Karzai teria dito que duvida que o Ocidente possa derrotar o Taleban

Dexter Filkins

Em Cabul, Afeganistão

Dois altos funcionários do governo afegão mostravam ao presidente Hamid Karzai a evidência de um ataque impressionante com foguete contra uma conferência nacional de paz, no início deste mês, quando Karzai lhes disse que acreditava que o Taleban não era o responsável. 

“O presidente não demonstrou nenhum interesse pela evidência – nenhum – ele a tratou como se fosse porcaria”, disse Amrullah Saleh, o então diretor do serviço de inteligência afegão. 

Saleh se recusou a discutir o argumento de Karzai mais detalhadamente. Mas um proeminente afegão com conhecimento da reunião, que falou sob a condição de anonimato, disse que o presidente sugeriu na reunião que poderiam ter sido os americanos os responsáveis. 

Minutos após a conversa, Saleh e o ministro do Interior, Hanif Atmar, renunciaram – a mais dramática deserção do governo de Karzai desde que ele chegou ao poder há nove anos. Saleh e Atmar disseram que renunciaram porque Karzai deixou claro que não mais os considerava leais. 

Mas por trás das tensões, segundo Saleh e autoridades afegãs e ocidentais, estava algo mais profundo: o fato do presidente ter perdido a fé de que os americanos e a Otan consigam prevalecer no Afeganistão. 

Dúvidas

  • S. Sabawoon/EFE

    Hamid Karzai, presidente do Afeganistão, fala durante coletiva de imprensa. Para o ex-diretor do serviço de inteligência do país, Amrullah Saleh, Karzai perdeu a confiança na capacidade tanto da coalizão quanto de seu próprio governo de proteger o país

Por esse motivo, Saleh e outras autoridades disseram, Karzai tem sido pressionado a fechar um acordo por conta própria com o Taleban e o arquirrival do país, o Paquistão, o antigo aliado do Taleban. Segundo um ex-alto funcionário afegão, as manobras de Karzai envolvem negociações secretas com o Taleban fora do alcance dos oficiais americanos e da Otan. 

“O presidente perdeu a confiança na capacidade tanto da coalizão quanto de seu próprio governo de proteger este país”, disse Saleh em uma entrevista em sua casa. “O presidente Karzai nunca anunciou que a Otan perderá, mas a forma como não se orgulha da campanha mostra que não confia que ela esteja funcionando”. 

Pessoas próximas do presidente dizem que ele começou a perder a confiança nos americanos em meados do ano passado, após as eleições nacionais, nas quais monitores independentes determinaram que quase um milhão de votos foram manipulados em prol de Karzai. O racha piorou em dezembro, quando o presidente Barack Obama anunciou que pretendia reduzir o número de soldados americanos até meados de 2011. 

“Karzai me disse que não confia que os americanos consertarão a situação aqui”, disse um diplomata ocidental em Cabul, que falou sob a condição de anonimato. “Ele acredita que eles roubaram sua legitimidade durante as eleições do ano passado. E então disseram publicamente que vão partir”. 

Karzai não pôde ser contatado para comentários na última sexta-feira (11). 

Combate ao Taleban

Se a determinação de Karzai de trabalhar estreitamente com os Estados Unidos e usar seu próprio exército para combater o Taleban está diminuindo, isso poderia representar um problema para Obama. A estratégia de guerra americana se apoia em grande parte em libertar a área dominada pelo Taleban para que o governo e exército de Karzai possam ocupá-la, permitindo aos americanos que reduzam seu envolvimento em uma guerra cada vez mais cara e impopular. 

As relações com Karzai são turbulentas há algum tempo e autoridades internacionais expressaram preocupação no passado de que a tomada de decisão dele pode ser errática. No ano passado, Karzai acusou em um discurso a Otan de transportar combatentes do Taleban de helicóptero no norte do Afeganistão. No início deste ano, após críticas do governo Obama, o presidente disse a um grupo de simpatizantes que poderia se juntar ao Taleban. 

As autoridades americanas tentaram consertar seu relacionamento com Karzai durante sua visita à Casa Branca no mês passado. Na verdade, em muitas questões, como o início de um contato com alguns líderes do Taleban para persuadir seus combatentes a mudarem de lado, o presidente afegão e os americanos estão de acordo. 

Mas suas motivações parecem divergir enormemente. Os americanos e seus parceiros da Otan estão enviando dezenas de milhares de soldados adicionais ao país para enfraquecer o núcleo do Taleban e forçar o grupo a sentar à mesa de negociação. Karzai parece acreditar que a ofensiva liderada pelos americanos não funcionará. 

Em uma coletiva de imprensa no Palácio Presidencial nesta semana, foi perguntado a Karzai sobre o papel do Taleban no ataque de 4 de junho contra a loya jirga e sobre sua fé na Otan. Ele se recusou a falar sobre ambos os assuntos. 

“Quem foi o responsável?” disse Karzai sobre o ataque. “É uma pergunta que nossa organização de segurança pode trazer e preparar a resposta”. 

Ao ser perguntado sobre se tinha confiança na Otan, Karzai disse que estava grato pela ajuda e disse que a parceria está “funcionando muito, muito bem”. Mas ele não respondeu a pergunta. 

“Nós continuamos trabalhando para melhorar as coisas”, disse Karzai, falando em inglês e aparecendo ao lado de David Cameron, o primeiro-ministro britânico. 

Um alto oficial da Otan disse que as renúncias de Atmar e Saleh, que contavam com forte apoio dos aliados da Otan, “atrapalharam demais”. 

O oficial disse a respeito de Karzai: “Minha preocupação é se ele é capaz de ser um líder em tempos de guerra”. 

O oficial da Otan disse que os comandantes americanos deram a Karzai um dossiê mostrando evidências convincentes de que o ataque contra a conferência de paz foi realizado por combatentes leais a Jalalhuddin Haqqani, um dos principais líderes que combatem em nome do Taleban.

 “Não há dúvida”, disse o oficial. 

As renúncias de Saleh e Atmar revelaram um racha profundo entre os líderes afegãos em torno de como melhor lidar com o Taleban e seus patrocinadores no Paquistão. 

Saleh é um ex-assessor do falecido Ahmed Shah Massoud, o lendário comandante que lutou contra a União Soviética e o Taleban. Muitos dos antigos tenentes de Massoud, a maioria da etnia tajik e agora líderes importantes no norte do Afeganistão, estavam presentes na conferência de paz. Como Saleh, eles preferem uma abordagem dura em vez de negociar com o Taleban e o Paquistão. 

Karzai, como a grande maioria do Taleban, é da etnia pashtun. Ele agora parece preferir uma abordagem mais conciliatória. 

Comissão formada

No final da loya jirga, Karzai anunciou a formação de uma comissão que analisaria o caso de cada combatente do Taleban mantido sob custódia e que soltaria aqueles que não fossem considerados extremamente perigosos. A comissão, que seria liderada por vários altos funcionários do governo Karzai, excluiu o Diretório Nacional de Segurança, a agência de inteligência dirigida por Saleh. 

Na entrevista, Saleh disse que se ofendeu com a exclusão. Sua tarefa principal é entender o Taleban, ele disse; deixar sua agência de fora da comissão o deixou preocupado de que Karzai poderia pretender soltar combatentes do Taleban mais calejados. 

“A conclusão dele é – muitos talebans foram detidos erroneamente, então devem ser soltos”, disse Saleh. “Passaram-se dez anos desde a queda do Taleban – isso significa que não sabemos quem é o inimigo. Nós detemos as pessoas erradas.” 

Saleh também criticou a loya jirga. “Este é o resultado da jirga”, disse Saleh. “Eu não quero lutar contra vocês. Eu estou abrindo a porta para vocês. Foi meu erro empurrar vocês para as montanhas. A jirga não foi uma vitória para o Estado afegão, foi uma vitória para o Taleban”. 

Karzai tem buscado estender a mão ao Taleban há meses. No início deste ano, o irmão do presidente, Ahmed Wali Karzai, participou de reuniões secretas com o mulá Abdul Ghani Baradar, o vice-comandante do Taleban, segundo um ex-alto funcionário afegão. 

Segundo o general Hilaluddin Hilal, o vice-ministro do interior do governo Karzai, Ahmed Wali Karzai e Baradar se encontraram duas vezes em janeiro perto de Spin Boldak, uma cidade na fronteira com o Paquistão. O encontro foi intermediado pelo mulá Essa Khakrezwal, o governador paralelo taleban da província de Kandahar, e Hafez Majid, um alto oficial de inteligência taleban, disse Hilal. 

Um analista ocidental em Cabul confirmou o relato de Hilal. O alto oficial da Otan disse desconhecer o encontro, assim como Saleh. Ahmed Wali Karzai não respondeu às perguntas por e-mail sobre o encontro. 

O resultado da reunião não ficou claro, disse Hilal. Baradar foi preso no final de janeiro em uma ação conjunta paquistanesa-americana em Karachi, Paquistão. Mas as tentativas de Karzai de negociar com o Taleban prosseguiram, ele disse. 

“Ele não acha que os americanos podem arcar em permanecer”, disse Hilal. 

Saleh disse que a estratégia de Karzai também envolve uma postura mais conciliatória em relação ao Paquistão. Se for verdade, isso representaria uma mudança enorme para Karzai, que passou seus nove anos no governo acusando regularmente os paquistaneses de apoiar a insurreição do Taleban. 

Saleh disse temer que o Afeganistão seja forçado a aceitar o que chamou de “acordo indigno” com o Paquistão, o que deixará seu país em um estado enfraquecido. 

Ele disse que considera Karzai um patriota. Mas ele disse que o presidente está cometendo um erro caso planeje contar com o apoio paquistanês. (Os líderes paquistaneses pressionaram Karzai por anos para remover Saleh, que consideravam um linha-dura.) 

“Eles o estão enfraquecendo sob o disfarce de o estarem respeitando. Eles vão aprovar um líder afegão fraco, mas nunca o respeitarão”, disse Saleh.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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