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Indicação para que Trump ganhe o Nobel da Paz começa a ganhar força

AFP
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Un Imagem: AFP
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Emily Cochrane

Em Washington (EUA)

11/05/2018 00h01

Quando o presidente Donald Trump pensou em negociar a paz entre as Coreias do Norte e do Sul, durante um comício de campanha, o coro de seus apoiadores ecoou pelo complexo esportivo de Michigan: "Nobel! Nobel!"

Para Trump, que oscilou com perturbadora facilidade entre ameaças voláteis de "fogo e fúria" e apaixonados pedidos de paz, a possibilidade de receber um Prêmio Nobel da Paz parecia remota. (O comitê que concede o prêmio disse neste ano que uma indicação para Trump foi forjada duas vezes por um desconhecido, cujos motivos continuam sendo um mistério.)

Mas a ideia de sua nomeação para 2019, formalmente apresentada por um grupo de 18 deputados federais republicanos e calorosamente endossada pelo presidente Moon Jae-in, da Coreia do Sul, começou a ganhar força entre seus apoiadores nas últimas semanas, com a aproximação da cúpula potencialmente histórica que fará com o presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-un.

"Todo mundo pensa isso, mas eu nunca o diria", disse Trump com uma risada na quarta-feira (9), quando perguntado se ele merece o prêmio. "O prêmio que eu quero é a vitória para o mundo."

Os críticos do presidente e de sua retórica muitas vezes inflamatória rejeitam a ideia de Trump receber um dos prêmios diplomáticos mais prestigiosos do mundo. Mas alguns premiados e historiadores dessa honraria admitem que em alguns casos ela foi concedida a políticos polêmicos, para reconhecer e incentivar as iniciativas de paz.

"Parte da força do Prêmio Nobel da Paz é que ele é polêmico", disse Berit Reiss-Andersen, a presidente do Comitê do Nobel, que concede o prêmio norueguês depois de aproximadamente oito meses de deliberação sobre centenas de indicações. "Se fosse um prêmio de consenso global, não teria a relevância e a autoridade que de fato tem hoje."

Depois do encontro entre os líderes coreanos do Norte e do Sul na Zona Desmilitarizada que divide seus países, apoiadores estão pressionando para que o prêmio controverso seja dado a Trump, ele mesmo um líder notadamente polarizador, pelo papel que desempenhou nas negociações. Vários deles citam o Nobel dado ao antecessor de Trump, o presidente Barack Obama, com menos de um ano no cargo, como precedente de um presidente americano que recebeu a honraria no início do mandato.

Em uma entrevista por telefone de Oslo, Reiss-Andersen não quis comentar sobre a nomeação de Trump, citando o intenso protocolo de sigilo que proíbe os cinco membros do comitê de falar sobre indicações ou seu processo até 50 anos depois da concessão do prêmio. Sem destacar um recebedor específico, ela admitiu que vários premiados do passado têm um legado misto de conflito e armistício ou falharam em cumprir as expectativas de promover a paz da forma que o comitê pretendia.

"Você não negocia um processo de paz com seus amigos. Você os inicia com seus inimigos", disse Reiss-Andersen, destacando o prêmio dado a Nelson Mandela e F.W. de Klerk por seu trabalho em acabar com o regime do apartheid [segregação racial] na África do Sul. "Mudar de posição e se dispor a adotar uma posição diferente com as consequências que aconteceram. Isso é uma contribuição para a paz."

Saul Loeb/AFP Photo
Donald Trump aperta a mão de Kim Dong-chul que esteve preso na Coreia do Norte Imagem: Saul Loeb/AFP Photo

O comitê sofreu acusações de favoritismo político, hipocrisia e erro egrégio sobre vários dos 98 prêmios que conferiu a 131 premiados desde 1901. Dois membros do comitê renunciaram em protesto depois que Henry Kissinger foi premiado em 1973, decisão que provocou indignação global por causa das campanhas de bombardeios do governo Nixon no Vietnã, Laos e Camboja. Seu companheiro de premiação foi o ministro vietnamita das Relações Exteriores, Le Duc Tho, que recusou o prêmio, a única pessoa que o fez na história do Nobel.

Mais de 20 anos depois, outro membro do comitê renunciou quando Yasser Arafat, o líder palestino, foi incluído entre os recebedores pelo trabalho nos acordos de Oslo.

O prêmio evoluiu em alguns casos como um reconhecimento pela perseverança no campo de batalha diplomático, mas restaram críticas sobre o que é considerado em alguns casos uma premiação prematura e até inspiradora, a decisão de indicar Obama como laureado com o Nobel por seus "extraordinários esforços para solidificar a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos" menos de nove meses após sua posse. (Apesar de Obama ter dito na época que não tinha certeza se merecia o prêmio, o presidente do comitê, Thorbjorn Jagland, insistiu mais tarde que tinha sido uma das "decisões de maior orgulho" que o comitê já tomou.)

Alguns laureados afirmam que a atenção internacional que se seguiu à premiação deu um apoio valioso a suas iniciativas pela paz em seus países.

"No meu caso, o Prêmio Nobel da Paz veio como um presente de Deus", disse o presidente Juan Manuel Santos, da Colômbia, em uma entrevista. Os colombianos tinham rejeitado seu acordo de paz com um grupo de rebeldes de esquerda em 2016, apenas cinco dias antes que ele fosse anunciado o vencedor por seus esforços.

"Quando o Nobel foi concedido", disse ele, "todo mundo ficou muito entusiasmado e apoiou o que eu estava fazendo para renegociar o acordo de paz", que acabou sendo aprovado pelo Congresso nacional. "Foi um momento muito oportuno." (Santos não quis fazer comentários sobre a nomeação de Trump, citando as relações diplomáticas em andamento com um colega presidente e o respeito pelas deliberações do comitê.)

Para José Ramos-Horta, o ex-presidente de Timor Leste, que foi premiado em 1996, uma indicação pelas negociações de paz com a península da Coreia exporia o julgamento precário de potencialmente reconhecer todas as partes envolvidas na diplomacia. Ainda mais polêmico que Trump e Moon seria o norte-coreano Kim: um ditador recluso, que teria ordenado a execução de autoridades desleais, incluindo seu próprio tio, mas um fator inegável em qualquer iniciativa de paz entre os países.

Um dos antecessores de Moon, Kim Dae-jung, ganhou o prêmio em 2000 em parte por seu trabalho "pela paz e a reconciliação com a Coreia do Norte em particular", mas seu homólogo, o pai de Kim Jong-un, não teve um reconhecimento semelhante.

"Seria um escândalo absoluto se o presidente Kim Jong-un recebesse o prêmio da paz", disse Ramos-Horta, que disse ter indicado o sul-coreano Kim para o prêmio há quase duas décadas. "E poderia ser extremamente controverso se o presidente Trump ganhasse o Prêmio Nobel por causa de outras políticas, outros atos, outras declarações."

"Mas o presidente Moon da Coreia do Sul, por si só, também não teria sucesso a menos que consiga que o norte-coreano Kim Jong-un participe do processo de paz", acrescentou ele. "Em qualquer processo de paz há necessidade de duas partes, às vezes mais."

Mesmo nos casos em que o prêmio foi considerado prematuro ou o recebedor não se equiparou aos padrões da paz internacional, ele não pode ser revogado.

Outra premiada com o Nobel, Aung San Suu Kyi, uma das três pessoas laureadas enquanto estavam presas, teve outros prêmios revogados por seu fracasso em admitir a limpeza étnica contra a minoria muçulmana rohingya em Mianmar. A União Europeia sempre deterá o prêmio por criar uma "fraternidade entre nações", mesmo depois da votação no Reino Unido pela saída do bloco e das crescentes divisões sobre como lidar com os refugiados.

"Seria impossível nós assumirmos a responsabilidade sobre como as pessoas agem ou se comportam anos após receberem o prêmio", disse Reiss-Andersen. "Acredito que a autoridade do prêmio da paz é tão forte que exatamente porque você o recebeu sempre estará sob o escrutínio público e terá de responder ao público por seus atos."

No caso de Obama, o acordo nuclear com o Irã, uma iniciativa diplomática pessoal que muitas vezes é citada como a realização das expectativas levantadas por seu Nobel da Paz em 2009, hoje está ameaçado pela decisão de Trump nesta semana. É possível, segundo alguns, que a ordem de Trump de retirar os EUA do acordo anule a consideração de seu trabalho diplomático na península da Coreia.

"Esperamos que o prêmio incentive o desenvolvimento pacífico", disse Reiss-Andersen. "O prêmio em si não pode garantir um desenvolvimento pacífico. Isso cabe de fato às pessoas envolvidas."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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