Como se proteger de um ataque nuclear nos EUA? Corra para um prédio e busque mantimentos

Jim Dwyer

Em Nova York (EUA)

  • Harrison Hill/The New York Times

    Prédio com placa indicando que o local pode servir de abrigo em caso de ataque nuclear em Manhattan, Nova York

    Prédio com placa indicando que o local pode servir de abrigo em caso de ataque nuclear em Manhattan, Nova York

A cidade de Nova York já contou com um Escritório de Defesa Civil para deixar a cidade preparada para quando "o balão subisse", isto é, quando uma bomba atômica fosse lançada pela União Soviética. Sua sede ficava em uma mansão convertida na Rua 55 como a Lexington Avenue.

A última pessoa a comandá-lo foi um homem chamado Timothy J. Cooney, nomeado pelo prefeito John V. Lindsay em 1966. Cooney e Lindsay não estão mais conosco, mas tive o privilégio de conversar com Cooney em 1991. 

Aquele escritório era uma ópera bufa de cabide de empregos e Cooney teve que botar a casa em ordem. As loucuras da iniciativa, como na maioria dos empreendimentos humanos, tornam a linguagem desmedida do presidente sobre a Coreia do Norte e ataques nucleares ainda mais imprudente. 

"Era uma operação e tanto", disse Cooney. O salário dele era de US$ 17.500 por ano, que equivaleria a cerca de US$ 130 mil em 2017. Seu gabinete, no andar superior da mansão, tinha chuveiro particular, sacada, carpete de parede a parede e uma linha direita de telefone capaz de colocá-lo imediatamente no ar na emissora de rádio municipal. Todos, do diretor até o funcionário mais baixo, tinham um frágil capacete azul.

Durante os anos de tensão e corrida armamentista nuclear da Guerra Fria, o governo federal concentrou seus preparativos defensivos nos subúrbios, na época em crescimento. O pensamento era que grandes cidades como Nova York estariam perdidas em caso de um ataque direto.

Como Tom Vanderbilt escreveu no "New York Times" em 2003, isso irritava Nelson Rockefeller, que se tornou governador de Nova York em 1959. Ele construiu um bunker em Albany. Durante a construção da nova sede do Chase Manhattan Bank na Liberty Street, na Baixa Manhattan (David, o irmão de Nelson, era o presidente), abrigos foram construídos no subsolo capazes de proteger até 15 mil pessoas em caso de um ataque. 

No 43º andar do Waldorf Astoria havia um estoque de suprimentos capaz de manter 7.500 pessoas vivas por duas semanas. 

Trabalhavam para Cooney 240 pessoas de todos os cinco distritos. Muitos eram majores, coronéis e generais que serviram em ambas as Guerras Mundiais e, na aposentadoria, continuavam tratando uns aos outros de acordo com sua patente. Um funcionário não serviu nas forças armadas, de modo que conseguiu uma nomeação como capitão da polícia auxiliar. Dessa forma, ele podia ser chamado de Capitão. Mesmo isso estava bem acima da última patente militar de Cooney. 

"Eu fui cabo", disse Cooney, de modo que as pessoas que respondiam a ele o tratavam como "sr. Diretor". Isso era formal demais, ele lhes disse, então um dos oficiais aposentados passou a dizer, "Boa noite, Sonny", quando se despedia no fim do expediente. 

Sete carros e sete motoristas estavam à disposição de Cooney, todos equipados com os mais recentes rádios bidirecionais. Certa noite, ele e sua esposa, Joan Ganz Cooney, iriam a um concerto. Ele disse ao seu motorista que podia ir para casa naquela noite. O motorista ficou incomodado, como Cooney contou ao "Times" em 1966: "Senhor, não acho que o senhor queira que eu faça isso. Quem lhe informaria caso um balão subisse?" 

Cooney pensou que provavelmente descobriria isso por conta própria. 

Um levantamento feito pelo Corpo de Engenheiros do Exército a um custo de US$ 15 milhões (cerca de US$ 115 milhões hoje) apontou que 30 mil prédios na cidade ofereceriam proteção contra precipitação radioativa. Ele instalou 19 mil placas amarelas e pretas de abrigos contra precipitação. Essas placas ainda podem ser vistas aqui e acolá. 

Cooney descobriu que apenas 7.000 dos 19 mil contavam com suprimentos como água e biscoitos. 

A melhor aposta em caso de um ataque, ele disse, seria encontrar um mercado. 

"Entre em um prédio, tendo placa de abrigo ou não, mas que tenha uma loja da A&P nele", disse Cooney ao "Times". 

Nas reuniões semanais com todos os comissários da cidade, disse Cooney, ele os pressionava e perguntava se precisavam de um bom secretário, pois ele tinha alguns disponíveis. Os militares reformados estavam sendo encorajados a se aposentarem do serviço público municipal. Após o fechamento do escritório em 1966, Cooney se tornou um defensor de moradias para os pobres.

(Naquele mesmo ano, em um jantar no apartamento deles perto do Gramercy Park, sua esposa teve uma conversa que levou à criação do programa "Vila Sésamo" e da Oficina de Televisão para Crianças.) 

Em 1991, Cooney lembrou de ter sido entrevistado por um repórter quando estava desmontando o Escritório de Defesa Civil. "'Suponha que um balão suba', ele diz, 'Qual seria a sua responsabilidade?'" disse Cooney, lembrando sua resposta: "Minha primeira seria levar meu pessoal para casa. Todos estão na faixa dos 80 anos."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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