A opção pública na reforma saúde não era de fato uma opção

Mike Littwin

  • Alex Wong/Getty Images/AFP

    A presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, é aplaudida por congressistas após a assinatura da reforma da Saúde

    A presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, é aplaudida por congressistas após a assinatura da reforma da Saúde

Finalmente acabou. O projeto de lei de reforma na saúde, com as emendas de último minuto, passou em ambas as casas no Congresso. E todo mundo está feliz e contente.

Bem, quase todo mundo.

Os republicanos não estão contentes. E os críticos que jogaram tijolos não estão contentes. E o senador Ben Nelson não está contente. E o líder da minoria na Câmara Eric Cantor –que diz que os democratas são culpados por atiçar as chamas dos críticos– não está contente. E aqueles advogados com nada melhor para fazer do que tentativas fúteis de anulação não estão contentes.

Ah, e quase esqueci do pobre Andrew Romanoff. Ele tampouco está contente. Ele realmente não está nada contente.

E é culpa de Michael Bennet.

Romanoff e Bennet estão lutando pela vaga de candidato democrático na disputa ao Senado pelo Colorado. Bennet, que é o atual senador do Estado, acaba de votar a favor da reforma na saúde divisora de águas, que foi causa para tanta celebração, ou não (veja acima).

Mas por que isso deixaria Romanoff chateado –que nem é um crítico que atirou tijolos, nem é republicano?

Romanoff diz que é porque ele queria uma opção pública na lei –e, na opinião de Romanoff, se apenas Bennet tivesse cumprido sua palavra e assumido seu papel como senador do Colorado, com todo o poder que isso envolve, então o presidente Barack Obama e a presidente da Câmara Nancy Pelosi e o líder da maioria Harry Reid teriam concordado.

Está certo, é um exagero, mas é a política. E é a política das primárias –o tipo mais estranho, de irmão contra irmão (ou, neste caso, de direito em Yale contra a graduação em Yale).

Nas primárias, o oponente tem que se mover para a esquerda ou para a direita. E Romanoff –famoso por ser o presidente cauteloso, que busca o consenso na Câmara do Colorado– respondeu assumindo seu lugar defendendo a esquerda.

Adoro as primárias. Romanoff fez da opção pública uma questão. Bennet viu uma chance e escreveu uma carta para Reid exigindo uma votação sobre a opção pública por reconciliação. Todo mundo sabe que não haverá uma votação, então parece seguro, e Bennet brevemente torna-se o herói da esquerda. Mas então os senadores de fato começam a assinar a carta, e a pressão sobe.

E quando chega a hora da reconciliação, todo mundo –e eu quero dizer a moveon.org, a Service Employees International Union e Bernie Sanders –compreende que não haverá uma votação pela opção pública e defende o tema da ausência de emendas.

Mas é aí que fica bom. Romanoff deixou Bennet em uma situação difícil. Bennet teve que entrar no mundo real. Os líderes tinham concluído que não tinham os votos necessários e que os riscos eram altos demais. Bennet então podia jogar da forma que Romanoff fez em toda sua vida política –trabalhando pacientemente- ou poderia revoltar-se.

Mas esses são dois sujeitos que não se revoltam. Os dois podem estar correndo por fora, mas os dois são de dentro, do começo ao fim. Romanoff trabalhou quase toda sua vida adulta na política. O único trabalho de verdade de Bennet fora do mundo político foi fechar contratos para o bilionário de Denver Phil Anschutz.

Mas, como são políticos, este é o mundo que Romanoff pretendia ver: sob pressão de um movimento liderado por Bennet, Obama teria pouca escolha senão devolver ao projeto de lei a opção pública, mesmo que fosse durante a reconciliação, independentemente do risco para todo o projeto de lei ou ao futuro de Obama ou aos 32 milhões que em breve serão assegurados.

Perguntei a Romanoff como ele via a questão.

“Eu liderei os congressistas”, disse ele. “Sei que podem mudar de voto. Sei que há um risco. Mas é nossa melhor chance de aprová-la.”

O projeto virou lei, afinal, após a votação de reconciliação de quinta-feira, disse ele. O projeto não estava em risco, apenas as emendas. É claro que havia outros fatores e riscos.

Os líderes do Senado tinham prometido aos da Câmara que votariam apenas as emendas que esta acrescentasse. Os republicanos, enquanto isso, lançaram todo tipo de emenda possível, inclusive a infame emenda do Viagra, estendendo o processo sem propósito algum -senão o de estender o processo e testar a solidariedade do partido.

Romanoff está certo que a lei precisava de uma opção pública –que, sem ela, as empresas de seguro receberam um presente. Romanoff está certo também que Obama foi maleável demais na opção pública. Se você não consegue aprová-la quando você controla o Senado, a Câmara e a Casa Branca, então quando isso acontecerá?

Romanoff diz: “Me faz lembrar daquela cena de ‘Banzé no Oeste’, quando o xerife coloca a arma em sua própria cabeça e grita para a multidão: ‘Ele vai atirar. Ele é maluco o suficiente para isso’.”

Mas quando perguntei a Romanoff se ele teria votado em favor da lei sem a opção pública –se essa foi a única escolha do mundo real que ele tivesse- ele não colocou a arma na cabeça. Ele disse: “Sim”.

No final, essa era a única escolha.

Tradutor: Deborah Weinberg

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