Em quase dois meses, dois terremotos expõem diversas formas de pobreza

Marcela Sanchez

  • Tomas Munita/The New York Times

    Dennise Pincochet, 24, chora diante da sua casa, que foi destruída após o tremor no Chile

    Dennise Pincochet, 24, chora diante da sua casa, que foi destruída após o tremor no Chile

A nação mais rica e a mais pobre da América Latina e do Caribe foram devastadas por desastres naturais que deixaram em seu rastro perdas humanas muito diferentes. Cinco dias depois do terremoto de 27 de fevereiro no Chile, com uma magnitude de 8.8 graus na escala Richter, o total de mortos era de 802 pessoas. No Haiti, o abalo de 12 de janeiro, com uma magnitude de 7.0 graus, matou cerca de 220 mil pessoas.

A disparidade impressionante pode ser atribuída a alguns fatores alheios ao controle humano. No Haiti, o epicentro foi muito mais próximo de um denso centro urbano do que no Chile. O Haiti também não tinha visto um fenômeno semelhante em 150 anos, enquanto no Chile a atividade sísmica é frequente.

Mas o fator humano - em particular a qualidade da construção - demonstrou ser a causa mais decisiva do número de mortes. Tristemente, uma maior quantidade de edifícios desabou no Haiti, à diferença do que aconteceu no Chile.

Não basta culpar a pobreza díspar - essa abstração tende a passar por alto detalhes importantes. De maneira mais específica, as mortes podem ser ligadas às carências em capacidade humana e institucional.

O Chile tem a renda per capita mais alta da América Latina, aproximadamente US$ 14 mil, e seus cidadãos figuram entre os mais educados das Américas. Em troca, o Haiti tem a renda mais baixa, US$ 1.300 por pessoa, e quase a metade da população maior de 15 anos não sabe ler.

Da mesma maneira, a falta de capacidade institucional agrava o impacto dessa capacidade humana deficiente. Para muitos especialistas que inspecionaram os danos no Haiti, está claro que não havia um código nacional de construção que fosse cumprido na prática. Segundo Sylvana Ricciarini, diretora de Serviços Globais do Código Internacional da Construção (ICC na sigla em inglês), "se havia, era um código muito simples. As pessoas não estavam cumprindo e provavelmente não era suficiente para responder aos riscos do país".

Recentemente, fizeram-se esforços no Caribe para adotar uma norma de construção regional, baseada nos códigos internacionais do ICC. Essas normas são utilizadas pela maioria dos estados e cidades dos EUA. Líderes regionais esperam que esse esforço derive na construção de edifícios mais seguros no Haiti e, mais importante ainda em longo prazo, que se desenvolva a capacidade local de construtores certificados, fiscais de obras e funcionários encarregados de fazer cumprir o código.

A adoção de uma norma de construção na região é complexa. Neste momento, a maioria dos 15 países membros da Comunidade do Caribe não tem padrões que sejam cumpridos estritamente.

Além disso, pressões e sensibilidades políticas com frequência entorpecem o processo. Em um esforço maciço de reconstrução como o que está agora em curso no Haiti, os países doadores impõem seus próprios códigos aos projetos que financiam, o que complica o estabelecimento de padrões e solapa esforços para criar uma capacidade local confiável.

As normas também podem ser vítimas de pressões alheias ao país onde se espera que sejam aplicadas. Em 2001, o Congresso americano tentou financiar a tradução para o espanhol dos códigos de construção do ICC para ajudar os latino-americanos a adaptar-se ao seu uso. Outras organizações americanas dedicadas a escrever esse tipo de padrões acusaram o Congresso de favoritismo e, como resultado, a lei foi aprovada, mas não a dotação de verbas para sua aplicação.

Sem um código padrão, os fundos de reconstrução poderão acabar desperdiçados. Há cinco anos Stephen Forneris, ex-supervisor de códigos do estado de Nova York e arquiteto em exercício, viajou com um grupo de especialistas em construção americanos para avaliar áreas de El Salvador que foram destruídas por dois terremotos no início de 2001. Essas zonas foram recuperadas com milhões de dólares de ajuda externa dos EUA.

Sua avaliação foi desanimadora. Muitas edificações novas não se adaptavam às normas americanas, segundo concluíram os especialistas. "Tenho certeza de que veremos a mesma destruição" se outro terremoto ocorrer nessa área, disse Forneris em uma entrevista.

Essa realidade frustra os especialistas como ele, dedicados a melhorar as práticas de construção na América Latina. Os cálculos de engenharia são técnicos e objetivos, e por isso não deveriam estar sujeitos a caprichos políticos ou sensibilidades absurdas sobre intromissões externas. Sua difusão deveria ser mais simples e recebida com a mesma antecipação com que se acolhe uma descoberta médica. "Compartilhar informação de códigos de edificação deveria ser como compartilhar penicilina para curar doenças", enfatiza o arquiteto.

Mas isso não ocorreu, o que poderá custar caro no caso de um próximo abalo.

A América Latina tem muitas áreas de elevada atividade sísmica. Onde será o próximo terremoto ninguém sabe. No entanto, que ocorrerá é bem sabido. Adotar, implementar e fazer cumprir códigos de construção consistentes e atualizados não deveria exigir um incentivo maior.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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