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Opinião: Fui negado a entrar na Cisjordânia porque sou um defensor dos direitos humanos

Soldados israelenses na entrada da vila Deir Abu Mashal, na Cisjordânia - Foto: AFP/Arquivos
Soldados israelenses na entrada da vila Deir Abu Mashal, na Cisjordânia Imagem: Foto: AFP/Arquivos

Raed Jarrar

28/11/2017 00h01

Meu pai, Azzam Jarrar, morreu no mês passado. Ele era um palestino orgulhoso, um refugiado, um engenheiro civil, agricultor e empresário. Também era meu amigo e mentor. Ele me ensinou a tabuada de multiplicação no trajeto para a escola na Arábia Saudita. E me ajudou a terminar meu mestrado quando eu morava na Jordânia. Acima de tudo, porém, ele foi o portal para minhas origens e minha identidade palestina.

Meu pai fugiu de casa com sua família em 1967, quando soldados israelenses invadiram e ocuparam a Cisjordânia. Ele foi primeiro para a Jordânia e depois para o Iraque, onde eu nasci. Fui o primeiro Jarrar a nascer a leste do rio Jordão desde que nossa família se estabeleceu em terras palestinas, séculos atrás. 

Não tive a oportunidade de visitar meus parentes na Cisjordânia até 2015, quando estive lá em uma rápida viagem de trabalho, para uma organização não governamental quacre. Fazer parte da diáspora significou que eu não tive a oportunidade de me conectar com a terra e as pessoas. Minha única conexão com a história de minha família foi por meio de antigas histórias e algumas fotos desbotadas que meu pai levou consigo quando partiu, ainda adolescente.

Foi por isso que depois que meu pai morreu, na Jordânia em outubro, era tão importante para mim visitar minha família expandida na cidade de Jenin, para vivenciar o luto com eles. Infelizmente, fui impedido de fazê-lo pelo governo israelense.

Eu tinha visitado Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza ocupadas outras duas vezes depois da primeira viagem em 2015. Como a maioria dos palestino-americanos, fui interrogado na fronteira durante horas sobre minha família e minha vida pessoal, antes de ser admitido.

Minha última visita foi diferente. Dessa vez, as autoridades israelenses estavam principalmente interessadas no meu trabalho, apesar de eu deixar claro que minha companheira, Alli McCracken, e eu estávamos viajando como pessoas físicas para praticar o luto por meu pai e visitar meus parentes.

Sou diretor de defensoria para o Oriente Médio e o norte da África da organização de direitos humanos Anistia Internacional USA. Nessa capacidade, exerci um papel importante em uma nova campanha que parece ter chamado a atenção dos guardas de fronteira israelenses, uma campanha que pedia que os governos proibissem produtos dos assentamentos israelenses.

As autoridades que me interrogaram queriam saber por que a Anistia tem um problema com Israel. Eu tentei desviar a conversa para o serviço memorial a meu pai, mas eles insistiam em falar sobre o trabalho da organização. Alli, que também trabalha para a AI, foi igualmente interrogada durante muito tempo. Eles pegaram o telefone dela e leram as mensagens de texto. 

Depois de horas de idas e vindas, fui informado de que minha entrada estava sendo recusada por motivos de "ordem pública" e --acreditem ou não-- "prevenção à imigração ilegal". Eu telefonei para o consulado americano em Jerusalém e me disseram que as autoridades lá não poderiam fazer nada para me ajudar. 

Com base nas perguntas que me haviam feito, eu não tive dúvida de que essa negação de entrada era uma retaliação por meu trabalho. 

A AI acredita que os assentamentos de Israel representam um crime de guerra. Sob a lei internacional, os governos têm obrigação de não reconhecer ou ajudar em "situações ilegais". É por isso que a Anistia está pedindo que governos de todo o mundo, incluindo os EUA, cumpram essa lei e não permitam que empresas de Israel lucrem com a ocupação ilegal.

Israel parece ter negado minha entrada seguindo uma lei aprovada em março que proíbe a entrada no país de não cidadãos que reconhecidamente fazem "um apelo público de boicote a Israel".

Essa lei se refere não apenas ao boicote de artigos produzidos em Israel propriamente, mas também os produzidos nos assentamentos. Embora a AI peça que um governo proíba a importação desses bens --e não um boicote dos consumidores--, o governo israelense parece tratá-los da mesma maneira.

Meu pai adolescente, ao fugir de sua cidade meio século atrás, poderia ter imaginado que isto aconteceria com seu filho? Eu queria visitar a antiga escola dele e a casa dos meus avós.

Queria tocar as oliveiras em que ele trepava quando menino e comer hareeseh, minha sobremesa palestina preferida, feita de semolina e coco, na doceria no centro de Jenin. Será que ainda existe?

Não fiquei perturbado apenas por perder o serviço memorial a meu pai. Antes de sair dos EUA, eu disse a meu filho de 4 anos que ia viajar porque o avô dele tinha morrido.

Ele chorou muito. Então me perguntou se poderíamos plantar o avô de volta na terra e esperar que ele crescesse de novo. Eu lhe disse que não. Ele falou que ia usar sua imaginação.

Eu tentei usar minha imaginação por algum tempo enquanto era recusado na fronteira --tentei imaginar a terra de minha família onde eu não podia plantar meu pai de volta.

Quando voltei para casa, meu filho perguntou sobre a viagem, e eu tive de lhe contar que não consegui ir. Ele pareceu confuso. Eu não podia explicar os detalhes --meu trabalho, os assentamentos de Israel e a ocupação, suas leis injustas que sufocam a sociedade civil. Sei que terei de lhe falar sobre tudo isso algum dia. 

Não será uma história fácil de contar, não só por causa dos atos do governo israelense, mas por causa da inação do governo americano. Embora eu tenha tentado seguir em frente, meu próprio governo não agiu para proteger meus direitos a um tratamento igual e continua ajudando a sustentar os assentamentos ilegais, permitindo o fluxo de bens israelenses nos mercados americanos. 

Israel deve respeitar meu direito, e os direitos de outros, a realizar um trabalho pacífico de direitos humanos sem medo de represália. Se o governo de Israel concorda ou não com meu trabalho --e, é claro, eu sei que não--, ainda devo poder participar dessa atividade tão humana: viver o luto por meu pai e comemorar sua vida. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves