Alasca que vendo objetos para 'sobrivencialistas'

Em Washington, a notícia de que a Coreia do Norte pode ter desenvolvido um míssil balístico intercontinental capaz de atingir o Alasca provocou uma onda de ansiedade.

Mas aqui no Alasca, que já é um lar de sobrevivencialistas, preparadores para o fim do mundo e durões de todo tipo, a mais recente tensão geopolítica é encarada com serenidade.

"É preciso sempre se manter preparado", disse Robert Allison, 60 anos, arregaçando a manga para exibir em seu bíceps sua tatuagem da Infantaria Aerotransportada dos Estados Unidos.

Mais de um entre oito adultos no Alasca é, como Allison, um veterano militar, a mais alta concentração no país. Outros cerca de 6% dos habitantes do Alasca estão no serviço ativo, ou fazem parte de uma família no serviço ativo.

Ambos os números são um legado das imensas bases do Exército e da Força Aérea no Estado, e do fato de muitas das pessoas enviadas para servir aqui nunca terem partido. A proximidade com o Extremo Oriente é clara: a Rússia fica a 88 km do extremo oeste do Estado, e se tomar um avião em Anchorage, Miami está mais distante do que Tóquio.

Qualquer pessoa com idade suficiente para lembrar da Guerra Fria, quando o Alasca esteve por décadas na linha de frente da defesa nacional com uma série de postos de escuta e bases áreas de prontidão do outro lado do Círculo Ártico em relação aos soviéticos, também conhece a sensação de ser um alvo nuclear.
Algumas pessoas lembraram disso como algo que vem com o território. Você simplesmente dá de ombros.

RUTH FREMSON/NYT
Cidade de Anchorage, no Alasca


"Tive uma boa vida, de modo que se algo acontecer, aconteceu", disse Gary Melven, 68 anos, um veterano da Guerra do Vietnã pela Marinha dos Estados Unidos e filho de um soldado de infantaria da Segunda Guerra Mundial.
Melven era menino em Anchorage quando a crise dos mísseis cubanos de 1962 deixou o mundo à beira de uma guerra nuclear, e os famosos radares de alerta antecipado do Alasca e Canadá buscavam por sinais de mísseis disparados.

"Isso fazia parte do pano de fundo enquanto eu crescia", disse Melven, gerente da Eagle Enterprises, uma loja ao sul do centro de Anchorage que vende suprimentos de sobrevivência de emergência para tripulações de pesqueiros, pilotos e entusiastas de atividades ao ar livre.

"Eu estava mais interessado em andar na minha bicicleta", ele acrescentou.

Perambular por alguns dias por algumas das lojas de equipamentos de sobrevivência e lojas de artigos militares em Anchorage significa ouvir muito fatalismo casual como esse. Pessoas acostumadas a calcular risco disseram que há pouco motivo para maior alarme agora em relação à Coreia do Norte.
As autoridades municipais, do prefeito para baixo aqui na maior área metropolitana do Estado, também disseram não estar vendo sinais de pânico ou agitação.

"O que faremos aqui que já não estamos fazendo? Eles não vão evacuar Anchorage. Temos maior preocupação com um terremoto e tsunami", disse John Humphries, 56 anos, um ex-piloto de helicóptero militar que agora é investigador do instituto médico legal estadual.

Humphries estava fazendo compras em uma manhã recente na 907 Surplus, uma loja de artigos militares em um centro comercial a leste do centro, de onde muitos homens e mulheres, muitos em uniforme, da Base Conjunta Elmendorf-Richardson descendo a rua, entravam e saíam.

Na 907 Surplus é possível comprar um cachecol verde de atirador, uma máscara de gás ou botas do Exército para temperaturas abaixo de zero. Os Marpat Woobies, os ponchos de camuflagem para clima úmido apreciados pelos fuzileiros e ótimos para o interior do Alasca, custam US$ 30. Mas se precisar perguntar para que servem, então provavelmente está fazendo compras no lugar errado.

Os coproprietários da loja, David Chatterton e Jeremy Wise, ambos veteranos do Exército, disseram que têm ouvido pouca preocupação por parte de seus clientes em relação à Coreia do Norte.
Os chamados sobrevivencialistas, a maioria civis, fazem parte do mercado em lojas como a deles, mas seus preparativos (estoque de alimentos para emergências, armamentos e suprimentos para abrigos) não muda muito quando se trata de um ataque potencial por uma ogiva nuclear.

"Eles estão preparados, mas não dá para realmente se preparar para um ataque nuclear", disse Chatterton.

"Os negócios seguem totalmente como de costume", acrescentou Wise, 30 anos, que é originalmente da área de Galveston, Texas, e deixou o Exército como sargento.

Um espírito de venha o que vier é ajudado pela crença na sabedoria e habilidade dos comandantes e tomadores de decisões para evitar uma crise, como foi expressado por muitas pessoas nas lojas durante entrevistas.
Humphries, por exemplo, disse acreditar plenamente na combinação de manobras militares e diplomáticas para desarmar a situação com a Coreia do Norte.

Jim Gorski, que passou 22 anos como piloto da Marinha, disse que a psicologia de calcular risco também é diferente se você experimentou ameaças reais em sua vida. Ele chamou isso de "questão do bunker".

Se um bunker de concreto está protegendo sua aeronave, ele disse, de que lado do bunker você fica? Se uma bomba cair e você estiver do outro lado, você estará protegido da explosão, mas se estiver no lado em que a bomba cair, você já era.
E como você nunca terá como prever a trajetória exata da queda da bomba, disse Gorski, semicerrando os olhos devido ao sol brilhante da tarde enquanto caminhava perto de um parque no centro de Anchorage, então não há sentido em se preocupar.

"Se começar a se preocupar com tudo, ficará maluco e não desfrutará a vida", ele disse.

Alguns moradores e visitantes no Alasca estão preocupados. Marc Mueller-Stoffels, um físico da Universidade do Alasca, trabalha em questões de energia, uma área de pesquisa que ele disse receber alguns fundos das forças armadas.
Ele disse que considerava o Alasca um alvo na Guerra Fria e talvez agora no impasse com a Coreia do Norte, em parte por causa da geografia e a proximidade com inimigos potenciais. Mas ele disse que o governo federal também transformou o Estado em um alvo maior ao concentrar presença e pesquisa militar ali.

A importância do Alasca como ponto pivô militar teve início na Segunda Guerra Mundial, quando as Ilhas Aleutas foram invadidas pelo Japão. Os soldados e pilotos posicionados aqui durante aquele conflito, e as estradas e bases construídas para eles, por sua vez se transformaram nas fundações da resposta à Guerra Fria nos anos que se seguiram.

"É um pouco uma profecia que se autorrealiza, já que colocaram infraestrutura militar com maior e menor importância aqui", disse Mueller-Stoffels, que estava levando sua filha de 11 meses, Anna, para passear pelo centro de Anchorage.

Chatterton, da 907 Surplus, também encontra conforto na ideia de justiça e retribuição, que destruição assegurada choveria sobre a Coreia do Norte caso seus líderes cometessem o erro estúpido de atacar. "Caso isso aconteça, com certeza seríamos vingados", ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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