Opinião: Será que a União Soviética realmente acabou?

Masha Gessen

  • Alexander Zemlianichenko/AP

A vida na Rússia hoje se parece mais com a vida na União Soviética do que em qualquer outra época desde o golpe fracassado de 1991

Dia 22 de agosto é feriado na Rússia, Dia da Bandeira. Mas não é dos mais populares dentre os feriados. Não tem desfile, como o do Dia da Vitória. Os russos não têm o dia de folga, como no Dia do Trabalhador, no Dia da Rússia, no Dia Internacional das Mulheres, no dia dos Defensores da Pátria e em outra meia dúzia de feriados. Um visitante no país provavelmente não notaria que este mês a Rússia está completando 25 anos de um marco histórico.

E o que aconteceu um quarto de século atrás? No dia 18 de agosto de 1991, quatro oficiais soviéticos de alto escalão voaram para a Crimeia, onde o presidente Mikhail S. Gorbachev da União Soviética passava as férias, e o colocaram em prisão domiciliar. No dia seguinte, os cidadãos soviéticos acordaram com a notícia de que um comitê da KGB, militares e líderes do Partido Comunista Soviético havia declarado estado de emergência. Então, no decorrer de três dias, o golpe foi por água abaixo.

No dia 21 de agosto, seu fracasso se tornou evidente, e as autoridades de Moscou logo removeram uma estátua gigante do fundador da polícia secreta, Felix Dzerzhinsky, de seu pedestal no centro da cidade. Uma bandeira russa, com listras brancas, azuis e vermelhas, foi hasteada sobre o prédio do Soviete Supremo da Rússia, o mais alto corpo legislativo de Moscou. Somente três pessoas morreram nas ruas de Moscou antes do fim da tentativa de golpe.

Dois anos antes, uma série de protestos populares liderados por jovens ativistas pró-democracia haviam derrubado os governos comunistas de vários países do leste europeu. Essas ficaram conhecidas como as Revoluções de 1989. A maior parte delas foi pacífica, tendo os tchecos chamado a deles de "veludo". Os partidos no poder simplesmente capitularam. Em muitos livros publicados no Ocidente, e na mente de alguns intelectuais russos, os três dias de agosto de 1991 foram a versão russa de uma revolução de veludo, e foram comemorados como o fim da União Soviética.

Mas eles não foram nem o fim da União Soviética, nem uma revolução de veludo. Vinte e cinco anos depois, talvez isso esteja mais claro do que nunca.

Quando chegou o verão de 1991, o império soviético já se encontrava agonizante há alguns anos. Cada uma de suas 15 repúblicas constituintes, incluindo a Rússia, tinha movimentos populares pró-independência. Conflitos étnicos e disputas de fronteiras se intensificavam por toda parte; sangue era derramado. Gorbachev ziguezagueava entre soluções militares e pacíficas para as crises crescentes. O Estado soviético havia usado a força no Azerbaijão, na Geórgia e na Lituânia, matando milhares de pessoas a desapontando amargamente todos que queriam mudanças. No entanto, a ala dura do partido que compunha a maioria na liderança soviética achava Gorbachev mole demais. Assim como qualquer líder que tenta agradar a todos, Gorbachev era odiado por muitos e desprezado pela maioria. Mas sua maior luta era com Boris Yeltsin, um ex-líder do partido que em junho de 1991 se tornou o líder eleito pela população da república russa dentro da URSS.

O fracasso do golpe da ala dura criou uma abertura para Yeltsin. Enquanto Gorbachev foi refém na Crimeia, Yeltsin foi em Moscou. Ele falou para os manifestantes anti-golpe na cidade de cima de nada menos que um tanque. Depois que o golpe passou, ele passou a ser visto por muitos como líder de uma resistência vitoriosa. Agora ele estava em posição de dizer a Gorbachev o que fazer.

Quando Gorbachev voltou para Moscou no dia 22 de agosto e começou a fazer uma faxina entre os muitos apoiadores do golpe, Yeltsin anulou várias das nomeações de funcionários de Gorbachev. Ele nomeou seus próprios homens. Ele também se certificou de que o Partido Comunista Soviético, cujos líderes arquitetaram o golpe, fosse efetivamente banido, enquanto o Partido Comunista Russo continuava a funcionar. Em outras palavras, Yeltsin procurou dominar todas as instituições importantes soviéticas, desde a KGB até o centro de comando da economia planificada.

Durante o outono de 1991, as repúblicas constituintes declararam sua independência da URSS, uma atrás da outra, enquanto Gorbachev, que ainda era o presidente soviético, se desesperava para manter junta a união. Em dezembro, Yeltsin e os líderes de Belarus e da Ucrânia se encontraram e concordaram com a dissolução da União Soviética. Gorbachev não foi convidado. Ele não foi nem mesmo o primeiro a saber, tendo sido informado pelo líder de Belarus depois que Yeltsin ligou para o presidente George H.W. Bush contando as notícias. No final, Gorbachev teve de renunciar como presidente porque seu país não existia mais. A maior parte de suas instituições, juntamente com suas participações em organizações internacionais, passou para um país novo chamado Federação Russa.

Yeltsin e seus apoiadores acreditavam que o que havia acontecido na Rússia era melhor do que qualquer revolução, mesmo uma de veludo. Eles estavam convencidos de que apoderando-se de instituições existentes eles trariam a democracia para a Rússia mais rapidamente, e de forma menos dolorosa, do que se as destruíssem. Eles pensaram pouco no fato de que essas eram as instituições de um longo regime totalitário, e não duvidaram de que tivessem a vontade e a coragem necessárias para transformá-las.

Mas essas instituições se revelaram mais fortes do que os homens que tentaram reformá-las. Elas resistiram a mudanças por quase uma década, e uma vez que Vladimir V. Putin se tornou presidente, elas começaram a fazer sentido, facilitando o retrocesso da Rússia. Hoje, a vida na Rússia —onde tudo é político, onde a população se mobiliza em torno do líder e da nação, onde a censura e o governo de partido único foram efetivamente restaurados—é mais parecida com a vida na União Soviética do que em qualquer outra época nos últimos 25 anos.

O monumento em homenagem aos três homens que morreram durante o golpe fracassado de agosto de 1991, uma placa que poucas pessoas sabem que existe, está abandonado, e discussões sobre a construção de um monumento adequado e visível em seu lugar morreram anos atrás. Mas a estátua de Dzerzhinsky, que fica em um parque não longe do Kremlin, foi cuidadosamente restaurada este verão, no mínimo pela quarta vez nos últimos anos. Fala-se também em colocá-la de volta em seu antigo lugar.

*Masha Gessen é autora de "The Brothers: The Road to an American Tragedy"
 

Tradutor: UOL

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