SP não pode mais ficar décadas esperando expansão do metrô

Clarisse Cunha Linke
Luis Antonio Lindau

Especial para o UOL
  • Rogério Canella/ Divulgação

O paulistano tem uma relação quase umbilical com o trânsito, tema que serve de desculpa para o começo de qualquer papo de elevador. Para que o congestionamento saia das amenidades, é preciso falar de forma aprofundada e amparada em evidências sobre mobilidade urbana. Afinal, 83% dos moradores de São Paulo afirmaram, no ano passado, em pesquisa realizada pelo Ibope, que estariam dispostos a trocar o automóvel por um transporte público de qualidade.

Com pouco tempo até a eleição municipal, está na hora de qualificar o debate e cobrar dos candidatos um tratamento sério sobre o assunto. Para isso, a sociedade precisa saber que nesta, que é uma das cidades mais populosas no mundo, apenas 25% das pessoas vivem a uma distância acessível a pé de uma estação de transporte público de qualidade (metrô, trem, BRT ou corredores de ônibus). E que esse índice, chamado de PNT (do inglês People Near Transit), é muito baixo em relação ao de outras cidades: no Rio de Janeiro é de 47%, em Pequim, de 60%, em Nova York, de 77%, e em Paris, de 100%.

Até 2025, São Paulo tem condições de elevar o PNT de 25% para 70%. Basta cumprir as metas estabelecidas para a cidade no Plano Diretor Estratégico e no Programa de Corredores Metropolitanos. São objetivos já traçados, mas que exigirão o comprometimento de quem vai administrar a cidade a partir de 2017.

Será preciso apoio tanto do governo estadual –para viabilizar sistemas sobre trilhos e corredores metropolitanos–, quanto do federal, na busca por opções de financiamento. O Rio de Janeiro, só para ficar em um exemplo nacional, deve mais do que dobrar o seu PNT em menos de uma década: era de 26%, em 2010, e tem previsão de chegar a 56% em 2017. O salto foi baseado no investimento realizado para a Olimpíada, centrado principalmente no BRT, mas que incluiu a ampliação do metrô e a nova linha de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).

A chave para praticamente triplicar o acesso ao transporte de qualidade e reduzir a desigualdade atual –quem tem renda maior é justamente quem tem mais acesso– é expandir, integrar e qualificar a rede de transporte multimodal da cidade. Dos 1,3 mil quilômetros de rede previstos para 2025, 65% são de BRT e de corredores de ônibus. Se você desconfia dessa solução, saiba que sistemas BRT podem ser tão confiáveis e rápidos quanto sistemas sobre trilhos, a um custo de implantação de 6 a 10 vezes menor. Isso sem falar no tempo de construção muito inferior, o que atende à urgência da situação atual.

São Paulo não tem mais como ficar décadas aguardando apenas por novas linhas de metrô, já que em 40 anos foram implementados apenas 80 quilômetros. Não há tempo nem recursos. As pessoas querem deixar o carro em casa, desde que essa troca permita ganhos significativos de tempo e garanta a saída e a chegada no horário. Para isso, não há outro jeito: uma parte do espaço viário, que hoje prioriza desproporcionalmente os veículos particulares, deve ser exclusiva do transporte coletivo. Enquanto isso não ocorrer, o congestionamento continuará sendo uma instituição da cidade, uma marca, uma interminável e repetitiva conversa de botequim. Os moradores da maior cidade do país têm histórias melhores para contar. 

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Clarisse Cunha Linke

é diretora-executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento

Luis Antonio Lindau

é Ph.D em transporte e diretor do WRI Brasil Cidades Sustentáveis

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