Opinião: Avanço da democracia no mundo esbarra em dura realidade

David E. Sanger*

Em Washington

  • Getty Images/iStockphoto

Esses últimos tempos têm sido difíceis para entusiastas do avanço constante da democracia no mundo.

Uma onda de nacionalismo --liderada por chamados pelo erguimento de pontes levadiças contra os forasteiros e suas influências-- trouxe tiranos para lugares onde, até poucos anos atrás, instituições democráticas pareciam estar inevitavelmente em ascensão. Em todo o mundo, os efeitos são claros: quando o nativismo se torna um chamado de unificação, muitas vezes a tolerância e a disposição por uma conciliação, lubrificantes da democracia liberal, vão pelo ralo.

Os efeitos são dramáticos. Por muito tempo, os americanos se convenceram de que a Rússia estava aos poucos se encaminhando para uma integração às instituições ocidentais e aos valores que elas representam.

Mas o presidente Vladimir Putin acabou com a mídia independente e qualquer outra dissidência significativa na Rússia. Ser contrário ao seu governo é cada vez mais um risco de acabar morto.

O presidente Xi Jinping, que na opinião de muitos na administração Obama, quatro anos atrás, traria um verniz moderno e tecnocrático ao governo chinês, e conteria suas piores tendências à brutalidade, acabou indo em direções que poucos na administração previram. A Grande Muralha digital está mais alta e mais espessa do que nunca. Jornais e outras publicações foram fechados, e seu governo prendeu dissidentes com base na vaga acusação de estarem causando debates "desordeiros".

Na Turquia, um líder eleito de forma livre, Recep Tayyip Erdogan, usou uma tentativa de golpe contra o governo para executar o que claramente foi um expurgo pré-planejado que jogou milhares de pessoas na prisão, desde professores do ensino básico até jornalistas. Washington tem relutado em protestar, uma vez que precisa de suas bases na Turquia para o conflito na Síria.

Mais de cinco anos depois que a administração Obama incitou o presidente Hosni Mubarak do Egito a renunciar diante dos protestos, hoje ela entrega armas e ajuda a seu sucessor, Abdel Fattal el-Sissi, um ex-general cujo comando autoritário excede qualquer coisa que Mubarak já tenha feito. No entanto, a cooperação do Egito é tão necessária para conter o Oriente Médio, que o Departamento de Estado tem sido extraordinariamente relutante em condenar uma situação na qual a democracia parece ser só uma lembrança distante.

A Polônia, o mais eficiente dos membros mais novos da Otan, descambou para um governo de extrema-direita, assim como a Hungria. Na Áustria, uma eleição presidencial dentro de algumas semanas poderá resultar na vitória de Norbert Hofer, que lidera um partido anti-imigração.

Mas não era para ser assim. As rivalidades do fim da Guerra Fria, a riqueza crescente e a integração da China com a economia mundial, os benefícios de um comércio global e a capacidade da internet de ultrapassar as fronteiras tradicionais deveriam tornar as variações sobre o tema da democracia uma escolha inevitável.

Esse era o significado de "O Fim da História e o Último Homem", o livro de 1992 de Francis Fukuyama, que postulava que a queda do Muro de Berlim seria "o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como a forma final de governo humano."

Mas existem alguns pontos positivos.

Em 1998, parecia que a Indonésia entraria em colapso após a queda de Suharto. Hoje ela é uma democracia indisciplinada, mas real. Desde a África até a América Latina, há movimentações de impulsos democráticos em lugares onde eles raramente se consolidaram. No entanto, pergunte a qualquer um no mundo. Fica claro que as democracias ocidentais que deveriam ser um modelo para um mundo novo e interconectado parecem muito menos atraentes do que já foram.

Putin e Xi zombam do "modelo americano" e o consideram uma prescrição para desordem e decadência. O drama eleitoral em curso nos Estados Unidos alimentou esse argumento, levando muitos a questionarem se o estilo de democracia que os Estados Unidos pregam, apesar de todas suas vantagens óbvias, desperta os piores instintos em um eleitorado.

Mas como isso aconteceu? Em um mundo onde a internet deveria tornar todos cientes dos benefícios de uma democracia mais direta, como foi que as forças de ordem e o autoritarismo voltaram com tudo? Como alguém explica a ascensão de candidatos "meu-país-primeiro" como Donald Trump e da política de extrema-direita francesa Marine Le Pen, ambos tendo dito que promover a democracia em todo o mundo não era um objetivo?

As respostas até o momento não parecem satisfatórias.

Sim, a retração econômica que tomou conta do mundo a partir de 2007 deixou para trás incontáveis milhões, e muitos deles nunca se recuperaram. Um estudo do McKinsey Global Institute concluiu que aproximadamente dois terços dos lares dos países ricos do mundo viram sua renda líquida estagnar na década após a crise, uma mudança brusca em relação à década anterior. A já conhecida raiva populista contra as elites e a desigualdade de renda que essas elites representam muitas vezes são apontadas como culpadas pela revolta que se seguiu. Mas esse é o tipo de problema que democracias funcionais deveriam autocorrigir.

Não há dúvidas de que o Twitter, o Facebook e o advento da comunicação móvel tenham derrubado ditadores durante a Primavera Árabe. É difícil imaginar as mobilizações furiosas, aparentemente espontâneas, vistas na Praça Tahrir no Cairo e nas ruas de Aleppo, na Síria, sem esse sistema de comunicação instantânea.

No entanto, o Twitter é melhor para se começar uma revolução do que para completar uma. Ele pode ajudar a organizar um protesto, mas não um governo. Isso requer um conjunto de habilidades que os revolucionários de rua do Egito não estavam interessados em procurar, como disseram à então secretária de Estado Hillary Clinton, um tanto ingenuamente. Não era trabalho deles criar um novo governo, como lhe disseram em uma visita ao Egito na primavera de 2011, pouco tempo depois de Mubarak ser preso. Ela foi embora chocada, como contou a um repórter em seu gabinete algum tempo depois.

"Se vocês não se organizarem, se vocês não escolherem candidatos, se vocês não participarem do processo, os islamitas vão vencer", ela contou aos manifestantes. Eles a ignoraram. Logo depois os islamitas venceram a eleição, um contragolpe pôs os generais de volta no poder, e agora tanto a Irmandade Muçulmana, que forneceu o primeiro sucessor de Mubarak, quanto vários manifestantes estão presos.

Mesmo em democracias consolidadas, a era das comunicações instantâneas está tendo efeitos que poucos previram. Trump capitalizou essas mudanças melhor do que qualquer outro político na história moderna, superando brilhantemente 16 adversários que não perceberam que as regras haviam mudado.

"A mídia moderna aumenta a transparência, mas essa é uma faca de dois gumes para a democracia", disse Joseph S. Nye Jr., o professor de Harvard que escreveu mais recentemente "Is the American Century Over?" ("O século americano acabou?"). (Ele concluiu que ainda tem muito gás.). "Mais pessoas têm informações que lhes permite participar, mas os líderes têm menos tempo e espaço para a deliberação e a conciliação que Madison acreditava serem essenciais para um governo democrático efetivo."

Na verdade, se existe uma lição a se tirar da década que se passou, pode ser o fato de que uma sobrecarga de informações raramente resulta em um ímpeto político para se encontrar um consenso. O discurso sobre a construção do muro de Trump viralizou, e as pessoas se dividiram. Vídeos e checagem de informações instantâneos tornam cada vez mais difícil para os políticos mudarem de posições gradualmente sem serem notados. Embora os fatos estejam disponíveis mais prontamente do que nunca, muitas vezes eles parecem ser tardios. É só ver a quantidade de buscas no Google no Reino Unido sobre o que significava deixar a União Europeia. O maior pico aconteceu no dia seguinte à votação do Brexit, e não antes.

O que está claro é que os americanos precisam repensar a suposição automática de que o mundo quer no fundo replicar democracias de estilo americano, ou mesmo de estilo ocidental. Muitos querem, mas assim como Henry Kissinger observou recentemente, nós nos enganamos ao pensar que nossos maiores rivais do século passado agora estavam comprometidos em se integrarem a instituições idealizadas por ocidentais e baseadas em democracia.

"O problema com a visão americana da Rússia é que nós sempre pensamos na Rússia como um país da Otan incipiente", disse Kissinger no mês passado em um fórum em Kent, Connecticut. "Que ela aos poucos entraria em uma órbita e aceitaria um chamado sistema baseado em regras. Mas a Rússia tem uma história diferente e uma cultura diferente."

Assim como os chineses, os egípcios e os turcos. Os líderes desses países sentem muito menos pressão hoje do que uma década atrás para abrir suas sociedades. A democracia está longe de estar morta; para bilhões em todo o mundo, ela continua sendo um sonho estimado. Mas, afinal, o fim da história está se parecendo cada vez mais com outro começo.

* David E. Sanger é correspondente de segurança nacional para o "The New York Times" e autor de "Confront and Conceal: Obama's Secret Wars and Surprising Use of American Power"

Tradutor: UOL

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