Por acharmos que a água vem da torneira, crise hídrica só vai piorar

João Paulo Ribeiro Capobianco

João Paulo Ribeiro Capobianco

Especial para o UOL

Nos últimos dias de setembro deste ano, os cientistas da Nasa (Agência Espacial Norte-Americana), revelaram que manchas escuras fotografadas na superfície marciana trazem indícios concretos da existência de água corrente no planeta. Pouco antes do anúncio, os pesquisadores pediram que internautas lhes enviassem perguntas sobre a fantástica descoberta, com a hashtag AskNasa ("pergunte à Nasa"). Entre as milhares de perguntas oriundas de vários lugares do mundo, sete foram postadas por brasileiros. Uma delas, na forma de piada, acabou por expressar com sarcasmo como a questão da água está sendo aqui gerenciada: "Vão transferir a água de Marte para São Paulo?".

Quando penso na complexidade do problema da crise hídrica que acomete nossa maior metrópole, busco alguma orientação refletindo sobre a simples e arrebatadora frase do Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude: "A água pode agir sem o peixe. Mas o peixe não pode agir sem a água".

Essa frase contém em si a força para desnudar o problema, removendo as grossas camadas de informações e dados conflitantes e geralmente inúteis, que confundem quem sobre ele se debruça. De maneira simples, quase singela, ela tem o poder de revelar uma verdade: nossa crise hídrica foi fabricada exatamente por termos uma visão que desconsidera Tao Te Ching, ou seja, para nós o que importa é ter água, o resto é secundário. A ironia é que hoje nós somos justamente o resto. Somos os peixes que estão ficando sem água.

A região metropolitana de São Paulo é um caso exemplar de má gestão dos recursos hídricos. Água há. Basta verificar em qualquer mapa a existência de rios de bom tamanho como o Tietê e Pinheiros e uma vasta rede de rios menores e córregos drenando toda a região. Há ainda várias represas de grande porte, como a Guarapiranga e a Billings, e extensas áreas de mananciais, além do Sistema Cantareira –o maior deles em capacidade de produção.

Entretanto, a falta de planejamento e responsabilidade tem provocado a contaminação dos rios, córregos e represas, a ocupação desordenada das regiões de mananciais e a perda de um terço da água tratada, que se esvai nas tubulações mal conservadas.

Voltando ao Tao Te Ching, vejo que tudo que estamos fazendo diante da crise vai no sentido oposto ao que deveria orientar nossas ações.

Transformamos a água em um bem econômico, um produto a ser disponibilizado, mediante pagamento, nas torneiras dos usuários. No caso de São Paulo, criamos uma empresa de economia mista, a Sabesp, para executar essa tarefa. Muito simples e cômodo para ambos os lados. Para a empresa, quanto maior o consumo, maior o faturamento. Para quem usa nada a se preocupar, basta abrir a torneira e, depois, pagar a conta.

Esse modelo, no entanto, vai totalmente de encontro com a realidade de que a água não é um recurso natural qualquer, mas um bem comum essencial à vida. Tratar a água como produto tem profundas implicações éticas, pois contraria o princípio fundamental de que deveríamos ser com relação a ela cidadãos e não simples consumidores que passivamente terceirizam a gestão.

Nossos erros não param por aí. Conforme preconiza as Nações Unidas, um dos objetivos fundamentais da ética da água é manter a sua capacidade de sustentar ecologicamente o próprio recurso. Nesse sentido, os fatores ambientais deveriam ser adequadamente considerados nos processos decisórios que envolvem captação, distribuição e uso da água, uma vez que as outras espécies e ecossistemas também deveriam ser tratados como usuários legítimos, recebendo água em quantidade adequada para manter a sua saúde. E o que fazemos diante disso? De um lado esgotamos nossos reservatórios e mananciais e passamos a utilizá-los no limite do que, simbolicamente, chamamos de "volume morto". Não haveria denominação mais oportuna para a irresponsabilidade cometida.

Por outro lado, passamos a sofregamente implantar inúmeras obras sem estudo prévio de impacto, ou seja, sem considerar os fatores ambientais que determinam a sua qualidade e sustentabilidade.

Não me parece haver solução para essa crise que passamos que não seja pela mudança na percepção da sociedade que leve a ajustes profundos na forma de gestão da água, em que o setor público será parte importante, mas não a única, como é atualmente.

Precisamos assumir nosso papel de peixes nessa história e substituir o modelo tecnocrata, utilitarista e comercial que chegou ao requinte de propor que as informações sobre o sistema de abastecimento de São Paulo fossem classificadas como sigilosas.

Enquanto seguirmos com a ideia de que a água vem da torneira, e a Sabesp ganhar um dinheirão com isso, a crise hídrica só vai se agravar.

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João Paulo Ribeiro Capobianco

é biólogo e ambientalista, foi coordenador da campanha presidencial da Marina Silva (2014), secretário nacional de Biodiversidade e Florestas e secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente (2003 a 2008)

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