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Opinião: Americanos devem olhar para o passado para voltarem a ter um sentimento de união

O ex-presidente americano Abraham Lincoln - Mathew Brady
O ex-presidente americano Abraham Lincoln Imagem: Mathew Brady

David Brooks

25/11/2017 00h01

No passado, tivemos uma história nacional unificadora, que é celebrada em todo dia de Ação de Graças. Era uma história do Êxodo. Os americanos são o povo que escapou da opressão, cruzou o deserto está construindo uma terra prometida. Os puritanos trouxeram essa história consigo. Cada onda de imigrantes se enxergou nessa história. O movimento de direitos civis abraçou essa história.

Mas temos de admitir que muitos hoje não se identificam com essa história, que foi baseada na unidade do povo americano. Se você tiver menos de 45 anos, provavelmente aprendeu uma história americana que é realista ao enfatizar a divisão—entre os colonizadores e os nativos, os fundadores e seus escravos, os chefes e seus empregados, os brancos e os não-brancos.

É mais difícil para muitos hoje acreditarem que esta é uma terra prometida. Parece prometida para os poucos privilegiados, mas levou à marginalização de muitos.

As narrativas que hoje têm apelo são baseadas em divisão e decepção. A narrativa multicultural, dominante em qualquer escola, diz que os Estados Unidos são divididos em grupos biológicos diferentes e que o status de cada grupo é definido pela opressão sofrida por ele. A narrativa populista, dominante no eleitorado, diz que os Estados Unidos são divididos entre o povo comum virtuoso e as elites corruptas e burras.

Hoje não temos nenhuma narrativa nacional em comum, nenhuma forma coletiva pela qual interpretar os acontecimentos. Sem uma história em comum, não podemos saber qual é nosso propósito nacional. Não temos nenhum conjunto coletivo de metas ou ideais.

Nós precisamos de uma nova narrativa nacional.

Uma forma de identificá-la é olhando para as características de nossa história. Fomos bons com nossos inimigos nos pós-guerra. Depois da revolução, nós logo nos aliamos ao Reino Unido. Depois da Primeira Guerra Mundial, Woodrow Wilson foi compassivo com nossos inimigos europeus. Depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos generosamente reconstruíram a Alemanha e o Japão.

Em outros lugares, as inimizades duram séculos. Mas não aqui. Por quê? Porque nós temos uma predileção por novos começos. Para muita gente, vir a este país é um novo começo. Nós transformamos cada nova presidência, cada nova temporada esportiva, cada cerimônia de formatura em um novo começo. Dizem que americanos não resolvem brigas, nós simplesmente as deixamos para trás.

Então a história dos Estados Unidos pode ser interpretada como uma série de redenções, de danos, de sofrimentos e de novos começos restaurativos. Vejam, por exemplo, os lemas em nosso Grande Selo: “Nova Ordem dos Séculos” e “De Muitos, Um”. No século 18, as divisões entre os colonos foram parcialmente curadas. No século 19, as divisões entre os livres e os escravizados foram parcialmente curadas.

No século 20, os Estados Unidos curaram parcialmente as divisões entre a democracia e o totalitarismo. No século 21, ainda teremos novos começos reconciliadores pela frente.

O grande sermão da redenção e da reconciliação é o segundo discurso de posse de Lincoln.

Esse é um discurso de tremenda humildade intelectual. Nenhum de nós antecipou esse conflito, ou sua magnitude. Todos nós “prevíamos um triunfo mais fácil”. Nenhum de nós está totalmente no controle. “Não julguemos para não sermos julgados”.

Esse é um discurso de grande humildade moral. A escravidão, diz Lincoln, não foi uma instituição sulista, foi uma instituição americana, permeando nossa história coletiva por 250 anos.

O flagelo da guerra, que purga esse pecado, recaiu de ambos os lados. Lincoln combateu qualquer sentimento de superioridade que os nortistas pudessem exibir. Ele rejeitava qualquer pensamento de que Deus fosse um Deus tribal. Ele colocou a todos nós na mesma categoria de ambiguidade e perdição.

O discurso é um grande discurso de reconciliação. As palavras nele recorrentes são “nós” e “todos”. “Todos os pensamentos se dirigiam com inquietação para uma guerra civil iminente. Todos a temiam, todos tentaram evitá-la... Ambos os lados deploravam a guerra”.

Lincoln criou as condições para um perdão mútuo; não um perdão barato, leviano, mas sim do tipo que contém todos os estágios de um perdão devidamente rigoroso: piedade, juízo, confissão, penitência, reconciliação e volta da confiança.

Ele criou as condições para uma flexibilidade política e um pragmatismo. Não conseguimos realmente entender por que as coisas acontecem ou a vontade de Deus. Portanto, não podemos ter certeza de nosso conceito do que é certo, ou sermos rígidos em relação a princípios abstratos ou a uma ideologia dogmática. Tudo deve estar aberto a experimentação, flexibilidade e manobras.

A súplica final prenuncia um novo começo: “Sem maldade para ninguém, com caridade para todos, com firmeza no que é certo, pois Deus nos permite ver o que é certo, vamos nos empenhar para terminar nosso trabalho, em curar as feridas da nação... em conquistar uma paz duradoura entre todas as nações”.

Em seu discurso, Lincoln é realista ao reconhecer as divisões e decepções que assolam a nação. Mas ele não aceita a inevitabilidade de uma casa dividida. Ele combina a redenção cristã com o amor multiculturalista pela diversidade.

Em uma jogada brilhante, Lincoln retira o chauvinismo e o identitarismo branco da política cristã que hoje vemos na direita evangélica, e preenche o vácuo da visão moral que hoje vemos na esquerda relativista.

Ele mostra como o particularismo americano sempre sugere o universalismo, assim como os aspectos específicos da história de nossos colonizadores e de nossa cultura sugerem a visão de uma comunhão entre toda a humanidade. Esta é uma história de qual podemos participar e que podemos viver.

Tradutor: UOL