Nova teoria tenta explicar por que ainda não encontramos alienígenas

Robert Hart

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Depois de décadas procurando, ainda não descobrimos um único sinal de inteligência extraterrestre. A probabilidade nos diz que deveria haver vida lá fora, mas então por que ainda não encontramos?

O problema costuma ser chamado de paradoxo de Fermi, em homenagem ao físico vencedor do Prêmio Nobel Enrico Fermi, que uma vez fez essa pergunta a colegas durante um almoço. Muitas teorias foram propostas ao longo dos anos. Poderia ser pelo fato de que simplesmente estamos sozinhos no universo ou de que exista algum grande filtro que impeça que a vida inteligente avance além de um determinado estágio. Talvez exista vida alienígena lá fora, mas sejamos primitivos demais para nos comunicarmos com ela, ou que estejamos dentro de uma espécie de zoológico cósmico, observados sem interação para que nos desenvolvamos sem uma interferência externa. Agora há três pesquisadores que acreditam ter uma possível resposta para a pergunta de Fermi: os alienígenas existem, mas estariam todos dormindo.

De acordo com um novo artigo aceito para publicação no "Journal of the British Interplanetary Society", os extraterrestres estariam dormindo enquanto esperam. No artigo, autores do Instituto do Futuro da Humanidade de Oxford e do Observatório Astronômico de Belgrado, Anders Sandberg, Stuart Armstrong e Milan Cirkovic, argumentam que o universo está quente demais no momento para que civilizações avançadas e digitais façam o uso mais eficiente de seus recursos. A solução seria dormir e esperar até que o universo esfrie, um processo conhecido como estivação (como uma hibernação, mas uma dormência até que cheguem condições mais frias).

Para entender a nova hipótese, deve-se primeiro compreender a ideia de que a vida mais sofisticada do universo pode optar por deixar a biologia para trás e viver de forma digital. Tendo essencialmente transferido suas mentes para computadores potentes, as civilizações que optem por fazer isso poderiam aumentar suas capacidades intelectuais ou habitar alguns dos ambientes mais inóspitos no universo com facilidade.

A ideia de que a vida possa fazer a transição para uma forma pós-biológica de existência está se popularizando entre especialistas. "Não é algo que seja necessariamente inevitável, mas é altamente provável", Cirkovic me contou em uma entrevista.

Uma vez que você esteja vivendo digitalmente, explicou Cirkovic, é importante processar as informações de forma eficiente. Cada computação tem um certo custo atrelado, e esse custo está intimamente ligado com a temperatura. Quanto mais frio fica, mais baixo é o custo, o que significa que você consegue fazer mais com a mesma quantia de recursos. Este é um dos motivos pelos quais resfriamos computadores potentes. Embora os humanos possam achar o universo um lugar bastante gelado (a radiação de fundo flutua em cerca de 3 Kelvins acima do zero absoluto, o limite mínimo da temperatura de escala), as mentes digitais podem achá-lo quente demais.

Mas por que estivar? Qualquer alienígena que quisesse um processamento mais eficiente certamente poderia resfriar seus sistemas manualmente, assim como fazemos com computadores. No artigo, os autores reconhecem que essa é uma possibilidade. "Ainda que seja possível uma civilização resfriar partes de si mesma para qualquer temperatura", escrevem os autores, isso também requer trabalho. Então não faria sentido que uma civilização que estivesse procurando maximizar sua capacidade computacional desperdiçasse energia no processo. Como Sandberg e Cirkovic elaboram em uma postagem de blog, é mais provável que uma vida artificial como essa esteja em modo de dormência protegida hoje, pronta para acordar em um futuro mais frio.

Se existem alienígenas como esses, eles estão com sorte. O universo parece estar esfriando sozinho. Ao longo dos próximos trilhões de anos, com a continuidade de sua expansão e a desaceleração da formação de novas estrelas, a radiação de fundo se reduzirá a praticamente zero. Sob essas condições, Sandberg e Cirkovic explicam, esse tipo de vida artificial "conseguiria fazer muito mais coisas". E não é um exagero. Os pesquisadores calculam que ao empregarem essa estratégia, eles poderiam conseguir fazer até 1030 mais vezes do que conseguiriam hoje.

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Mas só porque os alienígenas estão dormindo não significa que não possamos encontrar sinais deles. Qualquer civilização que esteja em estivação precisa preservar recursos que ela pretenda usar no futuro. Então os processos que desperdicem ou ameacem esses recursos deveriam estar visivelmente ausentes, graças à interferência dos estivadores. (Se eles forem suficientemente avançados para transferir suas mentes e estivadores, eles devem ser capazes de manipular o espaço.) Isso inclui a colisão de galáxias, ventos galácticos expelindo matéria no espaço intergaláctico, e estrelas se convertendo em buracos negros, que podem levar os recursos para além do alcance da civilização dormente ou transformá-los em formas menos úteis.

Outra estratégia para encontrar os alienígenas dormentes, disse Cirkovic, poderia ser tentar mexer nas posses e territórios dos estivadores, dentro dos quais podemos já estar residindo. Uma forma de fazer isso seria enviando sondas auto-replicantes no universo que roubariam as coisas dos estivadores. Qualquer espécie competente deveria ter medidas prontas para responder a esse tipo de ameaça. "Poderia ser um teste excepcionalmente perigoso", ele alertou, "mas se realmente existirem civilizações muito antigas e muito avançadas lá fora, podemos presumir que existe um perigo potencial em qualquer coisa que fazemos".

O interessante é que nem Sandberg nem Cirkovic dizem ter muita esperança de encontrar qualquer coisa. Sandberg, no post de seu blog, afirma que ele não acredita que a hipótese seja provável: "Pessoalmente acredito que a razão mais provável pela qual não estamos vendo alienígenas não seja por que eles estão estivando". Ele acredita que seja mais provável que "eles não existam ou estejam muito distantes".

Cirkovic concorda. "Também não acho muito provável", ele disse em nossa entrevista. "Prefiro hipóteses que não dependam de presumir que decisões intencionais tenham sido tomadas por sociedades extraterrenas. Qualquer suposição é extremamente especulativa". Poderiam existir formas de energia que nem consigamos conceber hoje, ele disse, como produzir antimatéria em grandes volumes, extrair de buracos negros em evaporação, usar matéria escura. Qualquer uma dessas coisas mudaria o que poderíamos esperar ver de uma civilização tecnicamente avançada.

No entanto, ele diz que a teoria tem um papel. É importante examinar o máximo de ideias possíveis. Você precisa testar um conjunto amplo de hipóteses, uma a uma --desmistificando-as, eliminando-as-- para chegar mais perto da verdade. "É assim que a ciência funciona. Precisamos ter o maior número possível de hipóteses e explicações para o paradoxo de Fermi", ele disse.

Além disso, existe uma probabilidade modesta de que a ideia de alienígenas em estivação possa ser parte da resposta, segundo Cirkovic. Não deveríamos esperar que uma única hipótese dê conta do paradoxo de Fermi. Será mais uma espécie de "colcha de retalhos de soluções", ele disse.

E é importante continuar explorando soluções. O paradoxo de Fermi é muito mais do que um exercício intelectual. Tem a ver com tentar entender o que poderia estar lá fora e como isso poderia explicar nosso passado e guiar nosso futuro.

"Eu diria que mais de 90% das hipóteses que foram propostas na História para responder ao paradoxo de Fermi têm consequências práticas", disse Cirkovic. Elas permitem que pensemos de forma proativa sobre alguns dos problemas que enfrentamos como espécie, ou que podemos algum dia enfrentar, e nos levam a desenvolver estratégias para moldar ativamente um futuro mais próspero e mais seguro para a humanidade. "Podemos aplicar esse raciocínio ao nosso passado, ao surgimento da vida e da complexidade. Também podemos aplicar um raciocínio semelhante ao pensarmos nosso futuro. Isso pode nos ajudar a evitar catástrofes e nos ajudar a entender o destino mais provável das espécies inteligentes no universo".

Tradutor: UOL

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