Acordo de Paris entrará em vigor: agora precisamos do dinheiro

Agustín Carstens
Patricia Espinosa

Especial para o UOL
  • Charles Platiau/Reuters

Quando se tornar lei, em 4 de novembro, o Acordo de Paris –um tratado global para manter o aumento da temperatura mundial abaixo de 2°C– se consolidará como uma grande conquista e como uma vitória real para o multilateralismo. Porém, ele também leva ao passo seguinte: como esse acordo será implementado em todo o mundo?

Há avanços no sentido de se mobilizar um financiamento de US$ 100 bilhões, em fluxos anuais e até 2020, vindo dos países ricos e do GCF (Green Climate Fund) –que está ajudando a construir a resiliência em projetos de infraestrutura costeira e urbana em Bangladesh, por exemplo– para economias em desenvolvimento.

No entanto, de modo geral, o custo da transição para um futuro de baixo carbono é medido na casa dos trilhões. Cerca de US$ 90 trilhões terão de ser investidos, até 2030, em sistemas de infraestrutura, de agricultura e de energia para que o Acordo de Paris seja cumprido. Isso não vai acontecer sem o capital privado.

Alinhar o sistema financeiro mundial às necessidades da ação climática e ao desenvolvimento sustentável é, portanto, tão importante como estratégias para se reduzir emissões e para a remoção dos subsídios aos combustíveis fósseis. Além disso, diante dos US$ 300 trilhões em ativos –controlados por bancos, mercados de capitais e investidores institucionais–, seríamos confrontados com um problema de alocação, em vez de um de escassez.

Ministros das finanças e governadores dos bancos centrais das nações do G20, por exemplo, recentemente concordaram com um conjunto de opções para melhorar a capacidade do sistema financeiro global de prover investimentos verdes. Uma área promissora é a ascensão do mercado de green bonds (títulos verdes), por meio dos quais empresas e municípios podem levantar recursos para prioridades como energias renováveis, prédios eficientes e gestão de água.

Até esta altura do ano, o valor combinado dos títulos verdes cresceu para mais de US$ 45 bilhões, um aumento de quatro vezes desde 2013. Apenas como exemplo, o banco de desenvolvimento do México, o Nacional Financiera SNC (Nafin), fez sua primeira emissão de green bonds no valor de US$ 500 milhões em novembro do ano passado para financiar energia eólica em Oaxaca, Nuevo Leon e Baixa Califórnia.

Como os mercados de capitais do mundo ainda não incorporam plenamente os fatores climáticos quando precificam ativos e avaliam riscos, o Conselho de Estabilidade Financeira criou uma força-tarefa sob a liderança do ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg. Apenas com relatórios melhores e mais consistentes é que bancos, fundos de pensão e investidores individuais serão capazes de entender como a transição para uma economia de baixo carbono irá afetar os investimentos.

O número total de medidas políticas e regulamentares para construírem um sistema financeiro mais sustentável mais do que duplicou nos últimos cinco anos, subindo para 217 em quase 60 países. Essa é uma das principais conclusões de um relatório publicado pelo Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).

No Brasil, o Banco Central não só estipulou diretrizes exigindo que todas as instituições financeiras estabeleçam políticas de responsabilidade social e ambiental como também está mapeando a implementação de políticas em todo o setor.

Esses são sinais promissores, mas a arquitetura financeira mundial ainda está mal equipada. Os planos climáticos nacionais apresentados pelos governos não fornecem os sinais necessários para orientar o capital à ação climática global. Embora seja verdade que os investidores estão começando a mensurar a pegada de carbono das carteiras e a aumentar a exposição a ativos verdes, apenas uma pequena minoria introduziu estratégias climáticas abrangentes.

O sistema financeiro, claramente, precisa evoluir ainda mais na precificação dos riscos ambientais, na superação da visão de curto prazo e na maior transparência no desempenho climático. Fazer isso acontecer, e com urgência, exigirá que diferentes atores coloquem em prática políticas e regulamentos financeiros sinergéticos que apoiem o Acordo de Paris. Se fizermos direito, o capital privado irá responder e os trilhões necessários para a transformação em todos os países fluirão.

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Agustín Carstens

é presidente do Banco de México

Patricia Espinosa

é secretária executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima

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