Por que as Forças Armadas americanas não podem consertar a Síria

Steven Simon e Jonathan Stevenson*

  • BBC

O memorando do "canal da divergência" do Departamento de Estado sobre a política americana na Síria, que vazou no mês passado, é somente a expressão mais recente de uma crença difundida dentro e fora do governo de que a intervenção americana na Síria é necessária e seria bem-sucedida.

Após cinco anos de uma guerra brutal e sem progressos, essa é uma visão compreensível. A ideia de os Estados Unidos salvando o Oriente Médio de si mesmo é atraente tanto para intervencionistas liberais quanto para neoconservadores. Infelizmente, quando essa ideia levou a melhor —como no caso do Iraque em 2003 e da Líbia em 2011— a segurança e a estabilidade regionais pioraram. De fato, em vista das circunstâncias geopolíticas da Síria, uma intervenção seguindo a linha sugerida no memorando poderia produzir consequências mais perigosas do que as das duas intervenções anteriores.

Os autores do memorando e outros intervencionistas não conseguem reconhecer que os Estados Unidos na verdade já enfraqueceram o presidente Bashar al-Assad. Em 2015, o agressivo programa secreto de ação do governo facilitou avanços significativos para a oposição no norte da Síria, expôs Latakia— a área central do regime— para ser atacada, e diminuiu a ocupação militar síria na província de Idlib, no noroeste.

Mas essas perdas também foram cruciais na decisão da Rússia de entrar na briga da Síria depois de anos sem interferir. Isso derruba a crença dos intervencionistas de que ataques aéreos "criteriosos" poderiam de alguma forma tirar poder do governo de Assad, minar a determinação russa e melhorar as perspectivas de uma solução negociada.

Se Moscou achou pertinente intervir por causa do apoio secreto de Washington aos rebeldes, é no mínimo lógico que retaliariam com ainda mais intensidade no caso de um apoio aberto. De fato, essa perspectiva é provavelmente a principal motivação de Moscou para manter um contingente aéreo e milhares de tropas na Síria, conduzindo operações regulares ali e continuando a garantir o generoso apoio da Rússia ao governo sírio.

Mesmo no impensável caso de a Rússia abandonar a Síria, uma ação militar direta dos EUA faria com que o Irã e o Hezbollah, os aliados mais próximos de Assad, intensificassem seu apoio. Isso fortaleceria belicistas no Irã e enfraqueceria perspectivas de uma melhora nas relações entre Estados Unidos e Irã.

Talvez os intervencionistas acreditem que uma ação militar americana forçaria Assad à mesa de negociações. Essa perspectiva é igualmente implausível. Não existe uma negociação possível que o presidente sírio possa fazer com seus adversários, muitos dos quais são islamitas inflexíveis. Ele e seus colegas preferem perder lutando em vez de entregar a Síria a jihadistas sunitas. O mesmo vale para o Irã e o Hezbollah.

Mas o maior problema com os argumentos a favor da intervenção —mesmo os ataques aéreos calibrados defendidos pelo memorando do canal de divergência— é que ela levaria a tropas em solo. Partindo do pressuposto de que Assad aumentaria os ataques em resposta aos ataques aéreos, uma quase certeza, a opção de uma resposta limitada não seria mais possível.

Por exemplo: se os Estados Unidos simplesmente aumentassem o ritmo e a intensidade dos ataques aéreos visando enfraquecer a resistência de Assad, seria ainda maior a probabilidade de a Rússia, o Irã e o Hezbollah virem ao seu socorro. Washington ficaria com somente duas opções realistas: retirar-se e parecer displicente, ou avançar o conflito para uma guerra total por procuração e se comprometer a acabar com o regime.

Uma ação militar direta contra o governo sírio seria ignorar a principal lição da Líbia: que uma mudança de regime, sem a vontade e a capacidade de realizar operações de estabilização, abre as portas para grupos extremistas. Um comprometimento americano com operações como essa na Síria também seria ignorar a principal lição do Iraque: de que uma verdadeira estabilização requer tanto uma contra insurgência quanto a construção de um Estado, para os quais os Estados Unidos, assim como a maioria das democracias maduras, não tem nem estômago suficiente para a brutalidade, nem força política.

E, de forma mais geral, os signatários do memorando e seus simpatizantes não parecem apreciar que um presidente americano tenha recursos limitados para cumprir compromissos globais estratégicos como uma contraposição à China no Pacífico, fortalecendo a Otan, e tirando armas nucleares das mãos do Irã. O presidente não pode se dar o luxo de começar uma guerra sem fim definido na Síria, um país no qual o interesse nacional dos Estados Unidos é sutil e complexo. Se os Estados Unidos possuem um interesse militar direto na Síria, é como um campo de abatimento de jihadistas. Ele já está demonstrando esse interesse através de uma campanha aérea contínua e efetiva contra o Estado Islâmico.

Para além de considerações realistas como essas, o memorando do canal de divergência não aborda conceitos gerais como a integridade do "sistema internacional" para a proteção civil e "responsabilidade" por violações dos direitos humanos. Essas são preocupações válidas, mas terciárias do ponto de vista estratégico.

O memorando também sugere que a contenção americana na Síria de alguma forma coloca em xeque a credibilidade dos Estados Unidos de uma forma mais ampla. Isso também é um exagero. Pequim provavelmente não olha para o modo como Washington lida com Damasco, seja do ponto de vista ético ou operacional, para decidir se toma Taiwan ou não, ou para declarar controle sobre o Estreito de Malaca. Dentro do Oriente Médio, a contenção americana não minou a coalizão sunita anti-Estado Islâmico, e é improvável que o faça. Aliás, essa coalização na verdade se fortaleceu nos últimos três anos.

É claro, existe um forte interesse humanitário americano na Síria e em ajudar aliados e parceiros com o fluxo de refugiados. Cerca de 400 mil pessoas morreram, quase 600 mil estão morrendo de fome e milhões foram tirados de suas casas. Uma complacência para com essa terrível guerra seria completamente inaceitável. Mas os Estados Unidos já alocaram bem mais que US$ 5 bilhões para aliviar o sofrimento e apoiar amigos vulneráveis como a Jordânia. Os recursos americanos são mais bem gastos no apoio a uma população aflita e a necessidades de governos regionais enquanto promove um processo política na Síria, ainda que tortuoso, do que conduzindo ataques militares inúteis contra o regime.

*Steven Simon, professor na Amherst College, foi diretor sênior do Conselho de Segurança Nacional para o Oriente Médio e o Norte da África de 2011 a 2012. Jonathan Stevenson foi diretor do Conselho de Segurança Nacional para questões político-militares, Oriente Médio e Norte da África, de 2011 a 2013

Tradutor: UOL

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