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MST não é um 'caso de polícia', mas sim uma referência política

Frei Betto

Frei Betto

70 anos, é escritor, autor de "O que a vida me ensinou" (ed. Saraiva), entre outros livros

Especial para o UOL

10/12/2014 06h00

“La lunga marcia dei senza terra – dal Brasile al mondo”(A longa marcha dos sem terra – do Brasil ao mundo) é o título do livro sobre o MST lançado na Itália, em novembro, pela editora EMI, de Bolonha. Assinam a obra Claudia Fanti, Marinella Correggia e Serena Romagnoli.

Desde 1984, quando o MST foi fundado, editaram-se muitos livros abordando sua luta pela reforma agrária no Brasil e por uma nação menos desigual e mais justa. Convém lembrar que, de todos os países das Américas, somente no Brasil e na Argentina jamais houve reforma da estrutura fundiária.

O MST é, hoje, o mais importante movimento social brasileiro. O livro lançado na Itália é, sem dúvida, uma das obras mais consistentes e bem documentadas sobre o movimento dos agricultores sem terra, seja pela abrangência, seja pelo fato de ter como fontes primárias depoimentos de militantes protagonistas dessa história, que já dura 30 anos.

As autoras tiveram o cuidado de contextualizar o MST na história do Brasil e na atual conjuntura política e econômica de nosso país. Resgataram lutas sociais desde a colonização portuguesa, iniciada nos primórdios do século 16, que derrubam o mito de que o povo brasileiro é apático e passivo frente à opressão: Quilombos, Canudos, Coluna Prestes, Ligas Camponesas, resistência à ditadura militar (1964-1985), Comissão Pastoral da Terra etc.

O MST congrega, hoje, milhares de famílias expulsas de suas terras pela ganância do latifúndio, pela expansão do agronegócio e devido a construção de barragens para a produção de energia elétrica. O movimento não surgiu por iniciativa de partidos políticos ou da cabeça de “intelectuais orgânicos”.

Opinião - Frei Betto

  • Devido à profusão de mártires, o MST pode ser comparado aos três séculos iniciais da Igreja

    Frei Betto, escritor, sobre os massacres sofridos pelo movimento dos sem terra

Vinculado à Via Camponesa, de expressão internacional, o MST resultou da luta específica de trabalhadores da agricultura familiar por direitos ameaçados, como foi o caso dos mil dias de resistência na Encruzilhada Natalino, no sul do Brasil, a partir de 1981. Ali, estive prestando a minha solidariedade e ali fui cercado e intimidado pela Polícia Militar.

Se há um movimento cuja história, no curto período de três décadas, pode ser proporcionalmente comparado aos três séculos iniciais da Igreja, devido à profusão de mártires, é o MST. Massacres como os de Eldorado dos Carajás e Corumbiara, com dezenas de mortos e feridos, são “terra sagrada” regada pelo sangue de agricultores espoliados, que deram suas vidas pelo direito elementar de acesso a um pedaço de terra em um país de dimensões continentais.

Movimento de propostas

O MST não é apenas um movimento de ação. É também, como bem demonstra esta obra, um movimento de formação, de qualificação cultural de seus militantes e dos sem terrinha, as crianças nascidas e criadas em acampamentos e assentamentos.

Há uma ampla rede de escolas do campo, na qual alunos e alunas aprendem a partir da realidade em que vivem, e não apenas da lição impositiva dos livros didáticos que correspondem ao currículo oficial do ensino brasileiro. No município de Guararema, próximo à capital de São Paulo, a Escola Nacional Florestan Fernandes propicia formação política aos militantes, segundo uma perspectiva libertadora à luz do método pedagógico proposto por Paulo Freire.

Este livro culmina na análise das relações tensas entre o MST e os governos Lula e Dilma. Entre esperanças e desilusões, entre “pau e prosa”, na expressão de João Pedro Stedile, o movimento, que preserva seu caráter apartidário e laico, segue pressionando o poder público através da ocupação de terras ociosas e suas marchas e mobilizações.

O MST não é apenas um movimento de reivindicação e protesto. É também de iniciativas e propostas. Seus assentamentos rurais são transformados em verdadeiros laboratórios de uma futura sociedade emancipada. Ali, são desenvolvidos projetos cooperativos de agroecologia, agroindústrias, plantas medicinais, sementes livres de transgênicos e pesticidas, produção de alimentos orgânicos etc.

Hoje, o MST, através da Via Camponesa, mantém uma ampla rede mundial de solidariedade, da qual este livro é expressão primorosa. Até mesmo o Vaticano do papa Francisco se abre ao diálogo com ele, conforme documentam as autoras.

A longa marcha dos sem terranão é apenas um importante documento histórico. É um interessante relato de como pessoas e famílias empobrecidas, desprovidas de bens essenciais, como terra e moradia, são capazes de se transformar em sujeitos históricos e se tornar interlocutores que nenhum governo ou força política e econômica pode ignorar.

Por vezes tratado como “caso de polícia”, como bem descrevem as autoras, o MST é um exemplar caso de política, uma referência a todos que não cedem à cooptação da ideologia neoliberal, consumista e hedonista, e acreditam em “outros mundos possíveis”, em alternativas viáveis ao capitalismo e cujas sementes de futuro já começam a germinar e florescer.

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