É preciso fugir da estupidez da anarquia e da tirania

Antônio Carlos Costa

Antônio Carlos Costa

Especial para o UOL

Acabei de ler "Pequenas palestras sobre grandes temas", que apresenta uma coletânea de artigos do pensador polonês Leszek Kolakowski (1927-2009). Um dos melhores é o que trata sobre o tema do poder.

Kolakowski está longe de ser um anarquista, apesar de ter testemunhado no seu próprio país todo o horror do totalitarismo stalinista: "Na prática, a anarquia está a serviço da tirania". Por quê? Haverá sempre quem tentará se aproveitar da desorganização generalizada a fim de impor a própria ordem despótica.

Sendo quem somos, não há como vivermos sem o poder político: "O poder não pode ser abolido. Pode-se tão somente substituir um tipo de governo pior por outro melhor. Caso, por milagre, as instituições de poder político desaparecessem, o resultado não seria uma grande fraternidade, mas, sim, uma grande carnificina". 

Não haveria nada pior, contudo, do que sermos românticos quanto ao exercício do poder. Todos deveríamos partir do pressuposto que, "não houve e não haverá no sentido literal o poder do povo, uma vez que podem apenas existir variadas ferramentas com a ajuda das quais o povo olha as mãos do poder e está em condições de substitui-lo por outro".

Outro ponto que ele destaca é a vulnerabilidade do poder aos mais diferentes tipos de desvio: o poder eleito democraticamente também está sujeito à corrupção e nenhum governo consegue satisfazer a todos. 

Os que exercem função de poder estão expostos a profundas mutações pessoais, que corrompem seu caráter: "As pessoas que por algum tempo possuíram uma dose significativa de poder, ao final sentem que o poder lhes pertence por direito. Se, por algum motivo, as pessoas o perdem, consideram o fato uma verdadeira catástrofe cósmica".

Kolakowski propõe salvaguardas, sem as quais os que detêm o poder levarão a sociedade aos mais diferentes tipos de infortúnio: "As ferramentas que o povo tem para o controle do poder nunca são excelentes, e as mais eficazes que a humanidade inventou até o momento para impedir uma tirania arbitrária são: manter as ferramentas de supervisão do poder pela sociedade e limitar a abrangência do poder do país àquilo que é de fato essencial para que a ordem da sociedade seja preservada. Querer regular todas as áreas de nossas vidas, afinal de contas, é o que faz um poder totalitário". Sem transparência, supervisão e prestação de contas a democracia vai para o brejo. O Estado não pode se intrometer onde não foi chamado. 

Sendo a natureza humana tão vulnerável à corrupção do poder, todos deveríamos "tratar os órgãos de poder político com desconfiança, acompanhá-los o máximo possível e, se preciso for, reclamar deles (e isso é sempre necessário)".

Como você pode perceber, há muitas aplicações práticas do que disse Kolakowski à crise política que o Brasil atravessa. Destacaria três pontos:

1. Jamais abrir mão da democracia. Fugir da estupidez e ingenuidade da anarquia (nenhum poder), da tirania (nenhuma ameaça ao poder) e do totalitarismo (nada que não seja regulado pelo poder)

2. Jamais deixar de supervisionar o poder, pressionar o poder, exigir prestação de contas por parte do poder

3. Jamais deixar de desconfiar do poder. O poder causa mutação nos homens. Deforma o caráter. Não há autoridade pública imune à bajulação. No decorrer do tempo, ela passa a acreditar no que é dito a seu respeito. Num grau maior ou menor, é impossível o contato com o poder não deixar sequelas. Por isso, testemunhamos, em não poucas ocasiões, quem provou do poder e o perdeu ver, como num transe, o fato como "catástrofe cósmica", obviamente celebrada por quem anseia tomar o seu lugar.

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Antônio Carlos Costa

é teólogo, jornalista e fundador da ONG Rio de Paz

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