China e Índia reivindicam origem da medicina tibetana na Unesco

Mike Ives

Em Hong Kong (China)

  • Tsering Topgyal/AP

A China e a Índia disputam há séculos a cordilheira do Himalaia. Os militares chineses invadiram o Tibete em 1950. A Índia concedeu asilo ao dalai lama, o líder espiritual tibetano, em 1959. Três anos depois, os dois países lutaram uma guerra de fronteira. Hoje estão em um impasse por uma área disputada pela China e o Butão, reino do Himalaia cuja reivindicação é apoiada pela Índia.

A última luta dos dois países é sobre qual deles conseguirá ligar formalmente a antiga prática da medicina tibetana a seu patrimônio nacional. O prêmio: fama internacional e a possibilidade de importantes recompensas comerciais.

Em março, a China apresentou documentação pedindo que a Organização Educacional, Científica e Cultural da ONU (Unesco) reconhecesse os banhos medicinais, uma das muitas práticas da "sowa rigpa", nome tibetano desse tipo de medicina, como parte de seu "patrimônio cultural imaterial". O site da Unesco indica que o pedido será considerado no próximo ano. A Índia também apresentou mais ou menos na mesma época sua proposta --incluindo toda a tradição da "sowa rigpa".

"Se a China está solicitando, é claro que a Índia também pode solicitar", disse Geshe Ngawang Samten, o vice-chanceler da Universidade Central de Estudos Tibetanos em Sarnath, na Índia. "Isto também é cultura indiana."

Tibetanos que vivem no exílio e antropólogos ocidentais que estudam a medicina tibetana disseram que é difícil prever quais efeitos tangíveis o reconhecimento da Unesco teria em campo.

O reconhecimento pode ser benéfico, segundo eles, se levar a um maior acesso aos tratamentos médicos para a população rural do Tibete, o recrutamento de mais praticantes de medicina tibetana para funções de assessoria em alto nível ou leis que regulamentem a produção de substâncias farmacêuticas.

A preocupação, porém, é que o reconhecimento da Unesco ajude no desenvolvimento comercial do setor sem abordar alguns de seus problemas subjacentes, como a diluição de fórmulas medicinais tradicionais e a colheita excessiva de ingredientes na natureza.

O texto básico da medicina tibetana é "para que o mundo inteiro desfrute", disse Tashi Tsering Phuri, diretor do Instituto Médico e Astrológico Tibetano em Dharamsala, cidade indiana que serve como sede do governo tibetano no exílio e residência do dalai lama. "Não deveria ser um pomo da discórdia entre duas grandes nações."

A "sowa rigpa" é praticada na China, na Índia e em países vizinhos como Butão, Mongólia e Nepal. O nome é muitas vezes traduzido em inglês como "ciência da cura", e a forma atual do texto básico da disciplina, "Os Quatro Tantras", é atribuída por muitos estudiosos ocidentais a um médico tibetano do século 12, com antecedentes que chegam ao século 8º ou antes.

No início dos anos 1990, não havia concorrência notável entre China e Índia pela medicina tibetana como patrimônio cultural, dizem estudiosos ocidentais. Mas há cerca de 20 anos as pessoas começaram a reconhecer seu potencial valor comercial.

Stephan Kloos, um antropólogo médico da Academia Austríaca de Ciências, em Viena, disse que seus cálculos preliminares sugerem que o valor da indústria poderá se aproximar de US$ 1 bilhão. Mesmo os não tibetanos na Índia começavam a ver a ciência como uma oportunidade de negócios, disse ele.

Mas esse mesmo potencial econômico envolve especialistas que dizem que a indústria, que contou tradicionalmente com a coleta de plantas e animais silvestres nas áreas de montanha, não é feita para economias de escala.

Sienna Radha Craig, uma professora associada de antropologia no Dartmouth College e especialista em medicina tibetana, disse que uma possibilidade é que o reconhecimento pela Unesco estimule o crescimento da indústria sem as salvaguardas ambientais adequadas.

Na Índia, na China e no Nepal, o esforço para expandir a indústria supera em muito "o cultivo e a conservação sérios", disse Craig, acrescentando: "Em certo ponto, isso se torna completamente insustentável".

Em 2010, a Índia reconheceu a "sowa rigpa" como um sistema de medicina indiano. A Índia comenta em um site do governo que embora "haja várias escolas de pensamento sobre a origem dessa tradição médica", a maior parte de sua teoria e prática é semelhante à da ayurveda, uma tradição indiana que, segundo a Índia, chegou ao Tibete no século 3º.

Acadêmicos ocidentais dizem que há claras ligações históricas entre as tradições médicas ayurvédica e tibetana. Mas a recente solicitação da Índia ao reconhecimento da Unesco provocou o rechaço de especialistas chineses.

Em abril, o jornal estatal "Global Times" citou Qin Yongzhang, um etnologista da Academia Chinesa de Ciências Sociais: "A verdade é que a medicina tibetana não apenas se originou, como se desenvolveu na China".

A recente solicitação da China à Unesco disse que as terapias tibetanas de fontes térmicas e banhos herbais --conhecidas como banhos medicinais lum-- foram "desenvolvidas pelo povo tibetano" e são populares em grande parte do oeste da China, incluindo a região autônoma do Tibete.

Uma designação pela Unesco aumentaria a consciência da tradição dos banhos "entre a população chinesa, enquanto incentivaria o diálogo sobre saúde e respeito à natureza entre diferentes grupos étnicos", disse a solicitação.

Robert Thurman, professor de estudos budistas indo-tibetanos na Universidade Columbia, disse que como a China possui "à força" a maior parte do planalto tibetano, área que segundo ele tem muitas fontes minerais, seu pedido à Unesco faz sentido.

"Mas afirmar que de certa forma a China foi a origem da tradição é francamente uma besteira", escreveu Thurman em um e-mail.

Uma mulher que atendeu ao telefone no escritório da comissão da Unesco na China, e que não quis dar seu nome, disse que o governo está trabalhando em sua solicitação à Unesco e que toda a informação relacionada é confidencial.

A Unesco disse que não comenta casos que estão em processamento. Um porta-voz em Bangcoc, Noel Boivin, disse em um e-mail que a agência incentiva nomeações de patrimônio cultural intangível.

Em entrevistas, dois tibetanos importantes deram uma visão mista do processo na Unesco e disseram que os tibetanos não têm opções fáceis para proteger seu legado cultural.

Sobre a proposta da China na Unesco, Tsering Woeser, uma escritora tibetana que vive em Pequim, disse que "é uma vergonha ver que o povo tibetano está mais uma vez representado sem nosso consentimento".

No entanto, disse ela, "se você não aproveitar as verbas e oportunidades, a medicina tibetana, juntamente com grande parte da cultura tradicional tibetana, desaparecerá gradativamente".

O doutor Tashi Rabten, um médico tibetano em Nyack, Estado de Nova York, disse que a consequência geral poderá ser positiva, independentemente de que país enviou a solicitação, mas só se a designação da Unesco reconhecer claramente que a tradição pertence aos tibetanos --e a mais ninguém.

Kloos, o antropólogo médico em Viena, disse que os países onde a "sowa rigpa" é praticada devem trabalhar juntos com o objetivo de que ela seja reconhecida internacionalmente.

"Mas a política interfere", disse ele, "embora devêssemos realmente tratar apenas de considerações médicas."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos