Operação Lava Jato

Estou cansado de mentiras, diz Lula em 1ª aparição pública após a prisão

Hanrrikson de Andrade e Luís Kawaguti

Do UOL, no Rio

Em sua primeira aparição pública desde que foi preso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demonstrou bom humor nesta terça-feira (5) e disse, em depoimento, que seu compromisso "é com a verdade" e que está "cansado de mentiras". O petista criticou também o que classificou como "momento de denuncismo" e chegou a brincar com o juiz Marcelo Bretas, responsável pela Lava Jato no Rio.

Lula prestou depoimento de cerca de 50 minutos por videoconferência como testemunha de defesa do ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB), que é réu em uma ação penal que investiga suposta compra de votos para escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Pouco antes da abertura da audiência, Lula viu sua imagem em um telão e disse em tom de brincadeira: "Estou bonito, hein?". Bretas ouviu o comentário e ironizou: "Não fala mal de mim que estou ouvindo, hein". "Eu sei, estou com o microfone aqui na frente", rebateu o ex-presidente.

Vestido com terno escuro e gravata com as cores da bandeira brasileira, Lula falou que a gravata era a mesma que ele usou no dia em que o Rio foi escolhido como sede da Olimpíada. "Essa gravata é das Olimpíadas. Eu a carrego até ela ficar desmontando aqui."

Reprodução
Vestido com terno escuro e gravata com as cores da bandeira brasileira, Lula chegou a brincar: "Estou bonito, hein?"

Antes de iniciar as perguntas, Bretas autorizou que Cabral se dirigisse a Lula. Com a voz embargada, o ex-governador prestou condolências ao petista pela morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia. Lula apenas agradeceu.

No começo do depoimento, o juiz alertou o ex-presidente que, na condição de testemunha, ele deveria apenas responder às perguntas formuladas pelos advogados e eventualmente pelo próprio magistrado. Observou que a audiência não seria espaço para discursos políticos. "O senhor não está aqui se defendendo", afirmou Bretas ao ex-presidente.

Lula, que está preso desde o dia 7 de abril, respondeu que seu compromisso "é com a verdade" e que estava "cansado de mentiras". "No Brasil, não tem nenhum brasileiro que quer mais a verdade do que eu", declarou.

Ao longo do depoimento, o ex-presidente foi interrompido duas vezes por Bretas, que alertou que o depoente estava fugindo do assunto. Após algumas tentativas de interrupção por parte de Bretas, Lula retrucou: "Mas isso aqui não é um depoimento de sim ou não".

Não houve 'trapaça' na escolha do Rio, diz Lula

Lula negou que tenha ocorrido "trapaças" na escolha do Rio. O petista relatou ter participado de reuniões com chefes de estado e autoridades olímpicas internacionais para "pedir votos", mas rechaçou a versão da força-tarefa da Lava Jato.

"Acho que alguém que fala que foi uma trapaça é porque não entende nada de nada e não viveu o que nós vivemos", declarou o político. "Poucas vezes vi o país unido como em torno das Olimpíadas."

O petista argumentou ter criado um decreto em 2009 para que a CGU (Controladoria-Geral da União) fiscalizasse e desse transparência "a todos os atos da Olimpíada".

Afirmou ainda que o país vive um "momento de denuncismo", em referência à atuação dos procuradores do MPF (Ministério Público Federal) e das investigações da Lava Jato. "Eu não sei de quem é essa denúncia e não quero saber", comentou.

Fábio Motta/Estadão Conteúdo
Cabral foi à Justiça Federal para acompanhar depoimento do ex-presidente Lula

Bretas diz que já usou boné e camiseta com nome de Lula

Ao fim do depoimento, Bretas elogiou Lula pelo comportamento durante a audiência e citou um fato pessoal. "Aos 17 ou 18 anos, eu estava aqui em um comício na avenida Presidente Vargas, vivíamos um momento diferente no país. Estava lá usando um boné e uma camiseta no seu nome", declarou ele. Com bom humor, Lula respondeu: "Pode voltar agora".

"Quando eu fizer um comício agora vou chamar o senhor para participar", completou o ex-presidente, que é o pré-candidato do PT este ano.

Defesa não quis que Lula deixasse a sede da PF

A videoconferência ocorre na própria carceragem da PF, em Curitiba, onde Lula está preso, a pedido da defesa do petista e com anuência do MPF.

A expectativa era de que o petista deixasse a polícia para depor na Justiça Federal do Paraná, que fica cerca de 5 km de distância.

Os depoimentos por videoconferência são comuns nas ações penais da Lava Jato no Rio. O próprio Cabral depôs em vídeo em fevereiro deste ano, quando estava no Complexo Médico de Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. Na ocasião, ele se manteve em silêncio.

Entenda o caso

Lula foi arrolado como testemunha de defesa na ação penal referente à Operação Unfair Play, que investiga compra de votos na escolha Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Foi essa ação que motivou a prisão do então presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil), Carlos Arthur Nuzman, e de Leonardo Gryner, seu braço direito no comitê organizador da Rio-16.

Nuzman é investigado sob suspeita de ter sido o elo entre o esquema de corrupção do governo Sérgio Cabral (PMDB) e os membros do comitê internacional.

O esquema teria comprado o voto de dirigentes africanos para que o Rio de Janeiro fosse favorecido na disputa ocorrida em 2009, ano em que Lula presidia o país.

Veja a íntegra do depoimento de Lula

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