O que sabemos sobre Sergey Kislyak, o diplomata russo que não para de se encontrar com o pessoal de Trump

Joshua Keating*

  • Cliff Owen/AP

    Sergey Kislyak, embaixador da Rússia nos EUA, fala com repórteres em Washington

    Sergey Kislyak, embaixador da Rússia nos EUA, fala com repórteres em Washington

As revelações de quarta-feira de que o secretário de Justiça dos EUA, Jeff Sessions, se encontrou duas vezes com o embaixador russo, Sergey Kislyak, no ano passado, além dos encontros com Kislyak que forçaram a renúncia do conselheiro de segurança nacional de Trump, Michael Flynn, no mês passado, chamam cada vez mais a atenção para o antes discreto diplomata russo.

Enquanto colegas diplomatas como o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, e o falecido embaixador na ONU, Vitaly Churkin, pareciam apreciar a atenção da mídia internacional, Kislyak se manteve longe das atenções durante grande parte de sua carreira.

Dito isso, ele esteve estreitamente envolvido nas relações entre os Estados Unidos e a Rússia por mais de 35 anos, inclusive em alguns dos momentos mais contenciosos e controversos do período pós-Guerra Fria.

O jornal "The Minneapolis Star Tribune" já descreveu Kislyak como "grisalho, corpulento e de bochechas caídas, como um funcionário do governo russo saído de um elenco de filme".

O "Washington Post" o chamou de um "diplomata austero da escola soviética, que é conhecido em Bruxelas como uma presença implacavelmente negativa". A mídia russa, por sua vez, o chamava de "um grande e jovial diplomata de carreira com sorriso fácil e domínio fluente do inglês".

Segundo sua biografia oficial, Kislyak, 66, formado em engenharia, ingressou no Ministério das Relações Exteriores soviético em 1977. Em 1981, ele assumiu um posto nos Estados Unidos pela primeira vez, inicialmente na missão nas Nações Unidas e depois na missão em Washington.

Lá, ele trabalhou nas questões de controle de armas e nucleares juntamente com os Estados Unidos durante os últimos anos da Guerra Fria. Em 1986, após o desastre nuclear em Chernobyl, ele assegurou ao "New York Times": "Temos projetos muito rígidos de segurança para os reatores em nosso país".

Durante o início dos anos 1990, em meio ao colapso da União Soviética, Kislyak estava em Moscou, ascendendo constantemente nas fileiras da diplomacia em vários postos relacionados à cooperação científica e controle de armas.

De 1998 a 2003, ele serviu como representante da Rússia na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental) em Bruxelas, assim como embaixador na Bélgica. Foi uma época interessante para o exercício daquele cargo. Durante seu primeiro ano, Kislyak foi chamado de volta a Moscou pelo governo de Boris Yeltsin, em protesto pelos ataques aéreos da Otan contra a Sérvia durante a crise de Kosovo, o rompimento mais sério nas relações entre a Rússia e o Ocidente desde o final da Guerra Fria.

Ao final de seu mandato, apesar da continuidade das objeções russas à expansão da Otan na Europa Central e Oriental, havia um novo espírito de otimismo em torno das relações entre a Rússia e a Otan com a chegada de novo presidente jovem e cheio de energia chamado Vladimir Putin. Um Conselho Otan-Rússia visando superar as diferenças e para realização de manobras militares conjuntas foi criado em 2002. "O início do processo é bastante encorajador", disse Kislyak ao "Washington Post" naquele ano.

De 2003 a 2008, ele voltou a Moscou como vice-ministro das Relações Exteriores. Naquela época, Moscou estava cada vez mais em atrito com Washington. Kislyak foi descrito pelo "Jerusalem Post" em 2007 como "o responsável dentro do Ministério das Relações Exteriores russo pela questão nuclear iraniana", e ele rechaçava com frequência as tentativas do governo Bush de aprovar sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU.

Apesar das tensões, Kislyak era infalivelmente diplomático. Em um artigo independente de 2007 sobre se as relações entre os Estados Unidos e a Rússia tinham regredido para os tempos da Guerra Fria, ele foi citado como tendo dito: "A Rússia e os Estados Unidos têm muitas questões nas quais ou cooperamos ou nas quais precisamos rever nossas posições. Nós esperamos uma discussão séria a respeito de problemas sérios, tanto do ponto de vista de nossa própria segurança quanto da segurança europeia".

Kislyak retornou a Washington, dessa vez como embaixador, em 2008. após seu antecessor, Yuri Ushakov, ter sido chamado a Moscou para servir como conselheiro de política externa de Putin.

Em um discurso em Minneapolis em 2009, Kislyak elogiou o desejo do governo Obama de "apertar o botão de 'reset'" (reiniciar) das relações russo-americanas, dizendo: "Gostamos dessa terminologia, tirada do mundo da informática. Mas ainda precisamos trabalhar nos velhos 'bugs' (falhas) e vírus ainda presentes. (...) As relações entre os Estados Unidos e a Rússia nunca foram fáceis".

Kislyak esteve envolvido nas negociações para troca de espiões após uma rede russa de agentes dormentes ter sido desbaratada pelo FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana) em 2010.

Ele também defendeu a decisão controversa da Rússia de proibir adoções por pais americanos em 2012, vista por muitos como uma retaliação às sanções impostas a autoridades russas após o crítico do governo, Sergei Magnitsky, ter morrido sob custódia russa. Em 2014, Kislyak criticou o governo Obama pelo que chamou de "volta da mentalidade da Guerra Fria" devido à conversa sobre sanções por causa da situação na Ucrânia.

Um relacionamento mais amistoso estava no horizonte em 2016, quando Kislyak se sentou na primeira fila em um discurso sobre política externa de Donald Trump, apenas para convidados, no Mayflower Hotel em Washington, durante o qual o candidato pediu por melhores relações com Moscou.

Trump "apresentou alguns pontos intrigantes, mas precisamos entender o que significarão ao ser implantados", disse Kislyak ao "Politico" após o discurso. O genro de Trump, Jared Kushner, também se encontrou com Kislyak na Trump Tower durante a transição.

Nada na biografia de Kislyak salta como particularmente suspeito ou incomum para alguém de sua posição, mas não é incomum o envolvimento de diplomatas em espionagem. Estaria o embaixador discreto envolvido em algumas atividades clandestinas? Segundo uma reportagem da CNN de 2 de março, Kislyak "é considerado pela inteligência americana como um dos maiores espiões e recrutadores de espiões em Washington da Rússia".

O Kremlin negou que ele tenha ligações com a inteligência. Mas não seria a primeira vez que alguém sugeriu que ele pode não ser totalmente confiável. Em 2014, após um almoço em off com Kislyak, o editor de segurança nacional do site "Breitbart News", Sebastian Gorka, devaneou sugestivamente sobre "que tipo de pessoa, trabalhando para que tipo de agência, seria designada pela União Soviética para as Nações Unidas nos anos 80 como ele foi". Gorka agora é um alto conselheiro de segurança nacional do presidente Trump.

A esta altura, não sabemos se Kislyak é um agente da inteligência. Também não sabemos sobre o que o embaixador discutiu com Flynn ou Sessions. Tudo o que sabemos é que, em qualquer diagrama de Venn para esta história cada vez mais multifacetada envolvendo Trump e a Rússia, Kislyak deve estar bem próximo do centro.

*Joshua Keating é um redator da "Slate" para assuntos internacionais

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos