Brasil sofria de 'nanomania', de se achar menor do que é, diz ex-chanceler Celso Amorim

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

  • Bruna Prado/UOL

    O ex-chanceler Celso Amorim, em sua casa no Rio

    O ex-chanceler Celso Amorim, em sua casa no Rio

Em entrevista ao UOL, Celso Amorim, 75, diplomata de carreira e ex-ministro das Relações Exteriores nos governos petistas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da Defesa no primeiro governo da presidente Dilma Rousseff, sai em defesa da estratégia adotada então, de ampliar a influência brasileira no mundo. Por exemplo, via maior participação na política e economia dos países da África e do Oriente Médio.

Esteve na ordem do dia também a pretensão do Brasil de ingressar no restrito Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), formado por cinco países (Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China) com poderes de arbitrar conflitos internacionais.

"A política externa que nós levamos adiante foi uma política externa que sabe valorizar o Brasil. Valorizar o que o Brasil é, não só pela extensão territorial, pelo tamanho da economia", explicou por telefone o ex-chanceler, que também ocupou o cargo no governo do presidente Itamar Franco.

Foi uma resposta direta a críticas do seu antecessor no comando do Ministério das Relações Exteriores, o jurista e cientista político Celso Lafer, no segundo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), feitas em entrevista ao UOL publicada na quarta-feira (28).

Para o tucano Celso Lafer, faltou senso de realidade à política externa dos governos Lula, coordenada pelo petista Amorim, que buscaria objetivos impossíveis de ser obtidos no contexto de então, fazendo também escolhas erradas e custosas.

Celso Amorim rebate a suposta megalomania de acreditar que o Brasil podia mais: "O que houve foi 'nanomania' [neologismo para um pensamento muito pequeno] em outros momentos, de achar que o Brasil é menor do que é".

Para o ex-chanceler de Lula, a visão que apequena o Brasil está diretamente ligada à preservação dos interesses de uma elite que subtrai o país, explorando a sua população.

"Mas, no dia em que o Brasil se tornar um país realmente mais independente, que puder falar com a sua voz, essa elite perde a razão de ser, porque ela vive à sombra desse guarda-chuva."

De Celso em Celso, o Brasil tenta (re)encontrar seu caminho no mundo.

Leia os principais momentos da entrevista.

UOL - Em entrevista ao UOL, Celso Lafer [ministro das Relações Exteriores no governo do presidente Fernando Collor de Mello (PRN), em 1992 (de abril a outubro), e também nos dois últimos anos do segundo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 2001 e 2002] avaliou criticamente a política externa dos governos Lula. Basicamente, ele dizia que faltou senso de realidade. Que certos pleitos, como o do Conselho de Segurança da ONU, de pleitear uma carreira nele [revelaria essa falta de senso, por não serem demandas possíveis, naquele momento].

Celso Amorim - Isso aí [da vaga no Conselho de Segurança], por exemplo, é uma grande bobagem, porque essa política não é do governo Lula, só. Essa política, quem a lançou, isso vem desde 1945. O [Franklin Delano] Roosevelt [presidente dos Estados Unidos entre 1933 e 1945, quando morreu] queria que o Brasil fosse membro. E o Celso Lafer, que é um historiador, respeito-o como acadêmico, sabe disso. Quem reiterou isso, em tempos mais recentes, foi [o governo] Sarney [entre 1985 e 1990], inicialmente, depois no governo Itamar [Franco, 1992-94] e no governo Fernando Henrique [de 1995 a 2002]. Eu era embaixador na ONU do governo Fernando Henrique.

Além do quê, acho que o Brasil fez a coisa certa, porque nós não gastamos nenhum capital político com isso. Só para pegar um ponto do que você está perguntando: se juntou um grupo seleto de países, que é a Alemanha, Japão e Índia, sabendo que teria que ter um outro plano também, para trabalhar por uma reforma [no conselho]. A reforma virá? Não sei. Mas o que quero dizer é o seguinte: se vier, você tem que estar com o pé na porta. Se você ficar quieto, você é excluído. Eu não sei se o Brasil está sendo realista agora, na opinião dele [de Celso Lafer], [mas] o Brasil não é reconhecido em lugar nenhum. Quando eu tinha dito que o G7 [grupo dos sete países mais ricos do mundo, excluindo o Brasil] tinha morrido, todo mundo me criticou. Pouco tempo depois o [Barack] Obama [presidente dos EUA de 2009 a 2017] disse que o G20 [grupo com os 20 países mais ricos do mundo, incluindo o Brasil] tinha se tornado o principal órgão para tratar dos assuntos econômicos e financeiros internacionais.

Então, esse realismo acaba levando, e eu não quero falar mal do professor Celso Lafer, que é uma pessoa que estimo, mas isso acaba resultando numa, digamos, passividade, que leva à subserviência. Pode até não ser a intenção, mas acaba levando a isso. A política externa que nós levamos adiante foi uma política externa que sabe valorizar o Brasil. Valorizar o que o Brasil é, não só pela extensão territorial, pelo tamanho da economia, pela população, pelo fato da mestiçagem, todas as coisas a que você vê normalmente críticas, ouve internamente, externamente eram apreciadas.

Nossa presença no Oriente Médio, por exemplo. Eu nunca pedi para ir [até lá], nem o presidente Lula. As pessoas é que nos chamavam, nos pediam. Quando eu estava aqui e uma revista cujo nome não pronuncio botou minha foto ao lado da do [Mahmoud] Ahmadinejad [presidente do Irã até 2013], como se eu fosse inimigo de Israel, [Benjamin] Netanyahu [primeiro-ministro de Israel] estava me pedindo, ao Lula, porque eu estava presente e fui executar e depois conversei com ele eu mesmo, que o Brasil ajudasse na mediação com a Síria em torno das colinas de Golã.

ATTA KENARE/AFP
Amorim e Lula, em 2010, com autoridades iranianas, como o presidente Ahmadinejad (ao centro), e o primeiro-ministro da Turquia, Erdogan (segundo da dir. para a esq.). Aproximação criticada pela oposição

Quando nós fizemos o acordo com o Irã sobre material nuclear, programa nuclear, estava respondendo a um pedido do presidente Obama. Não funcionou naquela ocasião, porque os Estados Unidos tiraram o tapete, mas anos depois eles fizeram a mesma coisa. Claro que não é idêntico, porque os tempos mudam e as coisas mudam, mas no mesmo espírito.

A política africana, além do lado afetivo, emocional, espiritual, nosso comércio [com os países africanos] quintuplicou em seis anos, com os países árabes, idem. Na América do Sul, a mesma coisa. Exportamos manufaturas, inclusive. Sinceramente, é só olhar para a história e vamos ver de que período da política externa do Brasil as pessoas vão se lembrar. Pergunte a qualquer pessoa da área internacional.

A multiplicação das embaixadas na África foi excessiva?

Felizmente, esse governo [do presidente Michel Temer, MDB], com todos os defeitos que tem, não foi coerente e não fechou nenhuma, ao contrário, ainda deve estar pensando em abrir outras [embaixadas]. E pelo menos o ministro [Aloysio Nunes Ferreira, do PSDB, atual chanceler] visitou uma em que eu nunca tinha estado, no Maláui. Isso resultou num grande aumento do nosso comércio. Mas eu fico preocupado, as pessoas começam a falar: "O Brasil tem mais embaixadas que a Alemanha [na África]". Claro, 50% da nossa população é de origem africana. Agora, as pessoas não se olham no espelho, ou se olham no espelho mas não coletivamente. E é por isso que você vê hoje soldados brancos apontando baioneta para criança preta [referência a incidentes de agora da intervenção federal no Rio de Janeiro].

Então não houve uma megalomania naquele momento, foi uma oportunidade mesmo?

O que houve foi "nanomania" [neologismo para um pensamento nano, micro, muito pequeno] em outros momentos, de achar que o Brasil é menor do que é. Como é que se pode ser megalômano, gente? O Brasil é o quinto país do mundo em território, um dos países que têm mais fronteira com outros países, o quinto em população, chegou a ser a sétima economia do mundo. Qual é a megalomania? E a presença do Brasil era requisitada, não fomos nós que fomos ao Irã, o Obama pediu ao Lula para ajudar nessa questão. O ministro do Exterior da Palestina atravessou meio mundo para tomar um café da manhã, porque era o único tempo que nós tínhamos para eles aqui. Eu respeito o Celso Lafer intelectualmente, mas acho que politicamente é um total equívoco. Eu acho que o governo, de que ele foi chanceler numa certa época e de que fui embaixador na ONU, então eu trabalhei para a questão do Conselho de Segurança, isso é uma realidade que um dia virá, ou, se não vier, serve para outros campos, você reconhece, por exemplo, que o G20 pode vir a ter um papel político para ajudar o Brasil.

Agora, se você ficar encolhido o tempo todo, isso, como chamam os norte-americanos, de uma profecia autocumprível, você não vai fazer nada, não será nada e continuará pequeno. E eu acho que é um desejo da elite política brasileira de ser pequena, não estou falando do professor Celso Lafer, porque ela vive dessa dependência do exterior. Mas, no dia em que o Brasil se tornar um país realmente mais independente, que puder falar com a sua voz, essa elite perde a razão de ser, porque ela vive à sombra desse guarda-chuva.

Quando o governo do PT entrou, o senhor sucedeu o Celso Lafer naquele momento ali, houve um trabalho de tratar aquilo que estava sendo feito [no governo anterior] como uma "herança maldita", não?

Não, eu não tive essa preocupação em termos de Ministério das Relações Exteriores e as coisas boas nós levamos adiante. Não tive absolutamente essa preocupação. Agora, a negociação da Alca [Área de Livre Comércio das Américas, apresentada pelos Estados Unidos em 1994 e que não se efetivaria], que estava muito mal parada para nós, não íamos poder continuar a quebrar patente para produzir remédios, provavelmente nós não poderíamos usar compras governamentais como instrumento de política industrial, enfim, íamos fazer concessões imensas em várias áreas, com pouquíssimo ou nenhum ganho para o Brasil, isso realmente eu fui contra. Agora, não tive nenhuma preocupação em ficar diferenciando do governo anterior, nenhuma, zero.

Então houve uma continuidade também?

As ênfases mudaram e a política externa, como eu anunciei que seria, foi muito mais ativa e altiva. Não é que a política externa do Brasil fosse contra a África, mas o ministro [das Relações Exteriores] do Brasil não ia à África. O presidente nunca ia à África, ou ia pouquíssimas vezes. A política para os países árabes não existia. Qual era a presença que o Brasil tinha? As posições até variaram um pouquinho, não foram muito diferentes, mas não tinha presença. Eu fui embaixador muitos anos no exterior. Cada vez que fui tomar uma iniciativa, [diziam]: "Toma cuidado, não pode descontentar os Estados Unidos, a Europa, olha aí, não cutuca a onça com vara curta". Era isso que atrapalhava, era mais esse temor. Eu ouvi um comentário, por exemplo, veja só, no caso da Organização Mundial do Comércio [OMC], quando a gente ia tomar uma atitude: "Olha, não apareça muito junto com a Índia". Meu Deus, a Índia é um capitalismo liberal, mas havia o temor de descontentar os patrões.

Fernando Bizerra JR./EFE
Lula recebe o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, e o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, para cúpula em 2010

Quando o senhor fala de África, o senhor conhece muito bem lá, é muita diversa, tem os [países] lusófonos, enfim, tem de tudo ali...

Tem de tudo, não, tem africanos, sobretudo. Tem de tudo lá, como tem de tudo na Europa, em qualquer lugar do mundo.

Se a gente elegesse alguns países, alguma prioridade, não sei se tinha isso também.

Isso aí é uma coisa infantil. Primeiro a exportação é um somatório, você não exporta só para um país. Eu vou lhe dizer uma coisa, só para sua instrução: na época em que eu era ministro, cheguei a fazer o cálculo que a África, em seu conjunto, seria o quarto maior mercado para o Brasil. Depois da China, Estados Unidos e Argentina, ou Argentina e Estados Unidos, dependendo do ano. Na frente da Alemanha. Então não é pouca coisa nem do ponto de vista comercial. Agora, esse é um somatório, o que você exportava para um país, para outro, e mesmo nos pequenos você tem interesse político. Eu fui ministro da Defesa [no primeiro governo da presidente Dilma Rousseff (PT), entre 2011 e 2014], e o Atlântico Sul é de vital interesse para o Brasil. E ter uma boa política com a África... Mandei navios brasileiros lá fazerem exercícios conjuntos com países africanos, país pequeno, Cameroon [Camarões], mas nos interessa.

Com essa visão pequena, mesquinha do Brasil, eu não posso concordar. Não posso concordar. E tenho a esperança de que um dia o Brasil redesperte, pode não ser com a mesma política, pode ser A, pode ser B, não sei. O próprio governo Fernando Henrique foi melhor em política externa do que essa que está sendo feita agora. Agora, é lamentável. Eu fui ministro do governo Itamar também [das Relações Exteriores, entre 1993 e 1995], cada época tem o seu trunfo, seu momento.

Eraldo Peres/AP
Posse como ministro da Defesa da presidente Dilma, em 2011

Megalomania? Megalomania é você não olhar para o mapa, não olhar para a população, para o prestígio que o Brasil tinha no exterior. Hoje, infelizmente, esse prestígio está muito baixo. Agora já estão [os estrangeiros] entendendo, mas, no início, nem sequer entendiam o que estava se passando aqui. É megalomania você querer ter a Embraer como empresa nacional? É megalomania querer ter a Petrobras explorando o nosso petróleo? É megalomania querer ter um submarino de propensão nuclear? Você pode achar, mas eu não acho. Tem todas essas coisas que não são, a rigor, política externa, mas têm a ver com uma visão do Brasil socialmente justo e capaz de defender seus interesses.

Aqui a ideia é de que a gente possa sair um pouco do Fla-Flu, não precisamos disso [polarização], na verdade. Digo de se colocar o tema [visão das relações exteriores em debate]...

Eu sou Flamengo, de modo que eu não sei como você quer que eu saia do Fla-Flu [risos]. Olha, deixa eu te dizer: eu não sou acadêmico, o professor Celso Lafer é, mas vou falar uma coisa meio acadêmica. Também já fui professor de teoria política e de relações internacionais. Você me perguntou sobre continuidade [de políticas do governo FHC nos governos do PT]. Há elementos de continuidade e de ruptura. O que está na Constituição brasileira continuou. Talvez com uma ênfase maior, por exemplo, numa integração latino-americana. Nós demos mais ênfase, sobretudo na América do Sul. E não fizemos mais nada a não ser cumprir a Constituição. Agora, não vou dizer que os outros [governos] não tiveram [uma ação], mas tiveram um nível menos enfático, porque estavam preocupados com outras coisas.

Agora, como a política externa no Brasil, ao longo do tempo, sempre foi dominada pela elite, obviamente que um governo mais progressista, liderado por um operário, tinha elementos, sim, de ruptura. Indiscutivelmente tinha.

Como a política externa deve ser tratada agora na corrida eleitoral? O que precisa ser colocado?

É uma coisa muito simples: o que a gente tem que fazer é voltar a ter uma política externa ativa e altiva. Apesar das dificuldades atuais, voltar a tratar da integração da América do Sul, voltar a ter uma política mais ativa com a África, fortalecer os Brics [bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul], que estão aí, não acabaram, apenas o Brasil foi ficando mais a reboque. Trabalhar pela multipolaridade no mundo, junto com outros países, para que não haja uma hegemonia única. Não são só os Estados Unidos, não. Nós não queremos dominação de ninguém. Agora, é sobretudo uma questão de atitude.

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