Como uma menina de 12 anos ficou no limbo em Djibuti por causa do decreto de Trump

Josh Levin

  • Jose Luis Magana/ AP

    Mulher carrega cartaz com imagem de Donald Trump e onde se lê "você está demitido", durante protesto em Washington

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Na quinta-feira (26), Ahmed Mohammad Ahmed Ali estava maravilhado: sua filha de 12 anos acabara de receber um visto de imigrante. Ali, que tem 38 anos e nasceu no Iêmen, tornou-se cidadão americano em 2010 e vive nos EUA desde 2004. Ele mora com sua mulher e duas outras filhas, todas cidadãs americanas, em Los Banos, na Califórnia. Ali e sua mulher vêm tentando conseguir o "green card" para a outra filha desde 2011. A menina, hoje com 12 anos e que nunca esteve nos EUA, morava no Iêmen com os avós paternos (ela não recebeu a cidadania americana automaticamente porque sua mãe não viveu nos EUA durante cinco anos antes do nascimento da filha).

O consulado americano no Iêmen fechou em fevereiro de 2015, depois que um grupo rebelde tomou o controle de Sanaa, a capital do país. Desde então, o país na extremidade sul da península Arábica caiu na guerra civil e por procuração, com os EUA tendo um papel de apoio em uma intervenção liderada por sauditas. Estima-se que 10.000 civis foram mortos no Iêmen em menos de dois anos, e o país hoje está à beira da penúria. Um comando americano do Time 6 da SEAL da Marinha americana foi morto durante o fim de semana em um ataque contraterrorista contra a Al Qaeda no Iêmen. Calcula-se que 14 combatentes da Al Qaeda tenham morrido nesse ataque.

Os imigrantes iemenitas são submetidos ao que se pode descrever como "vetos radicais". A garota teve de passar por uma entrevista pessoal com membros do Departamento de Estado para conseguir seu visto de imigrante. Devido ao fechamento da embaixada no Iêmen, a entrevista aconteceu em Djibuti. A menina e seu tio levaram 16 horas para ir de ônibus de Sanaa ao Aeroporto Internacional de Aden, no Iêmen. De lá, viajaram à Jordânia, depois a Djibuti, onde ela foi finalmente entrevistada por autoridades consulares. Seu visto foi emitido no início da semana passada em Djibuti, antes que Donald Trump assinasse sua ordem executiva que proíbe temporariamente a entrada nos EUA de iemenitas e pessoas de outros seis países de maioria muçulmana.

A garota está hoje no pior limbo possível. O visto de imigrante lhe garante a situação de residente permanente no instante em que ela for admitida nos EUA pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA. E quando ela chegar aos EUA a Seção 320 da Lei de Imigração e Nacionalidade estipula que, como menor vivendo com seus pais cidadãos americanos, ela automaticamente se torna uma cidadã americana.

Mas no sábado, horas depois que Trump assinou o decreto, Ali e sua filha foram retirados da fila pelos funcionários da companhia aérea e impedidos de embarcar no voo da Ethiopian Airlines. Até que ela seja admitida nos EUA, não terá a situação de "green card". A garota e seu pai estão emperrados no leste da África, onde não têm amigos ou parentes, e esperam pela resolução de um problema que pensavam estar resolvido. "Todo mundo estava feliz", disse Ali ao telefone, em Djibuti. "Estava quase terminado, depois de seis anos." Então, um dia, "tudo desapareceu", disse ele.

Arte UOL

A advogada de imigração da família de Ali em San Francisco, Katy Lewis, disse que é "fundamentalmente injusto" que o decreto de Trump seja aplicado a uma menina de 12 anos. Lewis disse que ela viu rascunhos da ordem executiva antes que fosse emitida, mas nunca imaginou que a ordem final fosse usada para negar a entrada de alguém que já tinha passado pelo processo de anos para receber um visto de imigrante. A ordem, segundo Lewis, é "muito mais ampla e abrangente" do que pretende ser. Ela acredita que a ordem executiva é inconstitucional, porque discrimina com base na origem nacional e em questões religiosas.

Embora o decreto executivo ordene a proibição de viagens durante 90 dias, não está claro o que acontecerá depois disso --é possível que os iemenitas possam então vir para os EUA, ou que a proibição seja prorrogada. A suspensão de emergência que foi emitida no sábado só se aplica a imigrantes que já chegaram aos EUA. Lewis disse que está trabalhando para conseguir uma exceção à ordem executiva; a ordem diz que "secretários de Estado e de Segurança Doméstica podem, em uma base caso a caso, e quando do interesse nacional, emitir vistos ou outros benefícios de imigração a nacionais de países para os quais vistos e benefícios estão normalmente bloqueados". Ela pediu ajuda aos gabinetes da senadora democrata Dianne Feinstein e do deputado democrata Jim Costa, mas ainda não recebeu resposta de nenhum deles.

Ali, que trabalha como gerente em um shopping center da Califórnia desde 2004, perdeu semanas de trabalho. Sua família não pode se sustentar nos EUA sem ele, mas ele não pode deixar a filha de 12 anos para trás em Djibuti. Também não é seguro para ela voltar ao Iêmen. A viagem de 16 horas até o aeroporto, segundo o pai, passa por território extremamente perigoso, e ele não submeterá sua filha a isso novamente. A conselho de sua advogada, ele foi à embaixada americana em Djibuti no domingo, levando um pedido por escrito ao consulado para emitir à sua filha um documento de viagem que lhe permita embarcar em um voo para fora do país. Embora a embaixada estivesse aberta, "ninguém na embaixada quis falar com ele ou aceitar a carta", disse-me Lewis.

Sua filha está chorando muito, disse Ali, e não compreende por que não pode ir para os EUA ficar com sua mãe e seus irmãos. Quando eu lhe perguntei se havia mais alguma coisa que gostaria de mencionar na reportagem, ele disse: "Não é justo".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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