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Esquecemos que policiais também precisam de proteção

A polícia brasileira tem fama de ser uma das corporações que mais matam no mundo. No último ano, foram ao menos 2 mil mortos, registrados como autos de resistência, essencialmente execuções extrajudiciais, 582 dessas ocorrências apenas no Estado do Rio de Janeiro.

É impossível chegarmos ao número exato, pois muitos Estados não querem ou não tem capacidade de levantar esses dados. Independente do motivo da incerteza, a situação choca.

Raramente, no entanto, as manchetes nos lembram que o Brasil também é recordista mundial em assassinatos de policiais. Apesar dessa estatística ainda ser imprecisa, em 2013 foram computados cerca de 490 assassinatos de policias: a cada 17 horas, um policial civil ou militar é morto no país. Ser policial no Brasil é, definitivamente, uma das profissões mais perigosas que existem por aí.

Mas nem todo policial corre igual risco de morte violenta. A maioria dos assassinatos de forças policias acontece nas corporações militar e civil de São Paulo e do Rio de Janeiro. E, por mais que Estados como Bahia e Maranhão não levantem esse dado, a maioria é morto fora de serviço.

Em alguns Estados, como o Rio de Janeiro, a situação está piorando. No primeiro semestre de 2015, ao menos 15 policiais militares foram mortos e outros 75 feridos e hospitalizados. Em 2014, mais de 114 policiais civis e militares foram assassinados na região metropolitana do Rio. A maioria deles não estava em serviço. Alguns deles estavam atuando como seguranças particulares.

De acordo com um estudo do ISP (Instituto de Segurança Pública), entre 2001 e 2014, cerca de 1.715 policiais militares foram assassinados no Estado do Rio. Usando o efetivo policial atual da PMERJ, isso equivale a taxa de 200 policiais mortos por 100 mil habitantes, quase dez vezes a média nacional. Dentre as vítimas recentes, 22 eram oficiais de UPPs.

Um dos caminhos para acabar com essa epidemia de violência no Brasil é focar em medidas de proteção tanto para policiais quanto para cidadãos. Mortes dos dois lados da equação são frequentemente justificadas como efeito colateral tolerável do Estado de guerra não declarada em que vivemos.

Claramente carecemos de investimentos no treinamento, no monitoramento e na responsabilização de nossas forças policiais. Mas nossos policiais também precisam de apoio.

Precisamos, no mínimo, monitorar melhor seus padrões de vitimização. Sistemas que identifiquem quando policiais estão sob estresse incapacitante, sofrem de doenças mentais, começam a incorrer em comportamentos de risco, como uso abusivo de álcool e drogas, ou a corromper-se são cruciais para a prevenção de violência.

Leis como a aprovada recentemente, que transforma o assassinato de policias em crime hediondo, só terão efeito se dermos prioridade para medidas concretas para lidar com os fatores de risco que levam tantos policias à morte.

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