Um vazamento que deveria afogar as promessas vazias

Marcela Sanchez

  • Larry Downing/Reuters

    Presidente Barack Obama visita costa da Louisiana (EUA), afetada por vazamento de petróleo

    Presidente Barack Obama visita costa da Louisiana (EUA), afetada por vazamento de petróleo

O vazamento de petróleo nas profundezas do golfo do México, que agora é calculado entre 12 mil e 19 mil barris diários, entrou em sua sexta semana. Durante esse tempo, os líderes das Américas concentraram a atenção nas lições a aprender e nas medidas a adotar para evitar um desastre semelhante.

Especialistas do Brasil viajaram à região para tomar nota, funcionários dos EUA e de Cuba abriram novos canais de comunicação para discutir uma reação coordenada, ao mesmo tempo que o presidente Obama ordenou a suspensão da quase totalidade das explorações petrolíferas em alto-mar, até que se realize um estudo completo sobre a segurança desses projetos.

Embora tais respostas sejam bem-vindas, necessárias ou, pelo contrário, insuficientes ou excessivamente tardias, estas ações no mais alto nível governamental contrastam fortemente com os esforços dedicados a reduzir nossa sede insaciável de petróleo. Nas Américas, em particular, houve muitas discussões sobre o desenvolvimento de fontes alternativas de energia, mas muito pouca ação significativa para consegui-lo.

Isso é o que nos acostumamos a esperar dos líderes regionais. Cada vez que presidentes e chefes de Estado se reúnem, comprometem-se a fazer mais para reduzir a emissão de carbono e mitigar o impacto ambiental. A eficiência energética é hoje um ingrediente constante nas agendas de reuniões bilaterais e multilaterais. Muitas declarações eloquentes sobre energia renovável foram emitidas.

Mesmo assim, o continente americano está décadas atrás da Europa em padrões de emissão. O europeu médio já emite a metade do carbono que o americano médio, segundo Steven Hill, diretor de programas da New America Foundation. Políticas visionárias, como a lei alemã que obriga as empresas de energia a pagar três a quatro vezes mais por quilowatt produzido por meios não convencionais, levou a que hoje 8% da energia da Alemanha sejam eólicos, por exemplo. Moinhos de vento, turbinas e painéis solares hoje salpicam a paisagem do Velho Mundo.

Entretanto, a política de energia renovável das Américas continua salpicada fundamentalmente de boas intenções. Tal como colocou Annette Hester, economista e especialista em energia estabelecida no Canadá: "A burocracia está mais preocupada em ter algo a oferecer cada vez que houver uma cúpula ou uma reunião bilateral do que em conseguir um avanço substancial em algum tema específico".

Considerações ambientais por si sós deveriam ser razão suficiente para afastar nossos países do uso de combustíveis fósseis como fonte primária de energia. Talvez esse vazamento devastador - próximo de nossas costas - termine nos dando um impulso definitivo. No entanto, a energia renovável se justifica por muitas outras razões.

Duncan Wood, um cientista político do Instituto Tecnológico Autônomo do México e autor do novo relatório "Ambiente, desenvolvimento e crescimento: Cooperação entre EUA e México em energia renovável", tem razões para ser otimista. A cooperação bilateral nessa frente gerou empregos, novas fontes de energia alternativa e oportunidades econômicas para o México, ao mesmo tempo que satisfaz uma crescente demanda dessa energia por parte dos EUA.

A Califórnia, que até 2020 deverá consumir 33% de sua energia de fontes renováveis, representará boa parte dessa demanda. Agora, investidores privados estão reconhecendo a oportunidade de produzir energia no lado mexicano da fronteira para satisfazer o alto consumo californiano.

Oaxaca, por exemplo, possui uma das melhores fontes eólicas do mundo e recentemente viveu uma revolução em termos de produção energética pelo vento. Há oito anos a Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA financiou a elaboração de mapas do setor, o que proporcionou informação vital e confiável sem a qual o investimento teria parado.

A partir de então, Oaxaca levou o México à vanguarda na América Latina nessa matéria. Até 2012 a energia renovável no México crescerá até satisfazer 8% da demanda total. E a energia eólica representará quase 3% nesse mesmo ano, um crescimento vertiginoso se considerarmos que em 2008 era de apenas 0,09%.

"O México chegou longe de verdade em relativamente pouco tempo", afirmou Wood em uma entrevista. Mas apesar de as entidades públicas terem se beneficiado do progresso este não teria ocorrido sem a participação do setor privado.

Wood reconheceu que a energia renovável foi uma parte muito importante da agenda do presidente mexicano, Felipe Calderón. Mas talvez não tivesse sido assim se a indústria petroleira do país não estivesse decaindo. De fato, a companhia de petróleo Pemex viu suas exportações diminuir de 1,8 milhão de barris em 2006 para 1,3 milhão no ano passado, uma queda de quase 30% em apenas três anos.

A crise no golfo do México nos lembra a terrível devastação econômica e ambiental produzida por um vazamento de petróleo. No entanto, também deveria nos lembrar a falta de liderança dos governos do continente para gerar fontes alternativas de energia.

Só nos resta esperar que além dos danos à vida selvagem, espécies marinhas e o ecossistema, o pior derramamento de hidrocarbonetos na história americana ponha fim à predileção de nossos líderes tanto por enunciar promessas vazias como por motivar ações insuficientes.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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