Assassinato no Brooklyn tem origem 20 anos atrás no interior da China

Alan Feuer e Jeffrey E. Singer

Em Nova York (EUA)

  • Brooklyn District Attorney's Office via The New York Times

    Wu Long Chen pode pegar a prisão perpétua pela morte de Ying Guan Chen em 2015

    Wu Long Chen pode pegar a prisão perpétua pela morte de Ying Guan Chen em 2015

Quando Ying Guan Chen --tropeçando e sangrando, com buracos de balas no rosto e no abdômen-- caiu e morreu em um restaurante Popeye's no bairro de Sunset Park, no Brooklyn (Nova York), ficou quase imediatamente claro que seu assassino era outro imigrante chinês chamado Wu Long Chen.

Os tiros foram disparados em um cenário feio e cinzento de Nova York --uma lanchonete de frango frito a alguns quarteirões da pista elevada--, mas suas origens estão em acontecimentos que começaram a milhares de quilômetros de distância, em uma aldeia rural na província chinesa de Fujian.

Lá, mais de 20 anos atrás, segundo os que conhecem a história, surgiu uma disputa entre famílias cuja acrimônia sobreviveu ao tempo e à viagem dos dois homens da China a Nova York. No mês passado, Wu Long Chen, 46, foi condenado pela Suprema Corte Estadual do Brooklyn pelo assassinato de Ying Guan Chen, 68. E na segunda-feira Wu Long Chen ouviria sua sentença, que poderia ser de prisão perpétua, em uma audiência em que parentes de sua vítima contariam contar ao juiz sobre a "vendetta".

Tudo começou na aldeia de Fengchen, na cidade de Heshang, no distrito de Changle de Fuzhou City, província de Fujian, uma região montanhosa na costa leste da China que fica junto às águas misturadas dos mares do Sul e do Leste da China. Segundo a viúva de Ying Guan Chen, Aijiao Xu, as duas famílias Chen viveram durante anos próximas uma da outra em uma estrada de terra no vilarejo, cujos moradores têm os mesmos ancestrais e sobrenome.

Dois irmãos de Ying Guan Chen moravam do outro lado da estrada, em frente a Wu Long Chen e sua família, e sempre que estes limpavam sua casa uma pilha de detritos, segundo Xu --na maioria folhas e papéis--, era soprada pelo vento em direção à casa da primeira família, entupindo seu bueiro. Não havia serviço de coleta de lixo municipal na época, disse Xu, por isso as tensões acabaram chegando a um ponto de ebulição.

Um dia, mais ou menos na época do Ano Novo chinês, Xu ouviu uma discussão que vinha da casa dos irmãos de seu marido. Quando foi até lá com seu filho mais velho para investigar, viu os irmãos lutando com a família de Wu Long Chen, disse ela.

Um dos irmãos de Wu Long, segundo Xu, tinha pegado um machado e o sacudia diante de um irmão de seu marido. O filho de Xu bateu com um pau na perna do irmão, derrubando-o e deixando-o, como ela disse, "sentindo-se tonto".

"Seus irmãos tiveram de arrastá-lo de volta para casa", disse a filha de Xu, Xiaomei Chen, que tinha apenas 6 anos na época, mas ouviu a história de sua família.

Afinal, a polícia foi chamada e um parente de Wu Long e o filho mais velho de Xu foram levados à delegacia, onde passaram a noite, e as duas famílias foram multadas, contou Xu.

Depois da briga, alguns parentes de Ying Guan juntaram pedras grandes, segundo contou Tianxia Chen, um vizinho das famílias. Nessa mesma noite, eles foram ao segundo andar de sua casa e se revezaram atirando pedras contra a casa da família de Wu Long.

As pedras quebraram as janelas e portas, lembrou Tianxia Chen, e os móveis foram destruídos.

"A casa foi completamente arrasada", disse ele.

A partir daí as famílias nunca mais se falaram, segundo Xu.

E assim continuou, apesar de Wu Long Chen e Ying Guan Chen terem se mudado para Nova York. Por duas vezes, lembrou Xu, os homens tiveram encontros casuais nas ruas de Chinatown, em Manhattan. Mas sempre passavam um pelo outro sem se falar, disse Xu.

Os dois ganhavam a vida em Nova York trabalhando em restaurantes chineses, mas Wu Long foi demitido há cerca de cinco anos e, desesperado, procurou Tianxia Chen, que também havia se mudado para a cidade. Tianxia pratica a medicina tradicional chinesa, e disse que tratou seu amigo de doença mental. Apesar de parecer tê-lo ajudado durante algum tempo, porém, os problemas de Wu Long gradualmente retornaram, disse Tianxia.

Embora ele frequentasse as agências de empregos na Eldridge Street, não conseguia encontrar trabalho, disse Tianxia. "Ele ficava confuso", explicou.

Então, em outubro, dois meses antes do tiroteio, Wu Long foi ao casamento de um amigo da aldeia de Fengchen no restaurante Pacificana, em Sunset Park. Ying Guan Chen também estava lá. Os convidados do casamento disseram que os dois se viram, mas não interagiram. Segundo Tianxia, depois do evento Wu Long ficou obcecado por Ying Guan, pedindo repetidamente seu número de telefone e falando em vingança.

"Faz 20 anos", Tianxia disse que ouviu Wu Long falar. "Que vingança você ainda quer?"

Mais ou menos nessa hora, contou Tianxia, Wu Long disse que tinha comprado uma arma. Preocupado com a notícia, Tianxia disse que falou para seu amigo: "Se você comprou uma arma, livre-se dela, jogue-a fora".

Mais tarde Wu Long disse que estava só brincando sobre a arma, mas as autoridades disseram que ele pretendia comprar uma. E em 7 de dezembro de 2015, segundo elas, Wu Long a levou, escondida em um saco de pano, ao casamento de outro imigrante de Fengchen --este em um restaurante em Sunset Park chamado Golden Imperial Palace.

Mais uma vez, Ying Guan estava lá. Na verdade, um vídeo mostra-o colocando um envelope vermelho de presente entre uma pilha de outros perto da porta e conversando com amigos da aldeia. Wu Long também é visto no vídeo, sentado a uma mesa jantando, com o saco de pano com a arma ao seu lado.

Pouco depois das 21h30, Ying Guan Chen saiu do casamento. Wu Long o seguiu, como se vê no vídeo, seguindo seu rival por vários quarteirões.

Então, na esquina da Rua 61 com Sétima Avenida, Wu Long Chen, de arma em punho, aproximou-se de seu ex-vizinho na calçada e disparou três tiros contra ele, à queima-roupa. Um vídeo de uma câmera de vigilância mostra Wu Long correndo em fuga. Outra câmera capturou Ying Guan cambaleando para dentro do Popeye's, onde despencou.

Depois de 20 anos escutando histórias sobre a briga em FengChen, Xiaomei Chen, filha de Ying Guan Chen, disse que ainda não consegue acreditar que algo de um passado tão distante --e de outro continente-- tenha causado a morte de seu pai.

"Como é possível que alguém guarde rancor por uma coisa como essa?", disse ela.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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