Brics estão na vanguarda da ação climática

Naina Lal Kidwai

Naina Lal Kidwai

Especial para o UOL
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O ano passado foi um testamento do amplo apoio mundial à ação para combater as mudanças climáticas.  O Acordo de Paris foi alcançado em dezembro passado, com todos os países encontrando pontos de convergência dentro da visão de um futuro sem carbono.

Menos de um ano depois, mais de cem países o ratificaram –incluindo China, Índia, Brasil e África do Sul. Isso foi incrivelmente rápido, estabelecendo um novo recorde de velocidade para acordos internacionais. E espera-se ainda que mais países venham a aderir nos próximos meses. 

Há muitas medidas importantes sendo tomadas em 2016, particularmente por algumas das maiores economias em desenvolvimento. Nesse contexto, os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) intensificaram suas lideranças no pós-Paris para reduzirem as emissões e promoverem o desenvolvimento sustentável. Com o apoio do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), já foram feitos esforços para incorporar fatores de sustentabilidade nas regras que governam o sistema financeiro.

O NBD (Novo Banco de Desenvolvimento), o banco dos Brics, também tem sido um importante impulsionador, fazendo o financiamento de energia limpa ser uma parte vital de seu mandato. Ele lançou seus primeiros quatro investimentos em abril de 2016, no valor de US$ 811 milhões, todos para projetos de energia renovável. Depois, em julho, emitiu US$ 450 bilhões em títulos verdes no mercado de títulos interbancários da China. O fato de a primeira emissão de dívida do NBD ter sido projetada para financiar energia limpa já envia um sinal importante.

Quando analisamos país a país, vemos que os Brics estão fazendo grandes progressos para integrar o significado do Acordo de Paris a suas estratégias econômicas. No início deste ano, a China revelou seu mais recente plano quinquenal, mapeando a estratégia do país para o desenvolvimento econômico e social. O plano que abrange o período de 2016 a 2020 dá grande ênfase ao esverdeamento da economia. Na verdade, a matemática sugere que a China provavelmente irá superar seus compromissos climáticos para 2020.

O governo chinês está agindo rapidamente. Nos primeiros oito meses de 2016, a China fechou 150 milhões de toneladas de capacidade de mineração de carvão, com outras 100 milhões de toneladas de capacidade programadas para terminar no final do ano.
Não é à toa que a China não precisa mais de carvão. Ela tornou-se um gigante na economia sustentável. No ano passado, a China investiu cerca de US$ 100 bilhões em energia renovável –isso é 36% do total global. No próximo ano, planeja implementar o maior sistema de comércio de emissões do mundo, expandindo seus sete sistemas-piloto de negociação para o nível nacional.

Ao lado, nós da Índia temos sonhos próprios e emocionantes de energia limpa. A Índia comprometeu-se a expandir sua capacidade renovável de 34 gigawatts, em 2015, para 175 gigawatts, até 2022. Para se certificar de que esse objetivo é viável, em abril o governo divulgou metas detalhadas de como chegar até lá.

Em outro movimento encorajador, a Índia tem eliminado os subsídios ao diesel e à gasolina. E, em março de 2016, o governo dobrou o imposto sobre o carvão, o lignite e a turfa, destinando os recursos para o financiamento de energia limpa.

O ano de 2016 foi um período importante também para o Brasil principalmente por que os Jogos Olímpicos foram realizados no Rio de Janeiro, que não desperdiçou a oportunidade de destacar as mudanças climáticas.

Na cerimônia de abertura, foi transmitido um vídeo sobre o aquecimento global a uma audiência global de bilhões, dando à questão uma visibilidade que raramente recebe. Por seu turno, o Brasil pretende aumentar sua proporção de energias renováveis ​​não hidrelétricas de menos de 10% hoje para 23% até 2030.

Os outros países dos Brics estão tomando medidas positivas também. No início do próximo ano, a África do Sul pretende tornar-se o primeiro país africano a implementar um imposto sobre o carbono. E, no início deste ano, ela construiu o primeiro aeroporto de energia solar da África.

A Rússia, entretanto, começou a reformar reduções de impostos e alguns dos subsídios a combustíveis fósseis. Seus compromissos com o Acordo de Paris talvez não tenham sido particularmente ambiciosos, mas sua estratégia energética visa gerar 4,5% da eletricidade proveniente de fontes renováveis ​​até 2020 –hoje, esse percentual é inferior a 1%.

Em vez de nos grandes momentos dentro da arena do clima, este ano, todos os olhos estiveram nos EUA e na sua recente eleição. Porém, isso não deve nos distrair do importante trabalho que precisa ser feito. A conferência em Marrocos serviu de base para os próximos anos de ação climática e pode ajudar a aumentar a ambição para garantir que todos façamos nossa parte para limitar o aquecimento global dentro de níveis seguros. Garantir o bem-estar dos cidadãos de todos os países é um bom objetivo para nós.

Precisamos acelerar o que até hoje tem sido uma "revolução silenciosa". A necessidade atual, agora mais do que nunca, é que esses países realmente demonstrem liderança na atuação sobre o clima. Os países em desenvolvimento desempenharam um papel substancial na condução do Acordo até a linha de chegada. Agora eles devem tomar a iniciativa de tornar a economia de baixo carbono uma realidade.

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Naina Lal Kidwai

é membro da Comissão Global de Economia e Clima e ex-presidente do HSBC Índia

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