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Com barulho constante, parques eólicos chegam ao litoral do Brasil

Fazenda de produção de energia eólica, em Galinhos - Dado Galdieri/The New York Times
Fazenda de produção de energia eólica, em Galinhos Imagem: Dado Galdieri/The New York Times

Dado Galdieri

Em Galinhos (RN)

26/05/2018 00h01

Pontinhos vermelhos piscam no céu à noite, e o som de hélices girando se ouve por toda parte, como lembretes constantes da abundante presença do vento aqui na costa atlântica do Brasil e de sua colheita como um recurso natural.

Ao raiar do sol, torres de quase 120 metros despontam bem acima da cobertura formada por palmeiras, como dentes-de-leão gigantes.

Nessa parte do litoral atlântico, o vento sopra constantemente e em uma única direção de forma consistente, dando ao Brasil um fluxo estável para a produção de energia. O país hoje é o oitavo maior produtor de energia eólica do mundo, de acordo com a Global Wind Energy Council, uma associação comercial, com parques eólicos sendo operados pela Weg, Siemens Gamesa, Wobben Windpower, entre outras empresas.

Ainda assim os investidores são cautelosos, uma vez que a construção de linhas de transmissão é vagarosa, e a má infraestrutura eleva o preço de peças importadas. Agora os parlamentares estão propondo um imposto sobre a energia eólica e solar, na esperança de que o governo consiga lucrar com seu potencial monetário.

A cerca de 2 km da praia, a imagem das turbinas lembra os moradores da área rural tanto das possibilidades quanto do impacto da indústria.

Na praia de Morro dos Martins, a cerca de 128 km a noroeste de Natal, Damião Henrique, 70,  conectou cabos elétricos a uma bomba para conseguir regar seus pés de feijão. O pescador e agricultor foi removido de seu antigo terreno e enviado a alguns metros mais próximo da orla, para abrir espaço para um parque eólico.

Turistas observam pôr-do-sol na praia de Tourinhos, no Rio Grande do Norte - Dado Galdieri/The New York Times - Dado Galdieri/The New York Times
Turistas observam pôr-do-sol na praia de Tourinhos, no Rio Grande do Norte
Imagem: Dado Galdieri/The New York Times

“Mas estou bem”, ele disse. “Como compensação, recebi energia da empresa, e agora posso regar meus feijões com mais facilidade”.

Outros moradores da região disseram que os benefícios prometidos não apareceram.

“O prefeito disse que haveria escolas”, disse Maria Vênus, 47, que tem uma mercearia em Morro dos Martins. “Eles abriram uma escola de música para a comunidade, deram alguns violões e um ano depois suspenderam tudo”.

E tem a questão do barulho.

“Ah, sim”, ela acrescentou, “eles também deixaram esse barulho que não para nunca”.

A nordeste de Galinhos, entre São Bento do Norte e Pedra Grande, empresas terceirizadas pela Copel, a estatal de energia do Paraná, estão construindo o enorme parque eólico de Cutia. Quando concluído, suas 149 torres eólicas serão o projeto mais importante da empresa no Estado do Rio Grande do Norte.

Em uma visita feita recentemente a Galinhos, vimos jovens anunciando o baile de aniversário da cidade, circulando pelas ruas em buggies de praia adaptados, com alto-falantes na parte de trás chamando os moradores para as comemorações.

Fazenda de produção de energia eólica, em Galos - Dado Galdieri/The New York Times - Dado Galdieri/The New York Times
Fazenda de produção de energia eólica, em Galos
Imagem: Dado Galdieri/The New York Times

Na porta de uma antiga escola em ruínas que ele chegou a ocupar, José Neto, 70, um pescador, acendeu um cigarro enrolado a mão enquanto assistia as comemorações.

“Sei pouco sobre impostos, mas se for usado para nossa cidade, então é algo bom”, ele disse sobre a proposta do imposto. “Sabe, somos tão humildes que qualquer pouco que conseguimos ajuda muito”.

Nas próprias festas de comemoração, os políticos locais socializam com os moradores de vilarejos vizinhos. Caixas de som gigantes pulsam com música para dançarinos sobre um palco armado. Garçons carregam mesas de plástico, oferecendo-as a qualquer um que compre 12 garrafas de cerveja. As famílias compram espetinhos de churrasco de carrinhos de rua.

Edton Barbosa, 56, um técnico aposentado da Petrobras do Estado de Minas Gerais, observava. Ele disse que era bom os políticos estarem pensando em cobrar pelo vento. “Isso vai ajudar a desenvolver este lugar”, ele disse, “assim como os royalties do petróleo fizeram por outras regiões nos últimos tempos”.

Mas o Estado precisa “criar valor em torno desse commodity estratégico”, acrescentou, “do contrário estaremos fadados a ser exportadores de energia e ter toda essa pobreza em torno da riqueza”.

Tradutor: UOL