Medo da vida real aumenta risco de dependência da internet

Dora Sampaio Góes

Dora Sampaio Góes

Especial para o UOL

De todas as grandes revoluções da história mundial, nenhuma delas causou tantas mudanças na organização psicológica do homem, em relação ao seu meio e consigo mesmo, como a revolução das tecnologias da informação.

A chamada revolução da internet acarretou um espectro de consequências –positivas e negativas–, como um alcance de informação nunca registrado na história da humanidade, novas formas de vida e de relacionamentos interpessoais, além de diferentes necessidades e conflitos, comportamentos anômalos e prejudiciais aos receptores.

Gerou um fenômeno tecnológico inédito ao criar espaços virtuais de vivências e convivências e de indivíduos compartilhando realidades imaginárias em lugares também imaginários. A tela do computador é a "janela para o mundo".  O maior atrativo do novo modelo é a resposta rápida, as recompensas imediatas, a interatividade e as múltiplas atividades de divertimento e socialização.

A ampla gama de buscas que fazemos nas várias páginas abertas em nossos computadores, tablets e smartphones nos torna meros decodificadores de informações, diminuindo nossa capacidade de fazer conexões mais profundas devido à nossa distração com tanta oferta de conhecimento, compras, vida social etc.

Ao fazer pesquisas na net, nossa atividade cerebral é muito diferente da de quando estamos lendo um livro. Ao ler, nossa mente está mais relaxada e ativamos as áreas cerebrais relativas à linguagem, à memória e ao processamento visual.

Ao "surfar" na net, nosso cérebro apresenta grande atividade nas regiões ligadas à tomada de decisão e à resolução de problemas. Na prática, as atividades contínuas na internet comprometem progressivamente a capacidade do cérebro de focar a atenção, pois ele precisa avaliar os links, fazer escolhas constantes, e rápidas, de onde navegar, para onde ir e de como descartar o excesso de informação.

A internet, os smartphones e os jogos interativos contribuem para a qualidade de vida da população, porém trazem risco de dependência se algumas dessas ferramentas são utilizadas de forma incontrolada. Não podemos deixar de destacar que a adolescência e a juventude representam fases de maior risco no ciclo vital por suas características de impulsividade e de necessidade de pertencer a um grupo social.

Com o uso excessivo, começa a haver um distanciamento da realidade concreta do sujeito, ele passa a sentir suas emoções disfóricas (ansiedade, depressão e inquietude) anestesiadas, até que prefere as experiências virtuais em detrimento das reais.

Desse modo, qualquer comportamento desmedido em relação a alguma atividade pode desenvolver uma dependência, exista ou não uma substância atuando nessa relação. Assim sendo, as dependências comportamentais não deixam de ser um "divertimento" patológico que gera vício e restringe a liberdade do ser humano ao diminuir a amplitude de seus interesses na vida.

Fuga da realidade

O abuso e a dependência das tecnologias está diretamente ligado às variáveis psicossociais, tais como vulnerabilidades psicológicas, fatores estressantes e falta de suporte familiar e social. Uma pessoa pode usar seu smartphone ou a internet para alguma atividade prazerosa, porém uma pessoa adicta o faz por necessidade, buscando alívio de algum mal-estar emocional, com ansiedade, solidão, angústia, tristeza, tédio, irritação etc.

Além disso, várias pesquisas apontam que a maior experiência de prazer e satisfação da interação com a internet pode ser um preditor para a dependência, pois pode servir ao propósito de fuga das dificuldades da vida real. 

Os cybers espaços servem como refúgio, pois esses indivíduos dependentes apresentam dificuldade de enfrentar situações emocionalmente difíceis, ansiedade social e baixa tolerância a frustração. Eles acabam fazendo do mundo virtual a melhor forma de reduzir o estresse e o medo da vida real.

O uso abusivo e a dependência começam a se manifestar quando a utilização passa a interferir gravemente na vida cotidiana e se perde os interesses por outras atividades. Nessa etapa, a vida gira em torno da tecnologia utilizada em detrimento de qualquer outra ocupação, causando conflitos com familiares e prejuízo na vida como um todo. 

Dessa forma, é difícil engendrar conclusões sobre os impactos positivos ou negativos a longo prazo. O que sabemos é que essa ferramenta veio para ficar, além de acreditar que, como em outras revoluções da história, nós, seres humanos, levamos um tempo para assimilar as mudanças e se adaptar a elas, quase sempre através de acertos e erros.

A parte lamentável dessa evolução é que alguns indivíduos, provavelmente os jovens e as crianças, pagarão um alto preço até aprenderem a fazer um uso efetivo e racional dessa nova tecnologia. Porém, precisamos ficar atentos ao nosso entorno para poder ajudar essas pessoas a restabelecerem suas melhores capacidades de viver.

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Dora Sampaio Góes

47 anos, é psicóloga do programa de dependências tecnológicas do IPq (Instituto de Psiquiatria) do Hospital das Clínicas

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