O trabalho em fábricas exploradoras retira as pessoas da pobreza?

Christopher Blattman e Stefan Dercon

  • A.M. Ahad/AP

    20.abr.2015 - Funcionárias trabalham em fábrica de confecções em Savar, Bangladesh

    20.abr.2015 - Funcionárias trabalham em fábrica de confecções em Savar, Bangladesh

Um experimento em fábricas na Etiópia oferece algumas lições

Nos anos 1990, os americanos tomaram conhecimento das péssimas condições nas fábricas onde nossos tênis e camisetas eram fabricados, aumentando a oposição às "sweatshops" (oficinas-suadouro, fábricas em que os empregados são explorados). Mas alguns economistas reagiram. Para eles, os salários e condições nas "sweatshops" podiam ser ruins, mas eram uma melhoria em comparação à menos visível pobreza rural das pessoas.

Como disse a economista Joan Robinson: "A miséria de ser explorado por capitalistas não se compara à miséria de nem mesmo ser explorado".

A economia nos livros didáticos oferece dois motivos para empregos em fábricas poderem ser "escadas rolantes para saída da pobreza". Primeiro, um setor industrial passando por boom deve elevar os salários com o passar do tempo. Segundo, com ou sem boom, os empregos fabris podem ser melhores do que as alternativas: diferente da agricultura ou de vendas no mercado informal, essas fábricas pagam um salário estável, e se os trabalhadores adquirirem capacidades valorizadas pelo mercado, podem vir a ganhar salários ainda mais altos. As fábricas também podem ter incentivos para pagar mais do que o trabalho no setor agrícola ou informal para persuadir os trabalhadores a permanecerem e ser produtivos.

Na esperança de provar que os especialistas estavam certos, nós fomos à Etiópia, trabalhando com a Inovações para a Ação Conta a Pobreza e com o Instituto de Pesquisa de Desenvolvimento da Etiópia, e realizamos o primeiro teste aleatório de emprego industrial com trabalhadores. Mas não imaginávamos que tudo aquilo em que acreditávamos provaria estar errado.

Nós escolhemos a Etiópia porque sua pequena indústria exportadora está começando a passar por um boom. Ela oferecia uma chance de ver quais efeitos esses empregos teriam nos estágios iniciais da industrialização. Além de exportadores locais, muitas empresas chinesas, indianas e europeias estão abrindo fábricas na Etiópia, produzindo de tudo, de roupas a flores.

As fábricas pareciam profissionais e limpas. Sempre que uma nova fábrica abria, víamos longas filas de candidatos a empregos, a maioria mulheres jovens solteiras. Os gerentes das fábricas apoiavam nosso estudo, porque compartilhavam nosso otimismo em relação aos empregos.

Como havia mais candidatos qualificados do que empregos, tínhamos uma oportunidade perfeita para um teste aleatório. Cinco empresas, uma engarrafadora de bebidas, uma fábrica de roupas, uma fábrica de calçados e duas operações industriais de estufa, concordaram em contratar candidatos qualificados por meio de uma loteria. Nós acompanhamos os 947 candidatos aos quais foi ou não oferecido o emprego durante um ano, os entrevistando múltiplas vezes.

Para nossa surpresa, a maioria das pessoas que conseguiu um emprego industrial logo mudou de ideia. A maioria pediu demissão nos primeiros meses. Elas acabaram fazendo o que aqueles que não obtiveram uma oferta de emprego faziam: voltavam para a fazenda da família, arrumavam um emprego no setor de construção ou vendiam produtos no mercado.

Contrariando as previsões dos especialistas (e as nossas), largar o emprego foi uma decisão sábia para a maioria. Afinal, as alternativas não eram tão ruins: as pessoas trabalhando na agricultura ou no mercado ganhavam tanto dinheiro quanto ganhariam na fábrica, com frequência trabalhando menos horas e em condições melhores. Ficamos surpresos: ao final do ano, apenas um terço das pessoas que obtiveram um emprego industrial ainda estava empregado no setor.

Seria fácil ver isso como a tentativa e erro normal de jovens iniciando carreiras, mas na verdade os empregos fabris envolviam riscos maiores. Ferimentos sérios e invalidez foram quase o dobro entre aqueles que aceitaram os empregos fabris, um aumento de cerca de 4% para 7%. Esse risco aumentava a cada mês que permaneciam. As pessoas que entrevistamos nos contaram sobre exposição a vapores químicos e lesões por esforço repetitivo.

Por que as pessoas faziam fila por empregos perigosos? Em parte porque não tinham conhecimento dos riscos ou de quão árduo era o trabalho até começarem. Outras previam riscos, mas usaram o trabalho fabril como uma rede de segurança em tempos difíceis. As pessoas que permaneceram por mais tempo tinham menos alternativas.

Tivemos que ser cuidadosos em não generalizar a partir das cinco empresas em um único país, mas este estudo ainda assim moldou nossa posição a respeito do trabalho fabril. A industrialização não é uma solução rápida. A primeira defesa da indústria provavelmente ainda vale: com o passar do tempo, um setor em 'boom' tende a melhorar as condições de trabalho e a pagar melhores salários à medida que mais empresas disputam trabalhadores. Mas o caminho até lá não é suave. A curto prazo os trabalhadores parecem compartilhar poucos benefícios e mais o fardo pesado dos riscos, um fardo carregado pelos desesperados e desinformados.

Nós não testamos soluções, mas a história e nossas experiências nos deram ideias.

Uma lição inesperada é que as empresas precisam de melhor gerência média. Os donos de fábricas e investidores nos disseram que a alta rotatividade de funcionários era sua maior preocupação e que encontrar bons gerentes para reduzi-la era sua maior dor de cabeça. Nós tivemos a mesma impressão dos gerentes, especialmente quando nosso estudo parecia trazer mais organização ao processo de contratação do que as empresas tinham visto antes. Coletar o nome de todos os candidatos, realizar uma triagem básica, informar as pessoas sobre o trabalho e o salário, tudo isso era novo para a maioria dos gerentes que conhecemos.

A história nos diz para esperar que as práticas administrativas e as condições de trabalho melhorem com o passar do tempo. A alta rotatividade de funcionários certamente foi onerosa nos Estados Unidos e na Europa há um século. Em 1913, a Ford Motor Company registrava taxas de rotatividade acima de 300%. Os salários eram ruins e o trabalho era pesado, de modo que os funcionários partiam em grande número. Muitas das estratégias modernas de gestão nas quais pensamos a respeito de eficiência fabril começam com tentativas de redução dessa rotatividade. No final, elas ajudam a tornar essas empresas locais de trabalho melhores. "Melhor gestão de recursos humanos" não é a estratégia de desenvolvimento econômico mais atraente, mas com certeza é eficaz.

Uma segunda solução possível é sistemas de bem-estar social e redes de segurança. Com eles, pessoas desesperadas não são forçadas a arriscar sua saúde em fábricas mal administradas. Um aspecto de nosso estudo colocou essa ideia em teste. Nós oferecemos a alguns candidatos que não conseguiram um emprego em fábrica um pacote de treinamento e dinheiro para abertura de um negócio. Essas pessoas expandiram sua produção agrícola ou venda no mercado, elevaram sua renda em um terço e não sentiram necessidade de recorrer a empregos fabris. Como outros países pobres, a Etiópia está experimentando vários esquemas de seguridade social. Isso deve continuar.

Para que países pobres se desenvolvam, simplesmente não conhecemos nenhuma alternativa à industrialização. Quanto mais cedo isso acontecer, mais cedo o mundo colocará fim à pobreza extrema. Ao olharmos nossos resultados, ficamos em conflito: não queremos ver trabalhadores expostos a condições perigosas, mas também nos preocupamos de que uma regulamentação ou melhoria dos empregos em excesso ou rápido demais impeça que o boom industrial aconteça.

É um caminho difícil de percorrer. Mas o apoio a sistemas de seguro e encorajar as empresas a adotarem estratégias modernas de gestão, assim como proteções aos trabalhadores, pode ser uma forma de percorrer esse caminho de forma mais rápida e mais segura.

*Christopher Blattman é um professor do Instituto Pearson para o Estudo e Solução de Conflitos Globais e da Escola Harris de Políticas Públicas da Universidade de Chicago. Stefan Dercon, professor da Escola Blavatnik de Governo e do departamento de economia da Universidade de Oxford, é autor de "Dull Disasters?: How Planning Ahead Will Make a Diference", ou "Desastres Tolos? Como planejamento antecipado fará a diferença", em tradução livre, ainda não lançado no Brasil.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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