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Abatidos pela perda de familiares, mexicanos lutam para encontrar corpos e sonham com justiça

Vicky Delgadillo chora após observar foto de sua filha desaparecida, em sua casa em Xalapa, no México - DANIEL BEREHULAK/NYT
Vicky Delgadillo chora após observar foto de sua filha desaparecida, em sua casa em Xalapa, no México Imagem: DANIEL BEREHULAK/NYT

Azam Ahmed

Em Xalapa (México)

26/11/2017 00h01

Às 5h da manhã, o casal se agitou com o toque do despertador do celular. Eles mal dormiram, pois Carlos Saldaña esteve no hospital na noite anterior, traído por seu estômago frágil.

Ele tinha rezado para que a dor passasse, para que Deus lhe desse forças. Hoje ocorreria a batida, a culminação de anos de rastreamento dos cartéis, das solitárias missões de reconhecimento para descobrir onde descartaram sua filha.

Por muito tempo, ele implorou às autoridades para que fizessem algo. Agora, ele se perguntava se conseguiria até mesmo andar.

"Por que esta noite, Deus?" ele murmurou no hospital, dobrado de dor.

Ele passou os últimos seis anos à procura de sua filha Karla, superando cada obstáculo com uma obsessão que beirava a loucura: as ameaças dos cartéis, a indiferença do governo, a piora da saúde, até mesmo seus outros filhos, que temiam que a caçada imprudente os colocaria em perigo.

Vicky Delgadillo observava enquanto ele se levantava da cama e pegava uma bengala. Ela também teve uma filha desaparecida, Yunery, a quem Saldaña agora considerava como também sendo sua. Nos últimos dois anos, o casal compartilhou uma casa, uma vida e um amor nascido da perda. Ela entendia a fixação que definia a vida dele, pois também definia a dela.

Membros do Coletivo Solecito, um grupo que busca por familiares desaparecidos, procuram por corpos em Veracruz, no México - 	DANIEL BEREHULAK/NYT - 	DANIEL BEREHULAK/NYT
Membros do Coletivo Solecito, um grupo que busca por familiares desaparecidos, procuram por corpos em Veracruz, no México
Imagem: DANIEL BEREHULAK/NYT


Antes do amanhecer, as orações deles foram atendidas. Mesmo não plenamente recuperado, Saldaña ao menos estava bem o suficiente para acompanhar a batida onde ele sabia, lá no fundo, que ambas as meninas estavam enterradas, dois corpos entre os milhares perdidos no Estado de Veracruz, entre as dezenas de milhares por todo o país.

Eles saíram antes do nascer do sol naquela manhã úmida de junho.

'Todo o Estado é uma imensa vala comum'

Oficialmente, o governo mexicano reconhece o desaparecimento de mais de 30 mil pessoas (homens, mulheres e crianças, presas em um abismo liminar), nem mortos e nem vivas, vítimas silenciosas da guerra das drogas.

Mas a verdade é que ninguém sabe quantas pessoas estão desaparecidas no México.

Nem o governo, que não possui um registro nacional dos desaparecidos. Nem as famílias presas no purgatório emocional. Nem as autoridades em Estados como Veracruz, onde Karla e Yunery desapareceram em um mesmo espaço de 24 horas.

Quando o novo governador de Veracruz iniciou seu mandato em dezembro, o número oficial estadual de desaparecidos era de poucas centenas. Após uma revisão bem básica, o governador o mudou para quase 2.600.

Apenas no ano passado, os restos mortais de quase 300 pessoas foram desenterrados de covas clandestinas em Veracruz.

Em março, Veracruz anunciou que não tinha dinheiro para realização dos exames de DNA nos restos mortais encontrados, deixando pais como Saldaña pedindo dinheiro na rua visando levantá-lo pessoalmente.

Sobrecarregado, o Estado também desistiu de realizar novas buscas por valas comuns. Ele simplesmente não dispunha de mais nenhum lugar onde colocar os corpos.

"Todo o Estado é uma imensa vala comum", disse Jorge Winckler, o procurador-geral do Estado.

Por mais de uma década, cartéis por todo o México eliminaram seus rivais com completa impunidade, jogando seus corpos em valas comuns por todo o país. Soldados e policiais com frequência adotam a mesma abordagem, deixando muitas famílias temerosas demais para pedir ajuda a um governo que veem como cúmplice.

É tanto altamente eficiente quanto cruel: sem um corpo, não existe um caso.

"A coisa mais cruel a respeito de um desaparecimento é que isso lhe deixa com essa esperança desesperada de que seu filho possa ainda estar vivo em algum lugar", disse Daniel Wilkinson, diretor administrativo da ONG de direitos humanos Human Rights Watch.

Vicky Delgadillo e Carlos Saldaña, que começaram a namorar depois de se conhecerem em um coletivo de famílias que perderam parentes no cartel de drogas, em Xalapa, no México - DANIEL BEREHULAK/NYT - DANIEL BEREHULAK/NYT
Vicky Delgadillo e Carlos Saldaña, que começaram a namorar depois de se conhecerem em um coletivo de famílias que perderam parentes no cartel de drogas, em Xalapa, no México
Imagem: DANIEL BEREHULAK/NYT


Karla desapareceu com um dos filhos distantes de Saldaña, Jesus. Eles foram juntos a uma festa naquela noite, 28 de novembro de 2011. Os dois foram vistos juntos pela última vez no carro dela. O veículo foi recuperado dois dias depois em posse de um policial de folga.

Saldaña começou a procurar por áreas onde criminosos podiam ter assassinado pessoas, organizando exames gratuitos de DNA e levantando dinheiro para pagar por tudo.

Ele e outros saíram à procura de terrenos suspeitos, em busca de sinais de terra ligeiramente remexida. Quando encontravam um, eles fincavam longas cruzes a dois metros de profundidade, depois as arrancavam para farejar o cheiro de decomposição. É assim que os pobres procuram por seus mortos.

Uma amiga de Karla contou para Saldaña sobre um rancho onde supostamente membros do cartel dissolviam suas vítimas em ácido. Ele sentia, de alguma forma, que era o local para onde seus filhos foram levados.

A guerra suja naquela época e agora

O México acumulou cerca de 1.200 desaparecimentos durante os anos 60 e 70 pelas mãos do Partido Revolucionário Institucional, que governou por quase 70 anos e hoje está de volta ao governo. Os historiadores chamam esse período de desaparecimentos de a guerra suja.

Mas diferente de outros países latino-americanos, o México nunca realmente investigou suas atrocidades. Enquanto comissões da verdade e exumações de valas comuns buscavam exorcizar os pecados de regimes anteriores por toda a região, a responsabilidade do governo no México permaneceu em grande parte enterrada. Tentativas no início dos anos 2000 fracassaram, levando a poucas prisões ou processos.

Mas os desaparecimentos continuaram sob uma nova forma. Os números eram pequenos, os casos eram isolados e o propósito era diferente de versões anteriores. Não era político, mas sim criminoso.

Dessa vez, os desaparecimentos eram de autoria do crime organizado, em sua disputa por territórios no lucrativo tráfico de drogas. Ao longo da fronteira com o Texas, os números lentamente começaram a crescer. O governo posteriormente deu início a uma guerra contra o crime organizado em 2006, mas à medida que a violência aumentava, também aumentavam os desaparecimentos.

Em 2012, documentos vazados mostravam que o governo acreditava haver um total de 25 mil pessoas desaparecidas por todo o país, talvez a primeira vez que ocorria um reconhecimento oficial do problema. Neste ano, o número saltou para quase 33 mil.

A batida no rancho

O rancho, que serpenteava por um vasto terreno, foi abandonado. Mas isso ocorreu recentemente. A equipe, composta por peritos, policiais e investigadores, encontrou animais bem cuidados e com saúde, cavalos, gado e ovelhas, quando chegaram.

O casal encontrou uma grande caixa de metal cheia de terra e pedaços de roupas, talvez pertences dos prisioneiros, ele pensou.

No dia seguinte, a busca prosseguiu, mas saiu com mais dúvidas do que respostas. Um cômodo de blocos de concreto continha um colchonete sujo e correntes, uma terrível câmara de tortura, pensou o casal. Perto dali, uma pilha de roupas íntimas femininas (calcinhas e sutiãs) amarradas juntas.

"Ninguém ouviria mesmo se alguém gritasse a plenos pulmões daqui", disse Saldaña.

Após uma hora de escavação, uma pilha com 500 itens estava diante deles: roupas de bebê, blusas de mulheres, jeans e calçados surrados.

As roupas apenas lembraram a Saldaña quão longe estava de encontrar Karla, Jesus e Yunery.

As autoridades deram às famílias mais um dia para procurar pela propriedade, uma área que seria preciso 10 vezes mais pessoas para cobrir em uma semana.

Elas não encontraram nada.

Uma nova lei

Em Veracruz, os desaparecidos também são registrados em pequenos livros pretos, onde seus nomes e detalhes ficam perdidos para a era moderna.

A chefe do laboratório de perícia forense estadual, Rita Adriana Licea Cadena, pegou um livro de registro. Nela, ela disse, estavam os nomes de milhares de indivíduos que forneceram DNA na esperança de que possa bater com algum dos restos mortais desenterrados das valas comuns por todo o Estado.

Mas ninguém foi capaz passar os dados, que se estendem de 2010 a 2013, para um computador. Nesta forma de dados manuscritos, eles são virtualmente inúteis.

A pressão pública após o desaparecimento de 43 universitários em 2014 ajudou na criação de uma nova lei, sancionada neste mês, para combate aos desaparecimentos.

Mas "o desafio será implantar a lei", disse Juan Pedro Schaerer, diretor do Comitê Internacional da Cruz Vermelha no México, que ajudou a elaborar a legislação.

No papel, a Lei Contra Desaparecimentos Forçados cria um registro nacional de desaparecidos. Ela também deveria atrair mais recursos, para as investigações, análises periciais e gestão da preciosa informação de DNA.

Maiores esperanças e outras frustradas

Em abril, o casal percorreu o Estado, como de costume, pedindo para analisar documentos de casos, se debruçando nas descrições e fotos de pessoas desaparecidas. De repente, conseguiram algo.

A garota era de baixa estatura, com a mesma cor de cabelo e aparência de Yunery. Delgadillo implorou às autoridades para que exumassem o corpo para um exame de DNA.

"Não era minha filha", ela disse, chorando levemente. "Mas ainda assim senti alguma paz, pois outra família teve sua filha de volta, pôde parar de procurar."

Como um casal, Saldaña e Delgadillo decidiram adotar uma nova abordagem para seu pesar. Em vez de aprenderem a viver sem seus filhos, estavam aprendendo a viver com eles. Celebrá-los todo dia.

Em um sonho recente, Saldaña confrontava os homens responsáveis pela abdução de Karla. Com um arsenal de armas automáticas, ele os enfrentava como um herói de filmes de ação, não deixando nenhum sobrevivente.

No sonho, ele disse, só dependia dele e de mais ninguém. Nenhum sistema fracassado, insensível a seus apelos. Nenhum policial corrupto ou tribunal que com frequência não leva a condenações no México. Apenas justiça.

"Se forem mortos", ele disse, "ao menos acaba".

Tradutor: George El Khouri Andolfato