Realidade virtual vira alternativa para terapeutas apoiarem pacientes na superação de traumas

Cade Metz

Em San Francisco (EUA)

  • Jason Henry/The New York Times

    Myla Fay, da Limbix, testa o equipamento com o software de realidade virtual usado para terapias

    Myla Fay, da Limbix, testa o equipamento com o software de realidade virtual usado para terapias

Dawn Jewell tratou recentemente de uma paciente assombrada por um acidente de carro. A paciente desenvolveu ansiedade aguda ao percorrer o cruzamento onde o acidente ocorreu, incapaz de passar por uma rota que trazia tantas lembranças dolorosas.

Assim Jewell, uma psicóloga no Colorado, tratou a paciente por meio de uma técnica chamada terapia de exposição, servindo como guia emocional ao revisitarem o cruzamento juntas. Mas não retornaram fisicamente ao local. Elas o revisitaram por meio de realidade virtual.

Jewell está entre uma série de psicólogos que está testando um novo serviço de uma startup do Vale do Silício chamada Limbix, que oferece terapia de exposição por meio do Daydream View, um visor do Google que funciona em conjunto com um smartphone.

"Ele fornece a exposição de uma forma que os pacientes se sentem seguros", ela disse. "Podemos ir até um local juntos e o paciente pode me contar o que está sentindo, o que está pensando."

O serviço recria locais ao lar livre explorando outro produto do Google, o Street View, um vasto banco de dados online de fotos que proporcionam cenas panorâmicas de ruas e outros endereços ao redor do mundo. Usando essas cenas de rua virtuais, Jewell tratou um segundo paciente que sofria de ansiedade, após ser ferido por outra pessoa do lado de fora de um prédio local.

O serviço também é projetado para fornecer tratamento de outras formas, como levar pacientes para o alto de um arranha-céu virtual, para que possam enfrentar o medo de altura, ou a um bar virtual, para que possam tratar do vício em álcool.

Apoiada pela empresa de capital de risco Sequoia Capital, a Limbix tem menos de 1 ano de idade. Os criadores de seu novo serviço, incluindo seu presidente-executivo e cofundador, Benjamin Lewis, trabalharam em esforços seminais de realidade virtual no Google e Facebook.

O hardware e o software com os quais trabalham ainda são muito jovens, mas a Limbix se apoia em mais de duas décadas de pesquisa e testes clínicos envolvendo realidade virtual e terapia de exposição. Em um momento em que muito badalados visores como o Daydream e o Oculus do Facebook ainda têm dificuldade em encontrar um vasto público no mundo dos games (quanto mais em outros mercados), a psicologia é uma área onde especialistas médicos e de tecnologia acreditam que eles podem ser um benefício.

Desde meados dos anos 90, testes clínicos mostraram que esse tipo de tecnologia pode ser de ajuda no tratamento de fobias e outras condições, como transtorno de estresse pós-traumático.

Tradicionalmente, psicólogos têm tratado essas condições ajudando os pacientes a imaginarem que estão enfrentando um medo, criando mentalmente uma situação na qual podem tratar suas ansiedades. A realidade virtual leva isso um passo além.

"Nós nos sentimos confiantes de que a terapia de exposição usando RV pode complementar o que apenas a imaginação do paciente pode fazer", disse Skip Rizzo. um psicólogo clínico da Universidade do Sul da Califórnia, que tem explorado essa tecnologia ao longo dos últimos 20 anos.

Barbara Rothbaum contribuiu para o pioneirismo da prática na Escola de Medicina da Universidade Emory, em Atlanta, e o trabalho dela gerou uma empresa chamada Virtually Better, que há muito oferece ferramentas para terapia de exposição por realidade virtual para alguns médicos e hospitais, por meio de um geração mais antiga de visor. Segundo um teste clínico que ela ajudou a desenvolver, a realidade virtual foi tão eficaz quanto visitas a aeroportos no tratamento do medo de voar, com 90% dos pacientes posteriormente superando suas ansiedades.

Essa tecnologia também é eficaz no tratamento de transtornos de estresse pós-traumático entre veteranos. Diferente de tratamentos que empregam apenas imaginação, disse Rothbaum, a realidade virtual pode forçar os pacientes a enfrentarem seus velhos traumas.

"O transtorno de estresse pós-traumático é um transtorno de evasão. As pessoas não querem pensar naquilo", ela disse. "Precisamos que elas se engajem emocionalmente e, com a realidade virtual, fica mais difícil para elas evitar isso."

Agora, visores como o Daydream do Google, que funciona em conjunto com smartphones comuns, e o Oculus do Facebook, o visor de US$ 400 que provocou a atual ressurgimento das tecnologias de realidade virtual, podem proporcionar esse tipo de terapia para um público muito maior.

A Virtually Better desenvolveu sua tecnologia para hardware de realidade virtual que é vendida por vários milhares de dólares. Hoje, a Limbix e outras empresas, incluindo a startup espanhola Psious, oferecem serviços que são bem menos caros. Nesta semana, a Limbix está começando a oferecer suas ferramentas a psicólogos e outros terapeutas fora de seu teste inicial. O serviço é gratuito por ora, com a empresa planejando vender ferramentas mais avançadas a certa altura.

Após testar a oferta da Limbix, Jewell disse que ela permitiu aos pacientes enfrentar suas ansiedades de formas mais controladas do que poderiam de outras formas. Ao mesmo tempo, uma ferramenta dessas pode realmente dar aos pacientes a sensação de serem transportados para locais diferentes, ao menos em alguns casos.

Estar no topo de um arranha-céu virtual, por exemplo, poderia causar ansiedade até mesmo entre pessoas relativamente à vontade com alturas. Especialistas alertam que um serviço como o oferecido pela Limbix exige a mão guia de psicólogos treinados enquanto ainda está em desenvolvimento.

A Limbix combina perícia técnica e médica. Um funcionário chave, Scott Satkin, é um pesquisador de robótica e inteligência artificial que trabalhou no projeto Daydream do Google. A Limbix também conta com seu próprio psicólogo, Sean Sullivan, que continua trabalhando em seu consultório em San Francisco.

Sullivan está usando o novo serviço para tratar pacientes, incluindo um jovem que desenvolveu recentemente medo de voar, algo que causa ansiedade até mesmo quando ele fala a respeito. Usando o serviço juntamente com Sullivan, o jovem, que pediu para que seu nome não fosse citado por questões de privacidade, passou várias sessões visitando um aeroporto virtual e, posteriormente, voando em um avião virtual.

De certo modo, disse o jovem, o serviço ainda está longe de perfeito. Assim como as cenas do Street View que Jewell usa no tratamento de seus pacientes, parte dessa realidade virtual é estática, construída a partir de fotos. Mas assim como o restante do mercado de realidade virtual, essas ferramentas ainda estão evoluindo na direção de cenas mais realistas.

Mas mesmo em sua forma atual, o serviço pode ser convincente. O jovem tomou recentemente um voo para cruzar o país, aqui, no mundo real.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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