Lutando e morrendo na Guerra Sem Fim

Brian Castner*

  • Marinha dos EUA/Reprodução

    Scott Dayton se tornou o primeiro membro das Forças Armadas dos Estados Unidos a morrer no conflito na Síria

    Scott Dayton se tornou o primeiro membro das Forças Armadas dos Estados Unidos a morrer no conflito na Síria

Milhões de militares veteranos serviram em múltiplos turnos. Por que continuam voltando?

Em novembro de 2016, o suboficial chefe da Marinha, Scott Dayton, se tornou o primeiro membro das Forças Armadas dos Estados Unidos a morrer no conflito na Síria. O chefe Dayton foi morto por uma bomba improvisada no norte do país, durante uma ação contra o Estado Islâmico. Ele era um técnico em desarme de munição explosiva, membro da unidade de elite do esquadrão de bombas, assim como fui, e todos os chamavam de Scotty. Ele deixou uma esposa e dois filhos. Ele tinha 42 anos.

Quarenta e dois. Scotty serviu 24 anos, a maioria deles em guerra e ele o fez por opção. Nos dias após sua morte, eu conversei com vários de seus amigos e companheiros técnicos do desarme de explosivos, para perguntar por que ele fez essa escolha, voltar após já ter completado pelo menos cinco turnos de serviço no Iraque e no Golfo Pérsico. Todos deram basicamente a mesma resposta e, se você estiver tão esgotado de guerra quanto eu, poderá se surpreender ao ouvir: Scotty queria ir para a Síria, eles me disseram, para por um fim à longa luta, fazer sua parte até o trabalho ser concluído.

O mais longo conflito na história americana (do Afeganistão ao Iraque, até missões envolvendo alvos de grande valor por toda a África e Oriente Médio) resultou no primeiro uso sustentado pelo país de forças armadas totalmente voluntárias, ferindo e matando mais e mais militares que lembram Scotty: pais, cônjuges, homens e mulheres de carreira.

Em comparação às mortes da Guerra do Vietnã, a idade média de nossos mortos no conflito atual e a proporção dos que são casados subiram 20%. E essa tendência está acelerando, à medida que o fardo do combate é transferido cada vez mais às forças altamente treinadas de contraterrorismo, mais velhas.

Como o "Times" noticiou recentemente, dos 18 militares mortos em combate desde 2016, 12 eram de tropas das Operações Especiais como Scotty.

Nosso país criou um grupo seleto por conta própria e calejado em combate de viajantes frequentes, um que está quase totalmente separado da cultura civil normal. Porque servir na Guerra Sem Fim, como muitos de nós a chamam, não se trata de ir, mas de retornar. Segundo dados fornecidos pelo Centro para uma Nova Segurança Americana, dos 2,7 milhões de veteranos do Iraque e Afeganistão, metade realizou múltiplos turnos de serviço. Mais revelador, 223 mil serviram pelo menos quatro vezes, e 51 mil serviram seis ou mais vezes.

A Guerra Sem Fim dificilmente acabará tão cedo e para aqueles que não servem nas Forças Armadas, o serviço voluntário contínuo nesse conflito perpétuo pode ser difícil de entender.

Explicações populares (perspectivas ruins de emprego, sedução pelas oportunidades de educação, impetuosidade da juventude) não resistem a um maior escrutínio. O desemprego voltou a níveis baixos históricos, há muitas formas de cursar uma faculdade que não envolvam combate prolongado, e por experiência própria, a bravata acaba assim que você se depara com a carnificina de uma explosão de bomba em um playground. Ninguém realmente quer voltar para ver mais daquilo.

Então por que Scotty continuou a exercer um dos trabalhos mais exigentes e perigosos das Forças Armadas americanas, ainda mais na Síria, quando poderia ter se aposentado anos atrás?

"Ele queria permanecer na luta", disse um atual membro da sua unidade de remoção de explosivos que, como todos seus companheiros do serviço ativo, pediu para que seu nome não fosse citado. "Não para ser audacioso, mas liderar os homens. É o serviço."

O trabalho de desarme de munição explosiva é um que busca salvar vida, não matar. Não é simplesmente um id selvagem, mas sim um id nobre, explorado no interesse de proteger outros. No Iraque e no Afeganistão, muitos artefatos explosivos visam ferir civis. Toda bomba é desarmada, independente de qual seja o alvo, e ao fazê-lo o país se torna um pouco mais seguro para todos.

O trabalho muda um pouco, quando se faz parte de uma equipe das Operações Especiais, como Scotty quando morreu. O técnico de desarme de explosivos se torna o defensor de alguns dos homens mais durões produzidos pelas Forças Armadas de nosso país. Ele ou ela precisa fazer de tudo o que uma força de assalto faz (descer da rapel do helicóptero, liberar um sala, pegar o alvo), mas de trás para frente. Em vez de fugir de uma bomba, o técnico corre até ela.

"Scotty podia admitir quando estava com medo", disse Clay Swansen, um velho amigo, "mas nunca recuava". Os técnicos em explosivos sempre preferem máxima distância e tempo quando desarmam um artefato, mas durante uma incursão, você não dispõe de nenhum dos dois. O trabalho sempre é feito à mão, em segundos.

"Quando você faz um trabalho desses", disse outro chefe, "você aceita as probabilidades. O padrão é a morte. Não se trata de bravata. Isso é coisa de criança. Trata-se de funcionalidade e responsabilidade."

Infelizmente, é apropriado que um técnico em desarme de explosivos seja a primeira baixa militar americana da guerra na Síria. Desde que bomba à beira de estrada se tornou sinônimo de terrorismo, os homens e mulheres que as desarmam passaram a exercer um papel central na chamada Guerra ao Terror. Em resposta, a guerra extraiu um número enorme de quilos de carne. Há apenas poucos milhares de nós, mas Scotty foi 133º técnico morto desde o 11 de Setembro.

Amigos descreveram Scotty como engraçado e humilde, mas também altamente protetor. "Ele queria ser o sujeito à frente na direção do perigo, para que outros não precisassem", disse outro companheiro. "Os mais experientes de nós não ficam à vontade enviando novatos sozinhos na direção do perigo."

Os novatos correriam risco ainda maior por carecerem de experiência. Vários membros da unidade de Scotty me disseram que apenas cerca de duas dúzias de técnicos em desarme de explosivos têm qualificações e experiência para realização de suas missões clandestinas na Síria. Scotty retornou ao combate porque a lista de voluntários era curta, ele poderia proteger seus companheiros mais jovens e cumprir seu dever no Iraque.

"Não se trata de vingança", disse outro chefe, "mas temos um negócio inacabado".

Em nossa guerra atual, homens e mulheres das Forças Armadas americanas já foram mortos em combate no Afeganistão, no Iraque, no Paquistão, na Líbia, nas Filipinas, na Jordânia, no Iêmen e, agora, na Síria.

É difícil chegar à lista completa. As guerras prosseguem há tanto tempo que nós americanos já tivemos tempo de comemorar e depois protestar, então comemorar de novo quando achávamos que poderiam acabar, e então esquecer quando não acabaram.

Enquanto isso, nosso país tem treinado homens e mulheres nas forças armadas para que nunca desistam. Para muitos dos que serviram e então optam por voltar para outro turno, e depois outro, há significado em viver de acordo com esse padrão.

*Brian Castner é um oficial de desarme de munição explosiva e autor de "The Long Walk" e "All the Ways We Kill and Die" , ou "A longa caminhada" e "Todas as formas que matamos e morremos", ambos em tradução livre, não lançados no Brasil.

 

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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