Cabras ganham espaço entre os pets e viram celebridades das redes sociais

Laura M. Holson

  • Amy Lombard/The New York Times

    Leanne Lauricella, que possui um santuário de cabras em Nova Jersey, EUA

    Leanne Lauricella, que possui um santuário de cabras em Nova Jersey, EUA

Scout Raskin era dona de três cães, um gato, tartarugas e dois caranguejos-eremitas. Mesmo assim, ela ansiava por um animal de estimação de fazenda para completar sua coleção em sua casa em um bairro semirrural no condado de Los Angeles. Um cavalo era grande demais para o quintal, uma galinha impossível de acariciar. Foi por isso que, em março, ela se viu em um restaurante Jack in the Box em Lancaster, Califórnia, uma cidade na margem ocidental do Deserto de Mojave, para se encontrar com um criador de cabras com dois filhotes de cabra anã nigeriana na traseira de seu Honda Odyssey.

Raskin escolheu Spanky e Pippin online semanas antes e as levaria para casa. Ela foi inspirada em parte pela febre da ioga com cabra, popular entre as mulheres e atrizes de Hollywood que vestem Lulelemon, como Rebecca Romjin. "As cabras estão na moda no momento", disse Raskin, uma ex-atriz infantil. "A maioria dos adultos quer ficar de quatro e deixar que cabras pulem em cima deles."

Cabras há muito são um tema popular de vídeos e memes online. Há cabras desmaiando, berrando, cabras de pijama e cabras com problema de raiva. Há um jogo virtual onde o único propósito de uma cabra é quebrar coisas e até mesmo uma peça de Edward Albee, ganhadora do prêmio Tony, "A Cabra ou Quem é Sylvia?", na qual o personagem principal tem um caso com o animal em questão. Mas nos últimos anos, um grande número de animais adoráveis saiu dos computadores e ingressou nos quintais, salas de estar e estábulos construídos às pressas das pessoas. De fato, o número de cabras anãs nigerianas registradas, adoradas por seu tamanho e natureza amável e brincalhona, aumentou 7,5% em três anos, segundo a Sociedade Americana da Cabra.

O Instagram se tornou um lugar popular para os donos compartilharem suas histórias de cabras. Elas são vistas em caminhadas, bebendo água da piscina e aconchegadas. O Goats of Anarchy, um grupo de Nova Jersey de resgate e reabilitação de cabras com necessidades especiais, é uma meca para amantes de coração mole de cabras, com 499 mil seguidores e uma linha de livros, meias e calendários.

"Sei que há estereótipos: elas comem latas e cheiram mal", disse William Kowalik, um representante da Sociedade Americana da Cabra. "Isso não é verdade. Elas são muito parecidas com cães. São ótimos animais de estimação. As cabras reconhecem seu humor. Elas podem fazer uma pessoa se abrir."

Angela Bailey vive a 20 minutos de carro de Saint Paul, Minnesota. Uma amiga sugeriu que ela arrumasse uma cabra, dizendo que o leite delas era de fácil digestão. Em maio, o marido de Bailey lhe deu dois filhotes de aniversário. "Eles balançam o rabo quando estão felizes", ela disse. "Eles gostam de ser coçados e acariciados, e adoram estar em nossa companhia." Igualmente atraente, ela disse, é que "o coco deles não fede".

Os amigos urbanos de Bailey não ficaram empolgados. "Senti que eles viraram os olhos um pouco", ela disse. Mas seus seis filhos adoraram as cabras, especialmente as meninas. "Rola muitos abraços", ela disse.

As cabras têm uma casta social definida, apesar de seu jeito bobo descontraído. "Todas têm seu próprio lugar", disse Kowalik, que tem cabras e mora em San Antonio. "Elas aprendem a ordem e se você não segui-la, elas fazem cara feia." Se uma cabra cheira a comida de outra cabra, "ela vai embora e se recusa a comer", ele disse. "Se um pedaço de melancia toca o chão, elas não comem. Elas também têm isto: 'Este não é o meu pote. Não vou beber dele'."

Apesar desses pecadinhos, as cabras são, em grande parte, tolerantes com humanos. Esse foi o apelo para Quinn Edwards, que trabalha com tecnologia e vive em Draper, Utah. Ele tem quatro cabras anãs nigerianas e conta com 35 mil seguidores no Instagram. "Quando era garoto eu tinha um amigo que gostava de burros e que dizia: 'Este tem uma boa personalidade'", disse Edwards. "Para mim, era apenas um burro estúpido." Mas isso foi até conhecer Kevin. "Ele é o melhor", ele disse. "Quando ele chegou em casa, as outras cabras eram um pouco maiores, mas ele nunca saía do meu lado." Eles faziam caminhadas, se abraçavam. Então os telefonemas começaram.

"Um guitarrista da H20, uma banda punk popular dos anos 90, telefonou dizendo que queria vir ver as cabras", disse Edwards, que concordou. "Eu ficava pensando, 'Vocês eram minha banda favorita'." Em outra ocasião uma família da Pensilvânia veio até sua casa para visitar Kevin e companhia. E no ano passado, Edwards recebeu uma mensagem de uma amiga da faculdade em Los Angeles, que queria visitar suas cabras após ver fotos no Facebook. Ela veio ver as cabras, depois se mudou para Utah. Em abril, eles se casaram.

"Cabras unem as pessoas", ele disse.

Talvez a parte mais difícil de possuir uma cabra é encontrar um bairro com zoneamento que permita animais de fazenda. Leanne Lauricella iniciou o resgate de animais Goats of Anarchy em 2015. Ela largou seu emprego como planejadora de eventos em Manhattan e se mudou para a zona rural de Nova Jersey, onde adotou duas cabras resgatadas. O rebanho cresceu para 52, um santuário para animais que perderam as patas por congelamento, perderam membros, sofreram abusos ou apresentam problemas congênitos.

Ela financia o resgate em grande parte por meio de doações, em parte por meio de uma conta inteligente no Instagram, onde ela posta vídeos e fotos documentando as dificuldades de cuidar de seu rebanho, incluindo Polly, uma cabra cega com ansiedade; Grace, que foi abusada por adolescentes; e Pocket, que perdeu parte das patas traseiras e usa próteses.

Um favorito recente era Lawson, que chegou a Lauricella neste ano com um problema cardíaco e patas traseiras deformadas. Ela o manteve na casa vestido em um macaquinho e dormindo em um cercadinho. Posteriormente, Lauricella adaptou para ele um carrinho para que pudesse sair. Ela encontrou um médico veterinário disposto a realizar uma cirurgia cardíaca e, em 17 de junho, contou a seus seguidores no Instagram que ela tinha sido um sucesso. Lawson voltou para casa em 29 de junho. "Lawson estava no meu colo para alguns afagos e então começou a berrar", ela escreveu posteriormente no Instagram. "Ele ficou azul instantaneamente." Lawson morreu nos braços dela um dia após voltar para casa.

A resposta de seus seguidores foi enorme. Em uma hora, mais de 3.000 pessoas ofereceram condolências. Esse número aumentou para 23.445 até o final da semana. Uma das pessoas que comentaram foi Patricia Hunt, de Concord, Califórnia, que disse que chorou quando Lawson morreu. Ela não tem uma cabra, mas sente simpatia por Lauricella e seu rebanho. "Eu estava torcendo por ele", ela disse sobre Lawson.

Raskin, que pegou suas cabras no Jack in the Box em março, descobriu rapidamente o quão populares suas cabras se tornariam. Ela agora aluga Spanky e Pippin por US$ 75 a hora. Eles aparecem no Hallmark Channel. Eles são um sucesso no circuito de ioga com cabra de Los Angeles. Pippin vestia recentemente um vestido branco de casamento para receber um noivo em sua festa de noivado. Mas de longe o evento mais elaborado foi a recepção do 30º aniversário. Mais de 30 pessoas apareceram para jogar Twister com cabra.

É claro, as fotos foram postadas no Instagram.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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