Opinião: Terrorismo captura a atenção pública e manipula as nossas emoções

Kenan Malik*

Em Londres (Inglaterra)

  • DARREN STAPLES/REUTERS

Sem perspectivas reais de progresso social, as nações modernas apenas se tornarão mais vulneráveis a atos aleatórios de violência por desajustados insanos

Sou de Manchester. Frequentei a escola na cidade. Fui a inúmeros concertos musicaise. Tenho uma filha adolescente que está começando a ir a shows. Assim, de todos os ataques terroristas dos últimos anos, o atentado a bomba no concerto de Ariana Grande em Manchester, na noite de segunda-feira, um concerto cujo público era em sua maioria adolescente, me afetou de forma particularmente perturbadora. Muitos pais devem estar se sentindo da mesma forma.

Todo ataque terrorista é bárbaro. Buscar deliberadamente infligir assassinato em massa a um grupo de crianças é realmente inconcebível. A declaração do Estado Islâmico reivindicando a responsabilidade pelo ataque se gabava da "colocação de artefatos explosivos no meio de encontros de cruzados". Seria surrealmente absurdo se não fosse tão dolorosamente obsceno.

Os grupos terroristas do passado, como o Exército Republicano Irlandês (IRA), que realizou um atentado a bomba contra o principal shopping de Manchester em 1996, usavam o terror como meio para um fim político. O mesmo não vale para os jihadistas atuais. Para eles, o terror é um fim em si mesmo, cuja única meta é infligir dor e provocar medo. O que mais foi o ataque em Manchester?

Eu já escrevi antes sobre as linhas cada vez mais indistintas que separam a violência ideológica da fúria sociopática. Agora há o que poderíamos chamar de "estado mental jihadista", no qual uma mistura de desengajamento social, dissolução moral, misantropia imotivada e fúria incipiente leva alguns a verem as expressões mais abomináveis de violência como sendo uma espécie de revolta.

É um estado mental que encontra sua forma mais vil e bárbara no terror islâmico. Mas não é apenas no terror islâmico que ela encontra expressão.

Neste mês, um britânico de 20 anos chamado Damon Smith foi declarado culpado de plantar uma bomba caseira cheia de rolamentos de esferas em um trem do metrô de Londres. A polícia descobriu em seu apartamento páginas picadas de um artigo da revisa "Inspire", ligada à Al Qaeda, "Faça uma Bomba na Cozinha de sua Mãe". Mas não havia nada que conectasse Smith a qualquer rede extremista.

Ele não se considerava muçulmano e só esteve dentro de uma mesquita como turista na Turquia. Ele sofria de problemas comportamentais e teria sido diagnosticado como portador de síndrome de Asperger. Bombas eram "algo que faz quando está entediado", escreveu um psiquiatra em sua avaliação de Smith.

Damon Smith não era um jihadista no sentido convencional da palavra. Mas habitava esse estado mental jihadista.

O mesmo vale para o nacionalista branco, Dylann Roof, quando matou a tiros nove fiéis afro-americanos em uma igreja em Charleston, Carolina do Sul, em 2015. Segundo um recém-publicado relatório psiquiátrico pedido pelo tribunal, "a melhor forma que ele encontrou para explicar seu pensamento é a analogia de ser um jihadista".

Precisamos confrontar o jihadismo não apenas no sentido estreito de prevenir atos de terrorismo, mas também lidar de modo mais amplo como o estado mental jihadista. Suas causas são profundas e complexas. As portas corta-fogo morais contra comportamento desumano estão fragilizadas. A influência de instituições da sociedade civil que ajudam a criar laços sociais, das igrejas aos sindicatos, enfraqueceu. Assim como a dos movimentos progressistas que costumavam dar forma política às queixas sociais.

Agora existem rachaduras por onde brotam indivíduos furiosos, habitando o espaço além dos limites morais normais. Ali, eles podem encontrar no islamismo ou no nacionalismo branco um escape para seus demônios e uma justificativa distorcida para suas ações.

Também precisamos pensar mais profundamente em nossas respostas imediatas aos atos de terror. O terrorismo é uma forma de teatro. Particularmente para o terrorismo islâmico contemporâneo, o que importa é apenas o espetáculo. Quanto mais depravado o espetáculo, mais ele atinge sua meta.

Assassine alguém em uma rua de Manchester e isso aparecerá na imprensa local. Mate duas dúzias de pessoas em nome de Alá em um concerto para adolescentes e se transforma em notícia mundial. Detone uma bomba em uma base militar e o choque passa rapidamente. Ataque uma escola ou um playground e isso parece despedaçar a própria ideia de segurança e inocência.

O terrorismo se trata de capturar a atenção pública e manipular nossas emoções. Quando as emissoras de TV exibem uma repetição incessante de vídeos de pessoas em pânico, pais angustiados e crianças perturbadas, elas criam o próprio espetáculo almejado pelos terroristas. É preciso que haja cumplicidade entre o terrorismo e seu público. Isso é uma coisa que o presidente Trump entende.

"Não os chamarei de monstros porque eles gostariam do termo", ele disse nesta semana. Ele os chamaria de "perdedores malignos".

A resposta mais reconfortante, como geralmente ocorre em circunstâncias trágicas, veio da população local de Manchester. Pessoas comuns realizando feitos bastante humanos tramados na tapeçaria da solidariedade. Os médicos que correram para o local. Os taxistas que transportaram as pessoas gratuitamente. Os moradores que abriram suas casas para quem precisasse de abrigo. As dezenas de milhares que foram ao centro da cidade no dia seguinte para realizar uma vigília.

Mesmo assim, após todo ultraje terrorista há atos de solidariedade e cerimônias à luz de velas. Isso ocorrerá após a próxima atrocidade. O risco é que acabem se transformando em mero ritual.

Há a revolta inevitável, assim como o amor e pesar. Isso não é ruim. Também fico furioso. Mas como vemos no próprio terrorismo, a fúria não canalizada, a fúria que não tem forma pelos mecanismos do progresso, podem facilmente se tornar cegamente sectárias e perigosamente misantrópicas.

O desafio que enfrentamos é reconstruir as organizações da sociedade civil e os movimentos em prol de mudanças sociais que podem não apenas perfurar o estado mental jihadista, como também canalizar o pesar, amor e fúria com o terrorismo em esperança política.

*Kenan Malik (@kenanmalik) é autor, mais recentemente, de "The Quest for a Moral Compass: A Global History of Ethics", ou "A busca por uma bússola moral: uma história global da ética", em tradução livre, ainda não lançado no Brasil
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos