Com o Brexit, irlandeses temem fim da paz com a volta de fronteiras

Sarah Lyall

Em Londonderry (Irlanda do Norte)

  • PAULO NUNES DOS SANTOS

    Vista da cidade de Derry, no norte da Irlanda

    Vista da cidade de Derry, no norte da Irlanda

Atravessar a fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda costumava envolver demora, pontos de controle, tormentos burocráticos e a persistente ameaça de violência. O fato de isso hoje ser algo praticamente fluido, sendo possível atravessá-la sem nem perceber, parece quase milagroso.

É também um dos maiores sucessos do processo de paz irlandês das últimas décadas. "Era como se antes você tivesse de pular um portão trancado", disse George Fleming, presidente da Câmara de Comércio de Londonderry, em uma entrevista. "E então alguém tivesse vindo e aberto o portão".

Mas assim como com muitas questões relacionadas aos britânicos ultimamente, o "Brexit"—a saída do Reino Unido da União Europeia—colocou em risco esse arranjo obtido com tanto custo.

Se o governo britânico conseguir se livrar da União Europeia, as duas partes da Irlanda perderão um dos mais importantes fatores que as unem: uma filiação compartilhada ao bloco. De uma hora para outra, uma parte da ilha estaria na Europa, e a outra não.

Criada há quase cem anos, mais por pressa política do que por uma lógica natural, a fronteira—com quase 500 km e 210 pontos de travessia—não é fácil de controlar, policiar ou até mesmo de identificar. (Muitos dos pontos de travessia ficam em pequenas estradas secundárias.)

Reinstaurar uma fronteira rígida, como chamam os habitantes, teria consequências tanto psicológicas quanto práticas. A circulação de bens e de serviços entre o norte e o sul, hoje corriqueira e fácil, se tornaria muito mais complicada com a introdução de novas tarifas e regras alfandegárias.

PAULO NUNES DOS SANTOS/NYT
Prédios na cidade de Bogside, um tradicional bairro católico do norte da Irlanda

Também existem temores a respeito da volta de guardas armados e controles de fronteira, do ressurgimento de contrabandos e de outros tipos de ilegalidades, e um retorno da violência por parte de irlandeses dissidentes que podem se irritar com sinais de controle britânicos nos pontos de travessia.

A Irlanda do Norte votou contra o Brexit no referendo do ano passado. Pesquisas mostram que, por questões práticas, a maioria das pessoas na região, independentemente de se identificarem como irlandesas ou britânicas, querem que a fronteira permaneça porosa e fluida.

"Voltar a impor a fronteira é como subir o Muro de Berlim novamente, depois de tê-lo derrubado", disse Fleming, cuja empresa de equipamentos agrícolas fica a somente 3 km da fronteira.

Ele emprega pessoas tanto do norte quanto do sul, faz negócios tanto no norte quanto no sul (e no exterior) e, assim como cerca de 325 mil outras pessoas toda semana, dirige regularmente entre os dois lugares, incontáveis vezes. Sua mãe de 96 anos vive logo depois da fronteira, na República.

A ilha foi dividida em duas em 1921—o norte, parte do Reino Unido e governado a partir de Londres, e o sul, uma nação soberana governada a partir de Dublin. A maior parte da fronteira entre Reino Unido e União Europeia são as águas do Canal da Mancha; a única fronteira terrestre minimamente comparável é entre a Espanha e o território britânico de Gibraltar.

O governo britânico procurou tranquilizar os moradores da fronteira, dizendo que suas preocupações estão sendo ouvidas. "Ninguém quer voltar para as fronteiras do passado", disse a primeira-ministra Theresa May em janeiro, prometendo manter a Área de Circulação Comum, que permite que cidadãos do Reino Unido e da República viajem de um lado para outro sem estarem sujeitos a checagens de passaporte.

Mas as palavras de May convenceram poucas pessoas aqui. Uma das principais motivações para o Brexit era o desejo do Reino Unido de recuperar soberania e retomar o controle de suas fronteiras. As pessoas que vivem em qualquer um dos lados da divisão estão se perguntando como o Reino Unido pode possivelmente esperar conseguir as duas coisas—criar uma nova fronteira rígida com a Europa ao mesmo tempo em que mantém a abertura atual.

PAULO NUNES DOS SANTOS/NYT
Ponte da 'Paz' na cidade de Londonderry, na Irlanda

Elas também dizem que as declarações de Westminster ignoram centenas de anos de uma história complicada e demonstram uma profunda incapacidade de entender as intensas emoções que o Brexit provocou em uma região traumatizada pelo passado.

Londonderry, por exemplo, é uma cidade predominantemente católica em uma região de maioria protestante com um longo e amargo histórico de violentos conflitos sectários. Problemas antigos podem parecer muito perto de virem à tona aqui. Mas nos últimos anos—e mais drasticamente desde a entrada em vigor do acordo de paz conhecido como o Acordo da Sexta-feira Santa, em 1999, a cidade sofreu uma transformação notável.

Hoje poucas pessoas ligam para o que já foi uma questão de vida e morte, sobre como chamar a cidade: Londonderry, seu nome oficial e em geral o preferido pelos protestantes, ou Derry, o nome preferido pelos católicos, pelo qual ela é conhecida em geral. Organizações governamentais (e a BBC), refletindo que ambos os lados têm razão, sucumbiram à praticidade e muitas vezes escrevem "Derry/Londonderry".

"Não há mais problemas aqui", disse Shauna McClenaghan, líder de uma organização civil em Inishowen, uma região próxima da República que está intimamente conectada a Londonderry política e culturalmente, apesar de estar do outro lado da fronteira internacional. "Derry é somente uma cidade".

Gerry Lynn, um historiador amador que realiza passeios guiados no Guildhall, o prédio histórico no centro onde se reúne o Conselho Municipal, ofereceu sua versão condensada de mais de mil anos extremamente complexos de história irlandesa, explicando o progresso que o país e a região fizeram desde os conflitos na Irlanda do Norte conhecidos como Troubles (sem mencionar os anos 1600).

"Esta cidade, este país, é como uma mulher que deu à luz", disse Lynn. "Todo o trauma, a dor e as lutas acabaram. Saímos dos Troubles—saímos do preto e branco e entramos no colorido".

Agora, ônibus cheios de turistas da China e da América do Sul chegam aos montes para admirar o muro do século 17 que cerca a cidade, cujos habitantes protestantes ainda sentem orgulho por ele nunca ter sido atravessado por forças católicas durante o Cerco de Derry, em 1689. Em 2013, a cidade se tornou a primeira Cidade da Cultura do Reino Unido.

Em 2011, foi construída sobre o Rio Foyle uma Ponte da Paz para pedestres, que custou 14 milhões de libras (cerca de R$67 milhões) e foi financiada em grande parte com dinheiro europeu, conectando o centro da cidade, majoritariamente católico, à área mais protestante de Waterside, ao leste.

"Estão todos muito contentes com a paz que temos aqui, e ninguém liga realmente muito para política, com exceção dos políticos", disse Daphne Wilson, 50, que passeava pela ponte outro dia.

Embora tenha votado a favor do Brexit—"Não queremos pedófilos e terroristas vindo aqui"—ela acredita que a livre circulação tenha ajudado os dois lados a se sentirem parte de algo maior.

Assim como Toni Forrester, a presidente da câmara de comércio de Letterkenny, no Condado de Donegal, na República. "Nós trabalhamos muito, de forma muito próxima, para conseguirmos fazer funcionar a cooperação na fronteira", ela disse.

Como exemplo, ela mencionou um novo centro de diagnósticos por imagens em Londonderry que é aberto a pacientes da República. "Você pode sofrer um infarto em Donegal e ser atendido em Derry", ela disse.

Líderes comunitários temem que boa parte do delicado progresso obtido nas duas últimas décadas—a amenização de preconceitos consolidados, os movimentos graduais na direção de uma reconciliação—poderia ser destruída pela reintrodução de uma mentalidade de "nós contra eles" que uma fronteira rígida traria.

"Esta área recebe financiamento da UE, programas de paz que beneficiam o norte e o sul promovendo a noção de que temos mais em comum do que diferenças", disse McClenaghan.

Hoje com 49 anos e co-presidente da Inishowen Development Partnership, ela cresceu em Galway, na República, quando as fronteiras eram repletas de pontos de controle e as estradas eram patrulhadas por policiais armados.

"Você via o Exército com seus tanques e armas, era assustador e intimidante", ela disse. "Quando você passava a fronteira, eles sempre perguntavam aonde você estava indo e de onde você era".

McClenaghan falava enquanto tomava uma xícara de café em uma cafeteria de Bridgend, na ponta sul da península de Inishowen. A fronteira com a Irlanda do Norte fica na mesma rua, perto de uma intersecção que já é confusa e para na hora do rush.

"Como ficará o trânsito se houver uma fronteira rígida?", ela perguntou.

Entre outras complicações logísticas, a forma pouco prática como a ilha é dividida significa que, a menos que você faça um desvio de três ou quatro horas através do oeste da Irlanda, você não consegue dirigir de Inishowen até Dublin sem atravessar a fronteira pelo menos duas vezes.

Lynn, o guia de turismo no Guildhall, disse que depois de chegarem tão longe as pessoas da cidade não tinham vontade de voltar para as coisas como eram antes. "História tem de ser história", ele disse. "Tem de ficar no passado".

* Com reportagem de Ed O'Loughlin.

Tradutor: UOL

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