Análise: Anjos e demônios na Guerra Fria e hoje

Stephen Boykewich*

Em Los Angeles

  • Kevin Lamarque/Reuters

Como os Estados Unidos transformaram a Rússia em um inimigo espiritual, mais do que um simples adversário geopolítico

George Kennan sabia como agradar sua plateia. No começo o público de suas palestras se mostrava cético quanto à Rússia realmente querer se recriar com base no modelo americano. Então ele contava a eles sobre os prisioneiros políticos russos que passaram as semanas que antecediam o 4 de julho procurando pedaços de tecido vermelho, branco e azul. Quando chegou o Dia da Independência, eles receberam seus carcereiros agitando um mar de bandeirinhas americanas costuradas à mão através das grades.

Soa como o perfeito conto de propaganda da Guerra Fria. Mas o 4 de julho ao qual Kennan estava se referindo não foi durante os anos 1950, mas sim em 1876. E o George Kennan que contava a história não era o famoso diplomata da era da Guerra Fria, mas sim um parente distante seu e xará, um jornalista que havia passado algum tempo na Rússia antes de fazer um circuito de palestras nos anos 1880.

A narrativa americana da Guerra Fria como uma luta pelo destino da humanidade é familiar. Da instauração da Doutrina Truman em 1947 até o colapso da União Soviética em 1991, os Estados Unidos retrataram a Rússia soviética não como uma mera adversária geopolítica, mas sim como uma inimiga espiritual.

Jornalistas e responsáveis por políticas públicas oscilavam entre uma demonização implacável do país e fantasias messiânicas que envolviam sua reconstrução à imagem dos Estados Unidos. Mas o que surpreende é quão antiga a abordagem evangelizadora dos Estados Unidos em relação à Rússia é, e como ela continua a distorcer nosso pensamento até hoje.

Em seu livro "The American Mission and the 'Evil Empire'" ("A missão americana e o 'Império do Mal'", sem lançamento no Brasil), o historiador David Floglesong detalha como formadores de opinião americanos deram à Rússia o papel do "duplo malvado" dos Estados Unidos por mais de um século.

O livro de Floglesong é hoje mais essencial do que nunca, por poder ajudar os americanos a entenderem como tratamos a Rússia ou como uma terra selvagem ansiosa por se tornar um segundo Estados Unidos, ou como um monstro imoral cujos defeitos aliviam a consciência culpada dos próprios americanos.

Esse padrão começou nas últimas décadas do século 19, quando os Estados Unidos vinham enfrentando um declínio na fé religiosa, um aumento no terrorismo racial contra afroamericanos e condições brutais para os operários. Em um clima de crise doméstica, muitos americanos viram seu idealismo se renovar com a campanha de George Kennan para libertar a Rússia de um governo autocrático.

Kennan escreveu e discursou com entusiasmo para mudar a percepção dos americanos sobre a Rússia tsarista, de benigna para selvagem. A Rússia em geral era representada na época como a "amiga distante" dos Estados Unidos, a grande potência que havia ajudado a evitar o apoio francês e britânico para os Confederados ao enviar seus navios para portos americanos durante a Guerra Civil Americana.

Mas os relatos de Kennan sobre o "inferno miserável" entre prisioneiros políticos russos —em parte inventados— ajudaram a reverter a tendência. Kennan foi motivado por seus contatos com exilados russos na Sibéria, que o deixaram repleto de um "ânimo espiritual". Em troca, ele ajudou ativistas americanos anti-escravidão a encontrarem um novo propósito na cruzada anti-tsarista.

A campanha de Kennan coincidiu com uma percepção cada vez mais comum sobre a Rússia como uma terra de oportunidades para missionários protestantes e fabricantes americanos. Ambos os grupos receberam bem a mensagem de que os russos queriam trocar a autocracia tzarista pela liberdade americana. A anedota das bandeiras do Dia da Independência deleitou as plateias de Kennan, mas ela se baseava em uma fantasia. Revolucionários anti-tsaristas na Rússia eram em sua maior parte céticos a respeito do modelo americano e achavam o socialismo mais promissor.

No entanto, o que um jornal americano contemporâneo chamava de "o evangelho de acordo com Kennan" logo virou lugar-comum: a Rússia seria uma terra selvagem pronta para ser reconstruída sobre ideais, orações e produtos americanos.

Uma ilustração da revista "Life" que lembrava a Revolução Russa de fevereiro de 1917 captava perfeitamente essa visão. A Estátua da Liberdade aparecia montada nas costas de um urso, lançando a luz da liberdade sobre camponeses russos embasbacados. Uma placa em sua mão mostrava duas datas: 1776 e 1917.

Os americanos celebravam a Revolução Russa como uma extensão de sua própria revolução. Em um discurso para o Congresso feito em abril de 1917, o presidente Woodrow Wilson aclamou a "majestade ingênua" do "grande e generoso povo russo", que "na verdade sempre foi democrático, no fundo".

A ascensão dos bolcheviques transformou a opinião pública americana, que trocou esperanças irracionais por uma implacável demonização de viés racial. George A. Simons, um missionário metodista, voltou de Petrogrado em 1919 para alertar o Senado a respeito de um regime "cruel", "infernal", "diabólico" e "anticristo", dominado por agitadores "iídiches" com ligações preocupantes com radicais judeus em Nova York.

A tendência se reverteu nos anos 1920, quando os bolcheviques abriram suas portas para trabalhadores humanitários americanos incumbidos de combater a fome e missionários protestantes. O diretor da American Relief Administration, uma missão de auxílio alimentar financiado pelo Congresso, proclamou que os russos viam sua organização como "um milagre de Deus que chegou para eles no momento mais difícil sob forma americana".

Os evangélicos americanos, que os bolcheviques consideravam úteis para minar a Igreja Ortodoxa Russa, celebravam a Rússia como "a maior oportunidade missionária de nossos tempos", onde "milhões de brancos estão esperando pela mensagem da vida".

Mas quando o regime soviético expulsou missionários estrangeiros nos anos 1930, evangélicos americanos identificaram a Rússia como a satânica "terra de Magogue", profetizada em Ezequiel 38-39 como a figura que combateria Israel no fim dos dias. A representação da Rússia como unicamente má cresceu junto com a influência de evangélicos na vida política americana ao longo da Guerra Fria.

O confronto nuclear que se seguiu à Segunda Guerra Mundial enfraqueceu as esperanças americanas de "libertar" a Rússia a curto prazo. Mas o pânico moral continuava intenso, e mais uma vez encontrou alvos em casa. A caça às bruxas anticomunista dos anos 1950 exemplificava o que o historiador Richard Hofstadter chamava de "o estilo paranoico da política americana". Os conservadores americanos responderam com uma fúria particular quando a crítica dos soviéticos a respeito dos Estados Unidos se alinhava com a da esquerda americana, fosse em relação à segregação racial ou à condução da guerra do Vietnã. O conservador "Chicago Tribune" afirmou em um editorial de 1968, intitulado "Liberty Prostrate", que a "imoralidade internacional é um monopólio dos comunistas".

A culminação da retórica moralizante veio em um encontro realizado em 1983 da Associação Nacional de Evangélicos, onde o presidente Ronald Reagan chamou a União Soviética de "o foco do mal no mundo moderno". Reagan usou o espectro do "duplo malvado" para vender a escalada nuclear como um imperativo moral.

Inevitavelmente, a queda do "império do mal" trouxe reivindicações de uma vitória geral e, juntamente com isso, políticas ruins. Neoconservadores declaravam que a ordem econômica e política americana era o ponto final da história da humanidade.

A mentalidade triunfalista levou a políticas americanas sobre a Rússia nos anos 1990 que abriram caminho para uma reação autoritária, que incluiu a "terapia de choque" econômica que empobreceu dezenas de milhões de russos, o apoio a esquemas de privatização monstruosamente corruptos e a expansão da Otan para o antigo bloco soviético. George F. Kennan, o diplomata do século 20 e "guru" da política externa, foi um dos muitos a alertarem que a expansão da Otan era "um erro trágico" destinado a provocar "uma nova Guerra Fria".

Hoje, os comentaristas e jornalistas americanos se encontram novamente presos em uma narrativa de anjos e demônios, com o presidente Vladimir V. Putin como nosso mais recente Mefistófeles. Esforços para se representar uma conspiração entre a campanha de Trump e o serviço secreto russo —até hoje sem provas— chegaram a um ponto em que até mesmo críticos implacáveis de Putin como a jornalista Masha Gessen e o ex-embaixador americano para a Rússia Michael McFaul clamaram por calma.

A Rússia apresenta desafios óbvios para interesses e ideais americanos. Mas esses desafios requerem uma análise cuidadosa e insights novos, e não fantasias milenares sobre uma batalha pelo destino espiritual da humanidade.

Os americanos também deveriam se lembrar de que a intensidade de nosso discurso sobre a Rússia sempre refletiu as ansiedades a respeito da saúde de nossa própria democracia. Os desafios mais profundos que os americanos enfrentam em casa não vêm do Kremlin. Eles vêm de autoritarismos domésticos, de uma desigualdade consolidada, de um sequestro corporativo de nossa política e do colapso do contrato social do século 20. A forma como lidamos com esses problemas determinará mais o futuro do experimento americano —e o papel dos Estados Unidos no exterior— do que todos os epítetos anti-russos do mundo.

*Stephen Boykewich é roteirista e jornalista. Ele morou em Moscou entre 2004 e 2007Em Los Angeles

Tradutor: UOL

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