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Mortes na construção do Itaquerão não foram acidentes

Antônio Ramalho

Antônio Ramalho

64 anos, é deputado estadual (PSDB-SP) e presidente do Sintracon-SP (sindicato da construção civil)

Especial para o UOL

19/04/2014 06h00

Nos últimos meses, uma terrível realidade se apresentou para os brasileiros: vivemos em um país onde as vitrines eleitorais estão acima da vida dos nossos trabalhadores. Fábio Hamilton Cruz, morto em março, após cair de uma altura de 15 metros, não é a primeira vítima dessa realidade. É apenas a mais recente.

Enquanto a presidente Dilma Rousseff tenta fazer o povo brasileiro acreditar que faremos “a Copa das Copas”, como ela diz, oito trabalhadores da construção civil já perderam suas vidas para a falta de planejamento e a ausência de uma real preocupação com as condições de trabalho nas obras dos estádios.

Com a data de abertura da Copa do Mundo se aproximando, o direito à dignidade humana e o respeito à vida como bem supremo de todo e qualquer ser humano são conceitos esquecidos. Os relatos de excesso de carga horária nas obras do Itaquerão já aparecem desde a morte de dois trabalhadores ocorridas em novembro.

Agora, a família de Fábio já relata que ele estava trabalhando seis dias por semana e recebera oferta da empresa para trabalhar sete, sem descanso. Em vez de aumentarem o número de trabalhadores na obra, os empresários acham mais barato explorar as necessidades dos operários que aceitam cargas de trabalho maiores do que podem aguentar com concentração e cuidado.

Frente a isso, não posso chamar a morte de Fábio de “acidente”, muito menos culpar a vítima – como logo se apressaram alguns. O fato é que trabalhador bem equipado, bem treinado e em condições de trabalho dignas não sofre acidente.

Os direitos trabalhistas foram conquistas que resultaram de árduas lutas dos trabalhadores brasileiros. Não podemos aceitar que a vida e a dignidade desses trabalhadores estejam abaixo dos interesses econômicos, políticos e eleitorais que envolvem a Copa. 

Como explicar um evento que já chega perto do custo de R$ 20 bilhões não oferecer condições seguras de trabalho para aqueles que estão construindo os palcos dos espetáculos? A resposta pode vir dos filhos órfãos, das mães tristes ou das viúvas desses oito trabalhadores da construção civil: onde prevalecem os interesses econômicos e políticos dos mais poderosos, a corda estoura do lado mais fraco e as vidas dos trabalhadores não são prioridades.

Afinal, qual o preço que o Brasil está disposto a pagar pelas decisões tomadas com vistas ao lucro fácil e ganhos políticos? Tenho certeza que nenhum trabalhador gostaria de pagar com a própria vida.

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