Refletindo fosso econômico, consumo de folha psicotrópica se espalha pela Etiópia

Kimiko de Freytas Tamura

Em Bahir Dar (Etiópia)

  • Tikka Negeri/The New York Times

    Shimuna Mohammed pesa khat em um mercado em Infranz, vilarejo na região de Amhara, na Etiópia

    Shimuna Mohammed pesa khat em um mercado em Infranz, vilarejo na região de Amhara, na Etiópia

A vida dela gira em torno de uma folha psicotrópica.

Yeshmebet Asmamaw, 25, transformou o mascar da droga em um ritual, repetido várias vezes por dia: ela espalha cuidadosamente papiro pelo chão de sua casa, prepara café e queima um fragrante incenso de olíbano para criar o clima.

Então ela comprime algumas folhas de khat, tiradas de um arbusto potente nativo desta parte da África, em uma bola e as coloca em um lado de sua boca.

"Eu adoro!" ela disse, levando os dedos aos lábios.

Ela masca até mesmo no trabalho, na fazenda de khat onde ela colhe as folhas brilhantes e delicadas dos arbustos. Ao sair após um dia de trabalho, ela parecia com olhos levemente arregalados, com os efeitos do estimulante, semelhante a uma anfetamina, evidentes em seu rosto, enquanto os sons de oração ecoavam de uma igreja cristã ortodoxa próxima.

Os etíopes há muito mascam khat, mas a prática tendia a se limitar às áreas predominantemente muçulmanas, onde fiéis mascam as folhas para ajudá-los a orar por longos períodos, especialmente durante os períodos de jejum do Ramadã.

Mas nos últimos anos, dizem autoridades e pesquisadores, o cultivo e consumo de khat se espalhou para novas populações e regiões como Amhara, que é de maioria cristã ortodoxa, e pelo interior, onde os jovens mascam sem o conhecimento dos pais, falando em código para evitar detecção.

"Se você mascar por estas bandas, você é um homem morto", disse Abhi, 30, que pediu que seu sobrenome não fosse usado porque sua família "não mais me considerará seu filho".

Mais alarmante, dizem as autoridades etíopes, é o número de jovens neste país predominantemente jovem que agora consomem khat. Acredita-se que cerca de metade dos jovens da Etiópia o masca. As autoridades consideram o problema uma epidemia.

O governo do país, que controla a economia com mão de ferro, está preocupado que o vício possa descarrilar seus planos de transformar a Etiópia em um país de renda média em menos de uma década, um empreendimento nacional que exigirá um exército de trabalhadores jovens e capazes, ele diz.

O khat é legal e continua sendo principalmente por ser uma grande fonte de receita para o governo. Mas cresce a preocupação com a disseminação de seu uso.

Até 485 mil hectares de terras são dedicados ao cultivo do khat, quase três vezes mais do que duas décadas atrás. E a quantidade de dinheiro gerada pelo khat por hectare supera a de todas as outras culturas, incluindo o café, a maior exportação da Etiópia, disse Gessesse Dessie, um pesquisador do Centro Leiden de Estudos Africanos da Universidade de Laiden.

Esse retorno e a disponibilidade cada vez menor de terras levam milhares de produtores rurais a passarem a cultivar khat, ele disse. As mudanças ocorrem à medida que o governo expulsa agricultores de terras cedidas a investidores estrangeiros nos últimos anos.

Com frequência associada à fome e maratonistas, a Etiópia está tentando mudar sua imagem global por meio de engenharia de uma economia em rápido crescimento, na esperança de imitar nações asiáticas como a China. Ela injetou bilhões de dólares em parques industriais, estradas, ferrovias, aeroportos e outros projetos de infraestrutura, incluindo a maior represa hidrelétrica da África.

Em cidades por todo o país, arranha-céus crescem como cogumelos e, juntamente com eles, danceterias, restaurantes e resorts de luxo. Segundo estatísticas do governo, a economia do país vem crescendo a uma taxa de 10% há mais de uma década.

Mas apesar de toda a fanfarra que cerca o que é descrito com frequência como milagre econômico da Etiópia, seus efeitos costumam não ser sentidos pelos jovens do país, que correspondem a cerca de 70% dos 100 milhões de habitantes do país. Simplesmente não há empregos suficientes, se queixam os jovens, com frequência expressando dúvidas a respeito dos números do governo para o crescimento.

Tikka Negeri/The New York Times
Fazendeiro colhe folhas de khat em Infranz, na região de Amhara, na Etiópia


Muitos dizem que devido a essa falta de empregos, as pessoas passam a mascar khat, para passar o tempo.

"É um problema imenso", disse Shidigaf Haile, um promotor público de Gonder, uma cidade no norte da Etiópia, que foi sacudida por protestos violentos no ano passado devido à falta de empregos, com participação principalmente de jovens.

Mais da metade dos jovens agora masca khat, disse Shidigaf. Muitos se reúnem em antros de khat para não chamarem atenção.

"É por causa da falta de trabalho", ele acrescentou, dizendo que há numerosos casos de pessoas tão dependentes das folhas, vendidas em pacotes, que recorrem a pequenos delitos. O governo reconhece o problema, ele disse, mas até o momento não o enfrenta diretamente.

"É ruim para o desenvolvimento econômico da Etiópia, porque se tornam preguiçosos, improdutivos e a saúde deles será afetada", ele disse.

Os efeitos do khat variam dependendo da quantidade consumida e da qualidade da folha, já que existem pelo menos 10 variedades, segundo os produtores. Algumas pessoas sentem calor e ficam agitadas. Outras ficam concentradas naquilo que estiver à mão a tal ponto que bloqueiam tudo mais e chegam ao "merkana", um estado quase catatônico de êxtase.

O abuso crônico, alerta o governo americano, pode levar à exaustão, "comportamento maníaco com ilusões grandiosas, violência, depressão suicida ou psicose esquizofrênica".

A dependência de khat é mais psicológica do que física, segundo o dr. Dawit Wondimagegn Gebreamlak, que chefia o departamento psiquiátrico da Universidade de Adis Abeba, a capital do país. Mascá-la é "um fenômeno cultural bastante complexo", ele disse, acrescentando que simplesmente proibi-la seria difícil, diante de seu papel em ritos culturais entre certos grupos religiosos.

Yared Zelalem, 17, e Yonas Asrat, 27, mascavam khat em uma rua de Adis Abeba, à espera de um bico de lavagem de carro. Eles já estavam mascando há cinco horas e ainda era o início da tarde.

Ambos chegaram à capital há 10 anos à procura de trabalho, eles disseram, depois que os pais de Zelalem morreram e a família de Asrat foi expulsa de suas terras para abrir espaço para a construção de um hotel resort.

Asrat parecia moroso. "Nada mudou nos últimos 10 anos, exceto minha aparência física", ele disse, mostrando sua casa, um táxi surrado com um colchonete no interior. "Este país é apenas para investidores."

Zalalem mora ao lado, em uma estrutura como uma caixa com espaço suficiente apenas para seu corpo pequeno. Ele se mostrava mais determinado.

"Quero me tornar primeiro-ministro e mudar o país, arrumar emprego para os jovens", ele disse, com as palavras "Nunca desista" tatuadas em seu braço. Ele abriu as portas de sua moradia, que foi feita de chapas onduladas de metal. Uma mochila pendurada em um prego, ao lado de um Jesus recortado colado em uma parede. Ele pegou seus livros escolares, cheios de anotações meticulosas.

"Quero estudar ciências naturais, então me tornar médico. Então quero estudar ciências sociais para aprender sobre política", ele disse, listando suas ambições.

"Daqui 20 anos, você verá", ele acrescentou. "Convidarei você ao meu gabinete."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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