Pós-Verdade, Brexit, Notícias Falsas: por que há tantas palavras do ano?

Stefan Fatsis

  • Arte/UOL

É raro cunhar uma palavra ou frase que ganha uso amplo e imediato. Assim, independente do que você pense de sua promoção despudorada e óbvia ambiguidade, parabéns à conselheira de Trump, Kellyanne Conway. "Fatos alternativos" é uma forte candidata a Palavra do Ano de 2017.

Após Conway ter proferido o eufemismo orwelliano para mentiras no programa "Meet the Press", fatos alternativos subiu ao topo dos quadros de linguagem. Uma busca no banco de dados de notícias Nexis apontou 283 menções a fatos alternativos no dia do programa, domingo, 22 de janeiro, e mais de 5.000 de lá para cá. Os resultados no Google Notícias chegaram a 1,2 milhão. Isso significa que a expressão "fatos alternativos" ficará com a coroa de Palavra do Ano? Bem, 2017 está apenas começando e a linguagem se move rapidamente, de modo que ainda há muita fermentação política e cultural por vir; outra candidata inicial promissora, "kompromat" (palavra russa para materiais comprometedores), já pode ter atingido seu pico. Mas aposto que "fatos alternativos" vencerá a Palavra do Ano, já que atualmente há muitas Palavras do Ano.

Iniciada em 1990 por um pequeno grupo de linguistas, a Palavra do Ano se espalhou como um vídeo de um anarquista batendo em um nazista tendo música como fundo. A temporada de Palavra do Ano de 2016 teve início em 3 de novembro, quando a editora inglesa Collins escolheu "Brexit" (a saída do Reino Unido da União Europeia). E não terminou até a semana passada, quando a editora australiana Macquarie anunciou sua escolha, "fake news" (notícias falsas). Nesse ínterim, vieram "pós-verdade" (Oxford), "xenofobia" (Dictionary.com), "elite" (Macmillan), "surreal" (Merriam-Webster) e "paranoide" (Cambridge).

Na Slate, o etimologista John Kelly escolheu "2016". O jornal "The Guardian" escolheu o erro de Trump no Twitter, "unpresidented" (em vez de escrever "sem precedentes", ou erro parece algo como "sem presidente"). Membros da Sociedade Americana de Dialetos votaram por "dumpster fire" (fogo na lixeira, gíria para desastre completo). O Centro Nacional Australiano de Dicionário escolheu "linguiça democrática", que superou "fracasso de consenso" e outros termos australianos.

O blog "Strong Language" distribui prêmios para palavrões (são abundante os usos criativos de "fuck", "foda"). No "Hang Up and Listen" da "Slate", meus companheiros palestrantes e eu coroamos a Palavra do Ano nos Esportes (uma frase relacionada a concussão no protocolo, superando a desculpa "conversa de vestiário" de Trump).

Palavras estrangeiras também são escolhidas. A Sociedade para a Língua Alemã ficou com "Postfaktisch" (pós-real). A palavra norueguesa foi "hverdagsintegrering", "os esforços cotidianos de cidadãos comuns para integrar os refugiados e imigrantes na sociedade". A vencedora da Áustria com 52 letras, "Bundespraesidentenstichwahlwiederholungsverschiebung", parece uma "trolagem" na própria ideia de Palavra do Ano.

Há mais de uma dúzia de palavras do ano por aí. Para os editores de dicionários, não se trata de um assunto puramente acadêmico. Apesar de pequenas equipes realizarem um trabalho árduo de definição de novas palavras e atualização dos verbetes existentes, nos bastidores, editoras como Merriam-Webster, Oxford e Dictionary.com estão escrevendo códigos de computador e criando conteúdo editorial para promover seus produtos ao topo das páginas de busca do Google e atrair mais cliques para anunciantes. Na batalha pelos usuários online, a Palavra do Ano é uma importante frente nacional.

A primeira Palavra do Ano (em inglês, já que os alemães fazem isso desde 1971) foi escolhida pela Sociedade Americana de Dialetos em 1990. Fundada um século antes, o grupo de acadêmicos e leigos rastreia palavras novas em sua revista, "American Speech". Mas esses esforços não chamavam muita atenção. Em seu encontro anual em Chicago, a sociedade decidiu selecionar uma Palavra do Ano e enviar os resultados para a mídia. "Foi pensando, como a revista 'Time' tem sua Pessoa do Ano, por que não podemos fazer pelas palavras o que a 'Time' faz pelas pessoas?" diz Allan Metcalf, um professor de inglês da Faculdade MacMurray, em Jacksonville, Illinois, e secretário-executivo da sociedade. Os cerca de 30 participantes escolheram "bushlips", um vocábulo formado pela fusão de dois e que significa "retórica política hipócrita", referindo-se a uma promessa de campanha não cumprida do presidente George H.W. Bush, "Leia meus lábios: não haverá novos impostos". Entre as perdedoras estavam "politicamente correto" e "bungee jumping". Os linguistas não são necessariamente bons em prognósticos.

Os tempos mudaram desde aquela primeira reunião. No mês passado, mais de 300 pessoas lotaram o salão de baile de um hotel em Austin, Texas, para escolher a vencedora da Sociedade Americana de Dialetos de 2016. Ocorreram discursos passionais a favor e contra as candidatas ("Eu odeio promover essas metáforas que usam violência", disse alguém sobre "slay", ou "matar". "Muitas pessoas foram mortas recentemente.") Há linguagem de linguistas ("disfemismos", "combinação de morfemas", "definições"). Havia piadas com Trump ("Sou a favor de 'mãos minúsculas', porque adoraria ver Donald Trump tuitando para nós"). Dedos foram estalados em aprovação. Os votos foram dados por mãos erguidas. "Dumpster fire", em forma léxica ou emoji, derrotou "woke" (acordou) em uma segunda votação. (Revelação: sou membro pagante da Sociedade Americana de Dialetos. Eu indiquei "tweetstorm" para Palavra Digital do Ano. Ela perdeu para o uso como verbo do símbolo @ do Twitter, como em "Não me @".)

A vitória de "Dumpster fire" gerou uma enxurrada de conversas pelo Twitter e um punhado de artigos baseados no comunicado de imprensa redigido pelo presidente do Comitê de Novas Palavras da sociedade, Ben Zimmer, colunista de linguagem do "Wall Street Journal". Zimmer e alguns poucos outros linguistas escreveram seus próprios artigos ou falaram em programas de rádio e podcasts. Zimmer disse que o tamanho da cobertura foi mediano, mas em anos anteriores, o "New York Times", a "Time" e o "Washington Post" enviaram repórteres. "Com certeza é uma paisagem diferente de quando a Sociedade Americana de Dialetos era a única a fazê-lo", diz Zimmer. "Agora chama menos atenção."

Diferente das alegres reuniões vale-tudo da sociedade de dialetos, as principais editoras de dicionários adotam uma abordagem empírica para a Palavra do Ano. Isso se deve em parte para diferenciá-las, em parte pelas ferramentas digitais usadas pelos lexicógrafos modernos facilitarem a escolha da Palavra do Ano. O Merriam-Webster, por exemplo, baseia sua escolha nas consultas online por palavras e por sua presença no noticiário. "Surreal" venceu no ano passado, disse o Merriam, porque "foi pesquisado de forma significativamente mais frequente pelos usuários em 2016 do que em anos anteriores, e por em múltiplas ocasiões ter sido a palavra que levou as pessoas a olharem em seu dicionário".

O editor-geral do Merriam, Peter Sokolowski, diz que o total de consultas a "surreal" aumentou cerca de 80% no ano passado em comparação a 2015. Três grandes aumentos mensais provocados por notícias reforçaram sua candidatura: em março, após os ataques terroristas em Bruxelas; em julho, após a tentativa de golpe na Turquia e um ataque terrorista na França, assim como durante a Convenção Nacional Republicana; e em novembro, após você sabe o quê. Outros eventos provocaram aumentos menores: a morte do ator Garry Shandling; o anúncio por Donald Trump de seu vice-presidente; a vitória do golfista Danny Willett no Masters; as notícias sobre os bilhetes manuscritos do presidente George W. Bush a respeito no 11 de Setembro; a descrição pelo apresentador Chuck Todd, do "Meet the Press", de um debate presidencial; a morte de policiais por um atirador em Dallas; e um comentário feito pelo jogador da NBA, Dwyane Wade, após ter trocado o Miami Heat pelo Chicago Bulls. "Também foi usada em seu sentido original nas críticas ao filme 'O Lagosta'", disse Sokolowski.

O Merriam disponibilizou seu dicionário online em 1996 de graça. "Assim que começamos a ver os acessos ao site, ficou muito claro", diz John Morse, que recentemente se aposentou como presidente e publisher do Merriam. As pessoas procuravam por palavras próximas como "affect" (emoção) e "effect" (efeito). Mas também havia saltos de consulta após grandes eventos: por "paparazzi" e "cortejo" após a morte da princesa Diana, em 1997; "impeachment", durante o escândalo de Monica Lewinsky em 1998; "escombros", "triagem", "terrorismo" e, sim, "surreal", após o 11 de Setembro. O Merriam elegeu sua primeira Palavra do Ano em 2003, "democracia", cuja consulta aumentou após a invasão das forças americanas no Iraque. A conclusão: as pessoas estavam menos interessadas em procurar por novas gírias ou termos tecnológicos, mas sim por palavras que brotavam no noticiário.

Diante da concorrência, por duas vezes o Merriam deixou os usuários escolherem a vencedora ("truthiness", ou "veracidade", em 2006; "w00t", usada por jogadores como expressão de felicidade, em 2007). Mas isso não moveu o ponteiro do marketing, diz Morse, então a empresa retornou à sua abordagem empírica, que agora é central para sua estratégia comercial. A irreverente conta do Merriam no Twitter e suas postagens no site oferecem palavras cujos números de consulta online estão em alta. A estratégia, nota Morse, é voltada ao consumidor. As palavras que entram em um dicionário refletem o que os dicionaristas profissionais decidem ser linguisticamente importante; a Palavra do Ano do Merriam reflete o que os leitores decidem ser linguisticamente importante. "A palavra mais pesquisada (pelos usuários) no ano passado  é mais interessante do que um punhado de dicionaristas olhando para seus umbigos e dizendo 'alt-right' (direita alternativa)", diz Morse.

O Merriam não é o único promovendo uma Palavra do Ano baseada em dados. O Dictionary.com disse que as consultas por sua vitoriosa, "xenofobia", aumentaram 938% logo após o Reino Unido ter votado pela saída da União Europeia, com "centenas de usuários consultando o termo a cada hora". A postagem da Palavra do Ano do site foi complementada por gráficos e um discurso passional pelo ex-secretário do Trabalho, Robert B. Reich. A Oxford Dictionaries, por sua vez, disse que sua escolha de Palavra do Ano, "post-truth", ou "pós-verdade", se baseou em parte no aumento do "uso frequente da palavra" em textos.

Katherine Connor Martin, a diretora da Oxford para os dicionários americanos, diz que a Oxford emprega várias coleções de textos próprias para identificar palavras e analisar como e com que frequência são usados. Um deles, uma "coleção de monitoramento", reúne e separa por data o conteúdo da internet, que os editores podem examinar em busca de tendências mês a mês. Para escolher sua Palavra do Ano, os editores da Oxford formam uma lista de mais de 100 entradas e atribuem às finalistas uma "pontuação em 2016" com base nos dados e suas opiniões. "Pós-verdade" começou a crescer na coleção de monitoramento a partir de maio. E tinha o apelo de palavra nova que a tornava uma boa Palavra do Ano.

Mas há uma resistência à Palavra do Ano. Em vez de se juntar à festa de escolha de palavra, o American Heritage Dictionary compila um comunicado de imprensa de uma página com uma amostragem dos termos adicionados ao dicionário naquele ano. A lista de 2016, contendo palavras como "glamping" (camping glamouroso) e "microbead" (microconta), foi decidida de forma apolítica. Steve Kleinedler, o editor-executivo do dicionário, diz que se abster da Palavra do Ano separa o American Heritage dos demais e o torna alvo de poucas aparições na mídia, porém mais substanciais. "Eu me recordo da palavra do Dictionary.com, xenofobia, mas já me esqueci completamente das escolhidas pelo Oxford e MW", diz Kleinedler, "de modo que prefiro nossa abordagem".

A Palavra do Ano pode se tratar de marketing e concorrência, com o Merriam se gabando de que seu anúncio de "surreal" gerou mais de 9 bilhões de registros. E a fadiga com a Palavra do Ano com certeza é real. Mas o propósito superior permanece digno: conectar a linguagem e a cultura e analisar o "zeitgeist" do ano que passou. O campo lotado de Palavras do Ano ajuda a realizar isso de modo mais eficaz. Porque 2016 foi surreal, xenofóbico, postfaktisch e um "dumpster fire" (desastre completo). E 2017 não está oferecendo nenhuma alternativa.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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