Com saída de cardeais conservadores, qual será o próximo ato do papa Francisco?

Ross Douthat

  • Tony Gentile /Reuters

    16.jul.2017 - O papa Francisco acena para multidão na praça São Pedro, no Vaticano

    16.jul.2017 - O papa Francisco acena para multidão na praça São Pedro, no Vaticano

Pelos padrões do papado de Francisco, as coisas estiveram tranquilas em Roma por boa parte de 2017. A grande controvérsia dos dois anos anteriores, que foi o debate sobre a comunhão para os divorciados e divorciados em nova união, havia entrado em uma espécie de impasse, com bispos do mundo todo discordando e o próprio papa mantendo-se deliberadamente em silêncio. Um longo ato do pontificado parecia ter terminado; a questão era o quanto de drama ainda viria pela frente.

O mês passado rendeu um tanto. Em uma rápida sequência, quatro importantes cardeais foram tirados de cena. O primeiro, George Pell, era encarregado das reformas financeiras do papa e um grande oponente da comunhão para divorciados em nova união. Ele voltou para sua nativa Austrália para responder a acusações de abuso sexual —acusações que ou representam uma revelação culminante dentro do triste balanço da igreja nessa questão, ou senão (como os defensores de Pell insistem) um sinal de que o escândalo sobre o abuso se tornou licença para uma caça às bruxas jurídica.

O segundo cardeal, Gerhard Mueller, era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o órgão encarregado de salvaguardar a doutrina católica. Muitas vezes deixado de lado por Francisco, pisou em ovos ao tratar do documento do papa sobre o casamento, "Amoris Laetitia", insistindo que ele não mudava os ensinamentos da igreja sobre novos matrimônios e os sacramentos ao mesmo tempo em que minimizava os sinais de que o próprio papa pensava diferente. Seu mandato de cinco anos estava chegando ao fim; eles costumam ser renovados, mas o dele não foi, e de uma maneira tão brusca que o alemão geralmente circunspecto reclamou publicamente.

O terceiro cardeal, Joachim Meisner, era um arcebispo aposentado de Colônia e amigo de longa data de Bento 16. Ele foi um dos signatários da dubia —as perguntas públicas que quatro cardeais fizeram no ano passado para Francisco sobre a "Amoris Laetitia", na prática questionando sua ortodoxia. Ele morreu dormindo aos 83 anos de idade, pouco depois que Mueller, seu compatriota, o chamou para dar a notícia de que havia sido dispensado.

O quarto, Angelo Scola, era outro confidente de Bento 16 e um dos principais candidatos ao papado no último conclave. Ele se aposentou como arcebispo de Milão cinco dias após a saída de Mueller.

Essas quatro saídas tão diferentes entre si têm um efeito conjunto: elas enfraquecem a resistência a Francisco nos níveis mais altos da hierarquia. E levantam a questão que enfrenta o restante de seu pontificado: com a oposição de alto nível diluída e a visão de Bento/João Paulo 2º em declínio, quão longe o papa pretende chegar?

Está bem claro que Francisco tem amigos e aliados que querem que ele avance rapidamente. Eles veem a ambígua mudança sobre o divórcio e os novos casamentos como prova de conceito de como a igreja pode mudar em uma gama mais ampla de assuntos, onde recentemente fizeram incursões e apelos, como intercomunhão com protestantes, padres casados, relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, eutanásia, mulheres na função de diácono, controle de natalidade artificial, e outros.

O mesmo vale para a política, onde a evidente hostilidade do papa em relação ao populismo de Trump tem sido potencializada por alguns de seus amigos em uma crítica abrangente a qualquer envolvimento católico com a direita, e especialmente a aliança católica americana com protestantes evangélicos.

E também em questões litúrgicas, onde dizem que a abertura de Francisco para a Fraternidade Sacerdotal de São Pio 10, o grupo semi-cismático que celebra a Missa Latina, poderia primeiro levar à reintegração da Fraternidade e depois à supressão da liturgia pré-Vaticano 2º para todos os outros —na prática usando a Fraternidade para isolar o tradicionalismo.

Se até o momento o pontificado de Francisco tem sido uma espécie de revolução pela metade, com suas ambições um tanto hesitantes e suas mudanças ambíguas, esse tipo de ideia tornaria a revolução muito mais ampla.

Mas o próprio papa continua mais cauteloso do que seus amigos —os homens que ele nomeou para suceder Mueller e Scola são moderados, não radicais— e também talvez mais imprevisível.

Seus nomeados mais progressistas podem sair à sua frente, como no caso de Charlie Gard, o bebê inglês cujos médicos e o governo britânico não querem deixar seus pais pagarem por um tratamento com poucas chances de sucesso. A Pontifícia Academia para a Vida repaginada do papa, que agora aceita membros favoráveis ao aborto e à eutanásia, emitiu uma declaração que parecia apoiar o governo e não os pais. Mas logo depois, Francisco interveio em apoio aos direitos dos pais, criando uma correria um tanto defensiva por parte de seus aliados.

Esse pequeno exemplo ilustra uma questão mais ampla. Nós sabemos que Francisco é um papa progressista, mas fora o debate sobre o casamento de divorciados não sabemos que prioridade ele dá a qualquer objetivo católico liberal.

Entre muitos progressistas existe uma ambição palpável, uma sensação de que uma oportunidade ampla de derrotar o catolicismo conservador pode finalmente estar ao alcance. Mas existe também uma ansiedade palpável, já que o futuro a longo prazo da igreja não é obviamente progressista —não com o crescimento da igreja na África e seu encolhimento na Europa, um sacerdócio cujos membros mais jovens muitas vezes são bastante conservadores, e poucos indícios de que a era Francisco tenha trazido qualquer renovação repentina.

Quanto o próprio Francisco compartilha desses dois sentimentos, seja a ambição ou a ansiedade? O próximo ato desse papado dirá.

Tradutor: UOL

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