Relatório aponta "níveis chocantes" de violência sexual nas universidades australianas

Jacqueline Williams

Em Sydney (Austrália)

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    "Minha universidade pune o plágio mais duramente do que pune o estupro", diz cartaz de campanha End Rape on Campus Australia

    "Minha universidade pune o plágio mais duramente do que pune o estupro", diz cartaz de campanha End Rape on Campus Australia

Um muito aguardado levantamento nacional sobre assédio e ataque sexual nas universidades australianas, o primeiro desse tipo no país, revelou que mulheres jovens estão experimentando o que defensores das vítimas descrevem como "níveis chocantes" de violência sexual nos campi por todo o país, instigando uma série de novas medidas pelas autoridades para lidar com o problema.

O relatório, divulgado na terça-feira pela Comissão de Direitos Humanos do governo, mostra que 51% de todos os estudantes universitários já foram assediados sexualmente ao menos uma vez em 2016. Também mostra que mais de 2.000 estudantes, ou 6,9% dos entrevistados, já sofreram ataque sexual pelo menos uma vez em 2015 ou 2016, e que na grande maioria dos casos, nem a vítima e nem espectadores denunciaram o episódio.

"Lamentamos que isso tenha acontecido a vocês. Ataque sexual é crime", disse Margaret Gardner, a presidente da Universidades da Austrália, uma associação das universidades do país, que ajudou a financiar o levantamento.

"Ao longo de suas histórias vocês nos pediram para que fizéssemos mais para impedir outros de sofrerem algo semelhante. Não podemos livrá-los da dor que sentiram ou sentem, mas a reconhecemos e responderemos com coragem e atenção."

O relatório era muito esperado e sua divulgação sem dúvida intensificará a conversa nacional da Austrália sobre a predominância da violência sexual e seus efeitos. Os resultados, obtidos pelo levantamento junto a mais de 30 mil estudantes em 39 universidades australianas, mapeiam a extensão plena do problema e em grande parte confirmam as acusações das vítimas e de seus defensores, que argumentam há anos que as universidades australianas subestimaram a gravidade do abusos e ataques sexuais, além de não responderem de forma adequada no apoio às vítimas e punição aos perpetradores.

"Este relatório representa um marco imenso", disse Kate Jenkins, a comissária de discriminação sexual da Austrália, em uma coletiva de imprensa. "Por décadas, estudantes universitárias e sobreviventes de abusos e ataques sexuais defendem mudanças. Todos nós já ouvimos histórias sobre a ocorrência de comportamentos desse tipo nos campi. Hoje, temos os primeiros dados nacionais, estatisticamente significativos, a respeito da escala e natureza desse problema nas universidades da Austrália."

Após a divulgação do relatório, a comissão e a Universidades da Austrália apresentaram várias recomendações para prevenção, resposta às acusações e treinamento especial para todos os funcionários.

O relatório mostrou que as estudantes com frequência não revelam ataques sexuais à polícia, às administrações das universidades ou outras órgãos formais, em vez disso confidenciando a amigos, tutores ou professores, disseram defensores. Mas essas pessoas raramente são treinadas para responder a essas revelações, levando a um novo conjunto de recomendações para fornecimento a elas do treinamento especializado.

"Sabemos que a forma como é inicialmente tratada a revelação de um ataque sexual pode fazer toda a diferença para a recuperação da vítima ou sobrevivente" disse Belinda Robinson, a presidente-executiva da Universidades da Austrália.

Mas os problemas vão além de apenas a resposta oficial, indo a comportamentos profundamente arraigados que refletem o que especialistas há muito descrevem como uma cultura de hipermasculinidade e privilégio.

O relatório apontou, por exemplo, que estudantes bissexuais, aborígenes e ilhéus do Estreito de Torres, assim como estudantes com algum tipo de deficiência, apresentam maior probabilidade de serem molestados ou atacados do que outros estudantes.

O relatório também apontou que não são apenas as vítimas que não denunciam os episódios; espectadores também permanecem em silêncio.

"Os motivos mais comuns para espectadores não agirem é por não acharem que era algo sério o bastante ou não saberem o que fazer", disse o relatório.

Mais resultados do levantamento devem ser divulgados ao longo de amanhã, à medida que os veículos de notícias trabalham para compilar e comparar as estatísticas das universidades, que divulgarão publicamente os dados de incidência de ataques e assédios sexuais em suas instituições.

O "New York Times" noticiou em junho que ao longo do ano passado, a Austrália estava lidando com ataques nos campi e represálias às vítimas. Algumas universidades têm sido lentas em disciplinar os perpetradores; algumas fornecem acesso a conselheiros, apesar de não necessariamente com treinamento especializado em ataques sexuais; e a educação sobre a questão varia de um campus para outro.

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Um relatório de janeiro pelo grupo de defesa End Rape on Campus Australia (Fim do Estupro no Campus, Austrália) apontou que as universidades com frequência falham em dar apoio às vítimas de ataques sexuais e assédio. E apesar de o problema ser global, cada novo escândalo na Austrália tem levado mais mulheres a se manifestarem.

Nina Funnell, uma defensora das vítimas, disse que os resultados da comissão não são uma surpresa para os grupos de defesa.

"O que o relatório mostra é o esperado: as mulheres jovens na Austrália estão experimentando níveis chocantes de violência sexual dentro das universidades", disse Funnell.

"Na maioria dos casos, os perpetradores são conhecidos por elas, e as pessoas que vivem nas instalações residenciais são as que têm maior probabilidade de experimentar e correm mais risco de sofrer um ataque sexual do aquelas que estudam de dia e vão embora."

"Sabemos há décadas que essas são as tendências predominantes", ela acrescentou. "Mas agora contamos com dados para apoiar nossas afirmações."

Nos dias que antecederam a divulgação do relatório, vítimas de assédio e ataque sexuais de todo o país realizaram manifestações no lado de fora de suas universidades, segurando cartazes detalhando como achavam que suas instituições falharam com elas.

Alguns dos cartazes também ofereciam apoio às vítimas.

Muitas estudantes disseram temer que nas próximas semanas suas vozes serão abafadas pelos líderes das universidades, visando proteger a reputação de suas instituições.

"Aqui está o que a resposta da Universidade de Adelaide ao meu estupro me custou", dizia o cartaz de Matilda Duncan. "Meu diploma, a chance de me formar. Minha carreira. Minha educação. Minha saúde e felicidade. Amigos, confiança, curiosidade e esperança." Duncan apresentou uma queixa à comissão sobre a acusação que ela disse tê-la forçou a abandonar a universidade.

A campanha, espalhada pelas páginas dos principais veículos de notícias na Austrália, foi organizada pela End Rape on Campus Australia e seguiu o modelo do Projeto Unbreakable (Inquebrável), uma campanha americana de fotos, na qual as vítimas de ataques sexuais seguravam placas sobre o que os perpetradores lhes disseram após um ataque.

"Por trás de cada uma dessas estatísticas há uma pessoa real que experimentou essa violência", disse Funnell, que liderou a campanha. "Fizemos a campanha para dar um rosto humano à questão, para que as vozes e experiências das estudantes e sobreviventes não se percam em meio aos dados."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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